Página 13 divulga artigo de Bruno Martinotto, militante do PT, a respeito da polêmica sobre a bandeira “Fora Bolsonaro”

 

Avançar no acúmulo político da esquerda: uma opinião acerca do “Fora Bolsonaro”

 

Não é novidade que, nos últimos dias, vem circulando na esquerda um intenso debate acerca da proposta de impeachment e do Fora Bolsonaro. Depois das últimas barbaridades proferidas pelo presidente acerca das vítimas da ditadura militar1, a bancada do Partido dos Trabalhadores na Câmara, especialmente na figura de seu líder, o deputado Paulo Pimenta (PT/RS), passou a propor a abertura de um processo de impeachment2. Desde já, opino que não acredito ser possível uma vitória desse procedimento no mesmo Congresso que aprovou por 379 votos a reforma da previdência, o que não impede absolutamente que, no terreno da luta institucional, utilize-se desse artifício como ponta de desgaste de Bolsonaro e seus asseclas.

Dito isso, há na esquerda combativa ao menos outras duas posições sobre a tática mais adequada para o momento político. De um lado há aqueles que defendem, partindo de um diagnóstico de uma crescente impopularidade do governo, que a tarefa imediata da oposição deve ser a derrubada de Bolsonaro, com Lula Livre e Novas Eleições. É o caso, por exemplo, da posição divulgada pelos camaradas do Partido da Causa Operária3.

De outro lado, existe na esquerda a posição segundo a qual o governo, apesar dos desgastes crescentes, contaria ainda com o apoio da maioria das classes dominantes, das Forças Armadas, da mídia burguesa e do Poder Judiciário, além de uma indisposição da maioria da classe trabalhadora de travar nas ruas a luta por sua derrubada imediata. Desse diagnóstico, sugere-se que o centro da tática deve, ainda, ser a resistência popular às reformas promovidas pelo governo para destruir os direitos sociais e políticos do povo brasileiro, sem prejuízo de que sejam erguidas bandeiras como o “Fora Bolsonaro” e “Novas Eleições”, não como centralidade tática, mas com uma função de desgaste. Segundo essa posição, apenas em um cenário de ampla mobilização social, com uma alteração profunda na correlação de forças, as citadas bandeiras políticas tomariam a centralidade de nossa tática4.

A posição acima colocada está, no geral, correta em seu diagnóstico acerca do governo Bolsonaro. De fato, o governo vem acumulando desgastes e sua impopularidade vem aumentando sem que, contudo, o núcleo duro das classes dominantes demonstre disposição em apeá-lo. Aliás, mesmo a impressão de aumento constante da impopularidade do governo, embora verdadeira, não deve ser superestimada, uma vez que, ao que indicam algumas pesquisas de opinião, cerca de 1/3 da população brasileira apoia o governo e concorda mesmo com os posicionamentos mais execráveis do presidente5.

Uma operação de derrubada de Bolsonaro, no atual cenário, exigiria uma batalha política extremamente desgastante, uma vez que o presidente e seus filhotes demonstram que lutarão com unhas e dentes por sua posição, valendo-se de mobilizar sua base social nas ruas, ampliar a perseguição policial através do ministro proto-fascista Sérgio Moro, e até mesmo operar uma tentativa de fechamento de regime. Do ponto de vista do capital financeiro, tal operação, pelo menos por enquanto, parece valer a pena, uma vez que, como disse um certo banqueiro parasita (com o perdão do pleonasmo): “o avanço das reformas não tem sido influenciado pelas turbulências políticas”6.

Desse ângulo, a avaliação de que o governo estaria fraco, cambaleante, realmente mostra-se equivocada. Há que se considerar que muitos setores, dentre os quais se destaca o presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM), o governador de São Paulo João Dória (PSDB), além do jurista golpista Miguel Reale Júnior, deram declarações públicas no sentido de afastar-se da figura do presidente. Essas movimentações não devem ser interpretadas como uma certidão de óbito do governo, mas como forma encontrada por uma parcela descontente das classes dominantes em não serem atingidas pelo crescente desgaste de Jair perante a opinião pública, além de ensaiarem um possível descolamento desses do atual governo. Entretanto, conforme já mencionado, o núcleo duro da burguesia não parece ter disposição para uma aventura contra o bolsonarismo, por enquanto.

