Por Valter Pomar (*)

Sobre as manifestações bolsonaristas, recomendo a leitura da seguinte análise:

https://www.facebook.com/100006280202434/posts/3043921265827184/

Recebi análises similares acerca dos atos bolsonaristas ocorridos em Brasília e em Belo Horizonte.

Vale ler, também, a análise dos Jornalistas Livres:

https://jornalistaslivres.org/bolsonaro-esta-como-gosta-como-hitler-ou-mussolini/

O que estas análises informam, entre tantas outras coisas?

Primeiro, que as manifestações foram numericamente expressivas, especialmente se considerarmos que não contaram com a participação de outros setores da direita.

Segundo, que a base social do bolsonarismo é socialmente diversificada, incluindo de grandes empresários até setores populares.

Terceiro, que esta extrema direita possui uma “interpretação”  acerca do que ocorre no mundo e no país.

Pode ser uma interpretação vintage-guerra-fria, pode ser uma interpretação neofascista, pode ser tudo de ruim… mas nada disso impede que tais ideias contribuam para mobilizar e motivar pessoas em favor de ações que causam muito dano à maioria do povo brasileiro.

Por tudo isso, chamar os bolsonaristas de “gado”, ou seja, tratá-los como se fossem animais irracionais que são tangidos de um lado para outro, é um escapismo que não contribui para compreendermos o fenômeno, tampouco contribui para sua derrota política.

Uma questão em aberto – sobre a qual há intenso debate – é saber se as manifestações de ontem atingiram ou não os objetivos pretendidos pelo bolsonarismo.

Flopou ou não flopou?

Eles achavam que iam por milhões e fracassaram no intento?

Tinham a expectativa de que ontem seria o “Dia D” e saíram frustrados?

Um exemplo deste viés de análise está aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=t5gmSvm8RRU

Minha opinião: Bolsonaro não chamou as manifestações de 7 de setembro porque queria dar um “golpe” ao estilo 31 de março de 1964.

Aquele tipo de golpe se dá contra quem está no governo.

Bolsonaro já está lá.

E quer continuar na presidência da República por muitos anos, inclusive para não terminar esta história preso.

E o que ameaça este objetivo de Bolsonaro?

A pandemia? A crise social? A crise econômica? O governo Biden?

Não.

A maior ameaça é a descrença – por parte de um pedaço da classe cada vez mais expressivo da classe dominante – de que Bolsonaro será capaz de derrotar Lula na próxima eleição presidencial.

É por este motivo que um pedaço crescente da elite está se convencendo da necessidade de antecipar a saída de Bolsonaro.

Como diria Antonio Carlos de Andrada: “façamos a revolução antes que o povo a faça”.

Este pedaço da elite não está preocupada em defender as “instituições” e muito menos em preservar as “liberdades democráticas”.

O que move esta turma é, muito resumidamente, tirar Bolsonaro para abrir espaço para uma candidatura da direita gourmet que seja capaz de derrotar Lula.

Como Bolsonaro já demonstrou ter – a preços do aluguel de anteontem – apoio parlamentar para bloquear um eventual pedido de impeachment, a direita gourmet vem lançando mão de dois instrumentos principais: a Globo na batalha de ideias e o Supremo nas operações práticas.

É por isto que o alvo imediato de Bolsonaro é o STF, mais precisamente o ministro Alexandre de Moraes.

Neste sentido, a mobilização de ontem tinha um objetivo principal: demonstrar à direita gourmet que – “isolado” ou não – Bolsonaro tem bala na agulha e disposição para cair atirando.

Neste sentido, é um erro minimizar a demonstração de força do bolsonarismo.

Aliás, chega a ser engraçado: ontem havia gente recomendando que não devíamos sair de casa, hoje tem gente falando que o cavernícola é um tigre de papel.

Bolsonaro não pode nem deve ser subestimado, nem como político tradicional, nem como adversário eleitoral, nem como golpista.

Quem cometeu este erro em 2018 não deveria reincidir nele agora, por exemplo subestimando a importância de lutar pelo seu impeachment imediato.

