Por Wladimir Pomar (*)

Segundo o noticiário, o governo Bolsonaro pretende manter baixos e limitados os valores das parcelas do auxílio emergencial repassado pela União durante a pandemia. Segundo o presidente “E daí?”, a “União” não aguentaria a dívida criada com esse custo.

Assim, ao mesmo tempo que se nega a encarar a pandemia como um assassinato em massa dos afetados pelo Covid-19, ele pretende acrescentar mais desgraça aos levados ao desespero pela fome e pelas condições de vida miseráveis. Dados genéricos apontam que mais de 50 milhões de brasileiros estão na condição miserável de abandono, enquanto os noticiários informam que os ganhos propiciados pelas riquezas financeiras do 1% rico têm crescido, apesar da pandemia.

Dizendo de outro modo, enquanto o governo Bolsonaro se nega a prover a maioria mais pobre da população brasileira com uma ajuda insignificante, mas essencial, para evitar que a miserabilidade aumente ainda mais e se torne tão mortífera quanto a pandemia, a minoria rica aproveita-se da desgraça para enricar ainda mais, e fazer crescer seu poder sobre as decisões governamentais.

Essa dicotomia entre a crescente riqueza de uma minoria insignificante da população e a crescente pobreza e miserabilidade de um número cada vez maior de pobres e remediados também já se tornou uma realidade trágica em países capitalistas avançados. Neles há um crescimento constante de trabalhadores levados ao desemprego tecnológico, seguido de fenômenos desesperantes como o endividamento crescente e a falência pessoal e familiar.

Uma das diferenças com o Brasil consiste que, em tais países, a indústria torna-se cada vez mais tecnologicamente capaz de elevar a produção e a riqueza, mas sofre com a crescente redução do mercado de consumo, à medida que o avanço tecnológico reduz a necessidade de emprego de mão-de-obra, gerando uma contradição só sanável com a eliminação da propriedade privada.

No Brasil, porém, os principais fatores do desemprego, da precarização do trabalho, e da miserabilidade de massas crescentes da população, estão principalmente relacionados com a desindustrialização crescente e, em parte, com o avanço tecnológico da agricultura latifundiária e com uma política governamental que pretende, através de uma privatização canibal, valorizadora da riqueza financeira, liquidar a capacidade do Estado em gerar oportunidades de trabalho, de renda e de desenvolvimento.

Ou seja, as políticas econômicas Bolsonaro-guedistas pretendem acentuar o poder dos detentores de títulos e direitos sobre a renda e a riqueza, que concentram suas aplicações lucrativas nos mercados financeiros, independentemente da produção de bens indispensáveis à continuidade da vida humana. E, também, independentemente da crescente descontinuidade da produção de bens industriais, o que reduz as ofertas de emprego, transforma milhões de pessoas em pretensos “empreendedores” com renda decrescente, amplia a classe dos miseráveis sem eira nem beira, e os obriga a uma luta desesperada pela sobrevivência do dia a dia.

Diante disso, ainda mais do que antes, seria necessário tornar o auxílio financeiro de enfrentamento da pandemia do Covid-19 num instrumento não só de sobrevivência, mas também de geração de trabalho, de renda e de desenvolvimento. Ou seja, entre outras medidas de retomada da industrialização, ao invés de dar continuidade ao plano de privatizar as estatais, transformá-las em centros de empreendimentos industriais de grupos de trabalhadores, elaborando com eles projetos específicos, a serem financiados pelo Estado, para retomar a geração de riqueza e de desenvolvimento em outras bases.

Portanto, ao invés de simplesmente transferir renda para a sobrevivência dos mais pobres, trata-se de elaborar e colocar em execução projetos que, além de garantir a vida deles, os transformem em produtores efetivos de bens necessários à sua vida e à vida de outros milhões de brasileiros, e criem um novo ciclo de expansão industrial, agrícola e comercial. Essa deveria ser uma das formas principais de transformar as desgraças da pandemia numa nova perspectiva de vida.

O que, é lógico, também deveria ser acompanhado de uma nova política de tributação do sistema de jogatina financeira, não só extraindo dele recursos para irrigar investimentos estatais e privados produtivos, mas também reduzindo sua atração de alta rentabilidade e seu poder sobre as políticas do Estado.

Dizendo de outro modo, para derrotar a vertente política nazo- bolsonarista, que pretende transformar o Brasil em colônia norte-americana, e utilizar a “gripezinha” do coronavírus para desgraçar  centenas de milhares de vidas, as correntes políticas democráticas e populares de oposição precisam incorporar à luta social e política um programa de luta econômica que retome, em novas bases, um processo  industrializante e agrícola, que conte com a participação ativa de milhões de trabalhadores urbanos e rurais, e mude radicalmente o caminho de destruição privatista da economia nacional.

O povo brasileiro não quer “auxílio” para morrer de fome. Quer e merece recursos para investir produtivamente e, com isso, conquistar uma vida digna. Do ponto de vista estratégico, seria um engano supor que a multiplicação dos serviços, e mesmo da pequena e média agricultura, seria capaz de criar as condições para a geração e distribuição mais equitativa da riqueza. Mesmo porque é fundamental distinguir a riqueza financeira fictícia da riqueza material real produzida pelo sistema industrial. Sem indústria efetiva, geradora de bens e de riqueza real, a distribuição através dos serviços não passará de ilusão.

Portanto, ou a reindustrialização passa a fazer parte da estratégia de geração e distribuição democrática e popular da riqueza, ou tal distribuição não passará de ilusão.

(*) Wladimir Pomar é escritor e jornalista

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