Por Wladimir Pomar (*)

As ações bolsonaristas, tentando emparedar o Congresso e o Supremo Tribunal, da mesma forma que, nos anos 1930, Hitler fez na Alemanha, nos remetem à reação de “analistas do mercado econômico” quando o ex-secretário da Cultura, Roberto Alvim, declamou trecho de um discurso do nazista Joseph Goebbels.

Segundo eles, “cultura e agenda econômica não se misturam” e, por isso, “o mercado financeiro brasileiro não reagiu ao discurso”. Ou seja, eles e o “mercado” demonstram total ignorância sobre as teorias políticas e culturais do ministro da Propaganda de Hitler. Portanto, nada teriam a dizer sobre os campos de matança instituídos pelos nazistas, já antes da Guerra Mundial, para o extermínio em massa de judeus e de todos os seus demais inimigos.

Ou seja, o que interessava aos mercadistas, quando o ex-ministro arrotou nazismo, era que a Bolsa de Valores brasileira subira a 118 mil pontos, próximo à máxima histórica”, e que o “real foi a moeda que teve o melhor desempenho na sessão do dia e a cotação do dólar recuou”. Ou seja, “a citação de um discurso nazista na cultura” seria apenas “mais uma polêmica do governo de Jair Bolsonaro”.

Na ocasião, um economista disse ter ficado “horrorizado”, com vontade de “vomitar”. Mas “a questão moral” seria “outro espaço”, “outro fórum [que não o mercado financeiro]”. Portanto, um discurso nazista em pleno século 21 não teria sinalizado qualquer “piora da economia”. Seria apenas o delírio de “um cara maluco que falou uma coisa horrorosa e foi demitido”, em virtude da “reação rigorosa da sociedade”. A economia estaria “melhorando” porque o “mercado não tem posição política e opera com base na projeção de ganhos”.

Na época de Goebbels também havia economistas, analistas de mercado, e outros profissionais que pensavam do mesmo modo. Brecht, um poeta alemão de então, satirizou esse pensamento que não se importava com as barbaridades do avanço ideológico, político, militar e econômico do nazismo. Operários haviam sido presos? Por que se importar, se não era operário? Intelectuais presos? Por que se importar, se não era intelectual? Podia ter acrescentado: economistas e analistas de mercado também presos? Para que se importar, se isso não mexia com a economia real? O problema foi que quando, quando o prenderam, não havia mais a quem apelar.

Apesar dessa tenebrosa lição histórica do fascismo e do nazismo, um economista brasileiro chegou a afirmar que ele e seus colegas só iriam para a rua no caso de “sinais claros de que a democracia está em crise”. Outro, judeu e preocupado com o discurso do ex-secretário nazista, alegou ser “triste vermos uma cena assim… No entanto, economicamente, não há impacto, pois não interfere na aprovação das reformas, que é a métrica pela qual o mercado vai avaliar o governo”. E mais um concluiu que o evento “não abala a pauta econômica do governo”, sendo mais “uma retórica política, um embate de Bolsonaro e associados na seara moral e comportamental que não está relacionado à agenda econômica”.

Portanto, o mercado estaria descolado dessas polêmicas porque “o que importa é o ministro da Economia, Paulo Guedes e sua equipe econômica, o que falam e o que vão fazer”. Para esses economistas, não havendo efeito no mercado, não há importância. Parecem não saber que o mercado alemão, depois que Hitler assumiu o poder, entrou num vigoroso processo de crescimento, parecendo ótimo. Mesmo assim, ou por causa disso, deu em tragédia mundial.

Essa lembrança levou economistas mais realistas a considerarem “muito ruim tentar dissociar as duas coisas” porque o fascismo, ao interferir na pauta econômica, dá um tiro no pé”, ao promover “a perda de liberdade da sociedade e a degradação das entidades sociais”. O que é mais péssimo ainda se levarmos em conta os problemas estruturais da economia e da sociedade brasileira, agora trazidos violentamente à tona com a pandemia do Covid-19.

O governo atual arrotava que o Brasil era um país rico, cujo crescimento econômico dependia exclusivamente de retirar o Estado da economia, privatizando todos os setores produtivos e comerciais, assim como os serviços públicos de saneamento, educação e saúde. Isso, apesar dos dados mostrarem que a economia brasileira tem mantido um crescimento lento, com um desemprego e um trabalho precário que atingem 3 a 4 vezes mais do que os 11 a 13 milhões oficialmente desempregados. E que o saneamento, a educação e a saúde encontram-se sucateados e incapazes de atender aos milhões de baixa remuneração e/ou desempregados.

Num contraste brutal com essa situação, pouco mais de 200 habitantes do país acrescentaram à sua riqueza, apenas em 2019, mais de 800 bilhões de reais. Em outras palavras, uma ínfima minoria, cujas famílias englobam, no máximo, 1% da população (cerca de 2 milhões de pessoas), possui mecanismos para se apropriar da riqueza produzida numa grandeza que pouco tem a ver com o crescimento real da economia brasileira. Ou seja, a economia e a sociedade permitem que essa minoria possua e utilize mecanismos de especulação financeira, extração de lucros e isenção de tributos que, mesmo no caso de uma baixa produção da renda nacional, a leve a se apropriar de uma proporção muito maior dela.