Apesar do acordo com o diagnóstico acima descrito, não tiro as conclusões de que, diante desse quadro, a oposição deva atribuir às palavras de ordem “Fora Bolsonaro, Lula Livre, Novas Eleições” uma posição secundária em relação à luta contra as reformas. Argumenta-se que a luta contra as reformas não impede que circulemos palavras de ordem desse cunho como forma de desgaste e acúmulo. Numa diferença que pode parecer sutil, defende-se aqui que as forças democrático-populares não só podem, como devem colocar na centralidade do debate público, desde já, a necessidade de derrubar o governo (Bolsonaro, Mourão, et caterva), libertar o principal preso político do país e convocar eleições verdadeiramente livres, diferentes da fraude eleitoral consagrada em 2018.

Não se trata de acreditar que haveria, na atual conjuntura, a correlação de forças necessárias para essa tarefa, e justamente por isso, seria um equívoco e uma irresponsabilidade política apontá-la para uma centralidade tática imediata. De fato, se assim fizéssemos, a maioria do povo não atenderia imediatamente essa convocação e provavelmente seríamos derrotados, o que poderia causar desânimo e desmobilização em nossas fileiras. Entretanto, se não demonstrarmos para o conjunto da classe trabalhadora a disposição de derrotar definitivamente o governo, poderemos deixar de mobilizar aqueles setores que, de uma forma ou de outra, apresentam essa disposição, setores esses que, embora não pareçam no curto prazo ter a amplitude necessária para tal operação, são indubitavelmente crescentes.

Em outras palavras: nem o “Fora Bolsonaro” se constituiria como a tarefa imediata da esquerda, sob o risco de uma derrota desmobilizante, mas tampouco o “Fora Bolsonaro” poderia ser ignorado por nossas organizações, sob pena de que os níveis crescentes de insatisfação popular com o governo possam ser instrumentalizados por uma possível saída conservadora para a crise política. Não conseguiremos avançar na luta contra as reformas nem impor derrotas pontuais ao governo sem uma ampla mobilização que encampe uma luta de conjunto contra a extrema-direita. Se agirmos dessa maneira, as mobilizações contra medidas parciais do governo poderão ser continuamente derrotadas (como no caso da derrota acachapante da reforma da previdência), o que também gerará desânimo, dispersão, desacumulo e confusão do lado de cá, cumulado com o agravante da desmoralização de nossas organizações.

Com essa opinião, não nutro as ilusões de alguns, que parecem acreditar que o único impeditivo para uma derrota definitiva do bolsonarismo é que os partidos de esquerda e movimentos sociais convoquem o “Fora Bolsonaro”, numa argumentação do tipo “as condições estão dadas, basta querer”. Entretanto, também não compartilho da ideia de que, não estando dadas as condições imediatas, o melhor a fazer é tratar as palavras de ordem ofensivas de modo auxiliar, secundário. As condições não estão dadas, mas há caldo político para criá-las. O papel da esquerda é demonstrar para a toda a classe trabalhadora e demais setores populares, mergulhados no poço da austeridade, precarização, desemprego e desalento, o caminho político para superar de conjunto a crise instaurada pelo golpe.

Como disse o companheiro Rogério Correia7, é preciso dar um passo a frente na luta contra o governo Bolsonaro. Aliar a resistência popular com uma postura mais ofensiva, que aponte para um objetivo político claro. Do ponto de vista da esquerda combativa, esse passo a frente deverá aliar a resistência tática contra a destruição do Brasil a uma bandeira propositiva radical: Fora Bolsonaro, Lula Livre, Eleições Livres Já!

 

*Bruno Martinotto é militante do PT.

 

Referências:

1 https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2019/07/29/declaracao-de-bolsonaro-sobre-desaparecido-na-ditadura-provoca-reacoes.ghtml

2 https://www.brasil247.com/midia/paulo-pimenta-se-nada-fizerem-nos-restara-o-impeachment

3 https://www.causaoperaria.org.br/e-preciso-colocar-o-fora-bolsonaro-como-centro-da-luta-no-dia-13/

4 https://www.pagina13.org.br/sobre-a-polemica-do-impeachment-e-do-fora-bolsonaro/

5 https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/08/cerca-de-13-pensa-como-bolsonaro-em-temas-de-frases-agressivas-indicam-pesquisas.shtml

6 https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/07/presidente-do-itau-avalia-que-declaracoes-de-bolsonaro-nao-atrapalham-reformas.shtml

7 https://pt.org.br/rogerio-correia-hora-de-um-passo-a-frente-na-luta-contra-bolsonaro/

 

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