Seja como for, a grande questão é: frente a operação bolsonarista, o que fará a direita gourmet?

Voltaremos a isso na sequência deste texto.

***

A direita gourmet, o péssimo acordo e a boa briga

Em situações de crise, tem sido muito comum a esquerda brasileira preferir um péssimo acordo a travar uma boa luta.

Hoje, que ironia, a direita gourmet vive um dilema parecido.

Este pedaço da direita é o principal responsável pelo golpe de 2016, assim como pela condenação, prisão e interdição da candidatura de Lula.

Este pedaço da direita foi, ademais, cúmplice da vitória de Bolsonaro.

Assim como é sócio majoritário das políticas neoliberais do cavernícola.

Entretanto, a direita gourmet – expressão tradicional de parte importante da classe dominante brasileira – chegou a conclusão de que Bolsonaro é um homem marcado para.. perder as próximas eleições presidenciais.

O que fazer?

Tentar tirar Lula de novo? A preços de hoje, isso exigiria contar com alternativas indizíveis.

Tentar tirar Bolsonaro, abrindo espaço para uma candidatura presidencial gourmet supostamente capaz de derrotar Lula?

Crescentes setores da classe dominante estão aderindo a esta segunda alternativa.

Vale a pena lembrar por qual caminho tais setores chegaram nesta conclusão.

Começaram apoiando Bolsonaro contra Haddad, acreditando que as instituições conseguiriam controlar o cavernícola.

Não deu certo.

Depois apostaram na tutela militar sobre Bolsonaro.

Tampouco deu certo: a tutela militar é cum Bolsonaro, não contra ele.

Em seguida disputaram a presidência da Câmara dos Deputados. Conseguiram inclusive atrair setores importantes da esquerda para esta operação “imperdível”.

Mas Bolsonaro pagou o aluguel do Centrão.

Mais recentemente, a direita gourmet passou a depositar suas expectativas no Supremo, talvez acreditando que a famiglia poderia ser pressionada a aceitar algum tipo de “impunidade premiada”.

Mas o clã Bolsonaro até agora não aceitou a oferta e preferiu partir para o enfrentamento, acusando o STF de golpista.

Diferente da esquerda, que foi às ruas dizendo “não vai ter golpe” mas nada fez de concreto a respeito, Bolsonaro está se movimentando.

E tem apoios muito mais consistentes que Collor.

Os atos bolsonaristas do dia 7 de setembro colocaram a direita gourmet diante de uma encruzilhada.

Se recuarem, Bolsonaro terá vencido.

Mas se optarem por uma “boa briga”, o que vai ocorrer?

Suponho que devam estar se perguntando…

…qual a posição do governo Biden e qual sua capacidade de influenciar os militares brasileiros contra o trumpismo tupiniquim?

… a cúpula das forças armadas, que até agora deu todos os sinais de respaldo a Bolsonaro, poderia mudar de posição?

… quanto custaria fazer o Centrão, mais especificamente Arthur Lira, alterar sua postura?

… o que poderá fazer o STF, se Bolsonaro realmente descumprir suas determinações?

… e, mesmo que tudo dê certo e Bolsonaro venha a ser afastado, quem sairá ganhando com isto?

Suspeito que esta última deva ser a maior preocupação da direita gourmet.

Pois de nada adiantaria – para eles – derrotar Bolsonaro, se o beneficiário final da operação for a oposição de esquerda.

Pois o que está efetivamente em jogo, para eles, não são as liberdades democráticas, nem tampouco as instituições.

O que está em jogo para a direita gourmet são as políticas neoliberais.

É por isso que, além das perguntas acima, a direita gourmet deve estar se perguntando o que fará a esquerda.

Estaria por exemplo disposta a tratar Mourão como tratou Itamar?

Estaria disposta a fazer um pacto que preserve as contrareformas neoliberais feitas desde 2016?

Na sequência, trataremos disto.

(*) Valter Pomar é professor e membro do Diretório Nacional do PT

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