Pode-se catalogar em tais mecanismos a isenção tributária da especulação financeira, com ganhos extraordinários sem a necessidade de produzir bens industriais e agrícolas. É o dinheiro produzindo mais dinheiro, a jogatina do mercado financeiro, que encerra perigos, mas é ordenada de tal forma que, quando as crises explodem, os danos recaem apenas sobre uma pequena parte dos financistas e, totalmente, sobre aqueles que só possuem de seu a força de trabalho para vender no mercado, os trabalhadores.

Não é por acaso, pois, que apesar do baixo crescimento da economia, entre 2012 e 2020, a fortuna do grupo de milionários brasileiros tenha saltado de cerca de 250 bilhões de dólares para 1,2 trilhão de dólares. Ou seja, mais de 4 vezes. Enquanto isso, os 30 bilhões de dólares destinados a atender aos muitos milhões de brasileiros em situação de miséria e ausência de renda, estavam sendo considerados absurdos e ameaçados de extinção pelo governo.

Assim, bastaria o exame sério da situação econômica esdrúxula e pervertida brasileira para deduzir que os sonhos maléficos, fascistas e nazistas, só tendem a piorar a situação do país, da maior parte de sua população e do próprio mercado, se não o restringirmos ao mercado financeiro. O que nos leva a concluir que a sociedade brasileira precisa de inúmeras reformas democráticas e populares, muito mais profundas do que aquelas promovidas durante os governos Lula, e totalmente contrárias às atuais reformas neoliberais perseguidas pelos economistas de mercado e pelo governo.

A chave para promover uma distribuição de renda que jogue para o lixo da história a desigualdade que marca a sociedade brasileira atual, depende primordialmente da promoção de um desenvolvimento econômico consistente, acompanhado de pleno emprego e de salários que realmente permitam a reprodução e a elevação consistente da força de trabalho, não apenas em termos físicos, mas também em termos educacionais e técnicos. Dizendo de outro modo, é preciso fazer com que, no mínimo, os ricos e o Estado invistam e concorram no processo produtivo de modo que o desemprego (formal e informal) se torne um evento do passado. Além disso, o sistema tributário precisa ser radicalmente reformado de modo a fazer com que os que acumulam fortunas paguem tributos correspondentes a elas, principalmente se tenderem a utilizá-las na especulação financeira.

Paralelamente, para evitar a brutal elevação do custo da força de trabalho em virtude dos preços dos alimentos no mercado, é essencial fazer com que a agricultura, embora deva continuar como importante vetor nas exportações, tenha a produção de alimentos baratos para o mercado interno como principal dever. O que, certamente, vai exigir uma reforma agrária que abra a possibilidade de incorporar milhões de trabalhadores à produção agrícola e injetar novo ânimo aos pequenos e médios agricultores.

Reformas democráticas e populares são a base econômica para gerar superávits financeiros que também permitam mudanças profundas que universalizem os sistemas públicos de saúde, educação e cultura, e reorientem todos os sistemas de infraestrutura (urbanos e interurbanos) no sentido de baratear e agilizar os transportes e o fornecimento de eletricidade e gás, assim como evitar desastres causados por chuvas torrenciais e pandemias.

E, por falar em desastres naturais e pandemias, o combate à tragédia do Covid19 recoloca na ordem do dia a necessidade do Estado brasileiro garantir o fornecimento, sem qualquer delonga ou burocracia, de uma renda básica para toda a população cuja única propriedade seja sua força de trabalho. Além disso, numa linha oposta à do Posto Ipiranga e seu chefe, a atual crise humanitária demonstra que o Estado deve reassumir o papel principal na educação e na saúde, de modo a estar preparado para enfrentar quaisquer tipos de desastres naturais e biológicos, enfrentamento que o empresariado, como classe, é incapaz de realizar.

Tais questões, tomando ou não como motivação as horrendas e esdrúxulas opiniões nazistas, os comentários ignorantes de defensores financistas do mercado atual, e as ações ignorantes, açodadas e destrutivas de Bolsonaro e seus seguidores, impõem às forças populares e socialistas a elaboração ou reelaboração de um programa de reformas que tire o Brasil do atual buraco neoliberal e pandêmico em que pretendem enterrá-lo.

A elaboração de um programa desse tipo, capaz de mobilizar inclusive os setores populares que foram ganhos pelas mentiras e/ou fakes bolsonaristas, é o que alguns teóricos podem chamar de decisão estratégica. Por que? Porque, sem tal programa, o debate vai girar em torno das bizarras ideias, medidas e reformas fascistas, nazistas e/ou neoliberais do estado-maior bolsonarista, embora suas bizarrices, de vez em quando, criem “choques” entre seus apoiadores e aliados de ocasião.

Como tais “choques” são quase sempre enganadores, na prática visando destruir seu contraponto democrático e popular, é urgentemente necessário que este campo tenha um programa claro de luta que não só reorganize suas forças, mas também sirva para contribuir decisivamente no salvamento de vidas, em especial das populações desassistidas pelos colaboradores do Posto Ipiranga.

(*) Wladimir Pomar é escritor e jornalista

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