Por Varlindo Nascimento (*)

Nos últimos dias parte da esquerda se arvorou com uma suposta possibilidade de boicote dos jogadores brasileiros à Copa América, competição que Jair Bolsonaro adotou para o Brasil como forma de anestesiar a população dos efeitos de sua política nociva.

Originalmente o campeonato teria sua organização dividida entre Colômbia e Argentina, que desistiram de fazê-lo. No caso da Colômbia, para além da pandemia, a população está nas ruas lutando contra o governo de extrema direita de Iván Duque, o que levou inclusive à paralisação recente de um jogo da Taça Libertadores entre América de Cali e Atlético Mineiro na cidade de Barranquilla, pois, enquanto o jogo ocorria, do lado de fora do estádio as forças policiais reprimiam o povo a bala e a gás, que invadiu o campo afetando os atletas. A Argentina, que assumiria sozinha a competição, abriu mão do direito logo em seguida, tendo em vista viver seu pior momento na pandemia. O período sem sede durou pouco, num acordo entre governo federal e CBF o Brasil se dispôs a realizar a competição como se nada de grave estivesse ocorrendo aqui, desconsiderando a crise sanitária e os mais de 470 mil mortos, por enquanto.

No meio de todo esse absurdo, eis que surge mais uma denúncia de assédio moral e sexual que teria sido praticado pelo presidente da CBF, Ricardo Caboclo, contra uma funcionária da entidade. No bojo dessa crise política, sanitária e institucional, treinador e jogadores da Seleção flertaram com a possibilidade de não jogar o campeonato, o que ampliaria a crise no governo, interessado direto na realização dos jogos.

A partir dessa possibilidade, de forma precipitada, muita gente começou a celebrar atletas e comissão técnica como baluartes da consciência social, inimigos do governo e críticos da política de desleixo com a pandemia. Ledo engano. Bastou o presidente da Confederação ser afastado preventivamente do cargo para que os “pseudoamotinados” recuassem da posição que haviam deixado implícita de início, ficando claro que o grande problema para eles não consistia no tratamento dado pelo governo à pandemia, nem a quantidade de mortos, muito menos a potencial ampliação da circulação do vírus com a realização do evento. A questão estava simplesmente em não macular suas imagens comerciais com as denúncias que pesam sobre o presidente da organização, agora afastado.

Mas o que leva o jogador de futebol brasileiro médio a adotar esse tipo de comportamento alheio a praticamente tudo de sério que ocorre para além das suas bolhas?

O futebol chegou ao Brasil na última década do século XX, quando o jovem estudante de ascendência britânica Charles William Miller desembarcou no país com duas bolas e um livro de regras. Naquela época, o Football Association (nome oficial do esporte) já havia se consolidado e popularizado na maior parte da Europa, em especial nas ilhas britânicas, seu local de criação. A gigantesca classe operária já participava fortemente do esporte, tendo seus clubes (muitos deles vivos até hoje) e estreitando laços de vínculo e pertencimento a partir deles. A aproximação entre o futebol e os trabalhadores era, inclusive, estimulada pela classe dominante, tendo em vista que o esporte canalizava parte da energia que aqueles homens poderiam dispor para realizar ações reivindicatórias ou revolucionárias.

O contexto da implantação do esporte no Brasil é completamente diferente do europeu. Num país que havia recém abolido o sistema escravista, agrário e com atividade industrial totalmente residual, o futebol acabou, como as demais práticas esportivas da época, restrita aos “homens de boa família”. O lazer e o cuidado com a saúde física eram privilégios de quem poderia exercer o ócio, sendo esta uma marca identitária dos mais abastados. Dessa forma, o futebol funcionava como um registro de pertencimento da alta sociedade, não podendo ser maculado pela presença de pobres, negros e operários. Contudo, nas primeiras décadas do século XX começam a surgir os primeiros times suburbanos e de operários, os quais sofriam com o preconceito da sociedade e repressão do Estado, tendo em vista que, no caso destes, a prática futebolística estava associada à vadiagem, assim como outras formas de manifestação popular, a exemplo da capoeira.

Só com o processo de profissionalização do futebol é que as barreiras à participação das classes populares nos grandes clubes foram sendo quebradas. Os que não concordavam com essa abertura se afastaram do esporte ou foram perdendo competitividade, já que tinham um universo de qualidade bem mais restrito. Hoje em dia não há restrição de classe, origem, raça ou credo à prática do esporte, a não ser em casos pontuais e esporádicos. Isso não quer dizer que o futebol, no que diz respeito à sua estrutura organizativa, tenha sido democratizado, muito pelo contrário. Por exemplo, atualmente no Brasil só há uma mulher presidenta de federação estadual, na Paraíba, e um homem negro presidente entre os 40 clubes das duas principais divisões, na Ponte Preta de Campinas.

Os clubes brasileiros, as federações estaduais e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), antes Confederação Brasileira de Desportos (CBD), sempre foram e continuam sendo controlados pelos herdeiros das mesmas oligarquias que formaram a República, que dominam as atividades econômicas, que controlam as instituições e que praticaram os Golpes de Estado da nossa história. Não é à toa que a estrutura dos clubes funcione muito semelhantemente às regras militares de gerência comportamental: “Respeito à hierarquia”, “um manda outro obedece”, são exemplos de expressões muito comuns de serem ouvidas nas entrevistas dos “pés de obra”, expressão cunhada pelo jornalista Juca Kfouri para designar os jogadores.

Essa tipificação da origem e evolução social do esporte é importante para concluirmos um elo de relações que, em alguma medida, nos permita compreender o comportamento do jogador de futebol brasileiro padrão. Chegar a condição de atleta profissional exige dedicação praticamente exclusiva a essa tentativa desde muito cedo. Na maioria das vezes a educação formal acaba ficando comprometida, ainda mais no caso dos mais pobres que veem no futebol uma tábua de salvação para si e para o restante da família. Aqueles que obtêm sucesso e alcançam altos salários e prestígio social são catapultados de forma quase que instantânea de uma realidade de privações para outra de privilégios.

Sem ter nenhuma base de consciência formada acerca da vida e de seu lugar nela, esses jovens acabam sendo, pela sua condição financeira e de status, aceitos em um mundo regrado pelos mesmos valores que defendem aqueles que controlam o jogo e os recursos que giram em torno dele. No final, a maioria deles opta por caminhar “por cima do muro”, garantindo o quinhão que seu talento e trabalho permitiu. Outros absorvem o mesmo discurso de violência contra os excluídos do “grande banquete”, assumindo posições reacionárias e atirando com suas “arminhas” a cada gol que fazem nos adversários. E, como exceções à regra, vez por outra surge um Sócrates, um Casagrande, um Raí, um Richarlison e quase nada mais além desses.

Portanto, não seria factível que esses jogadores de conjunto tomassem uma decisão que afrontasse a ordem das coisas e a hierarquia das organizações. A análise conjuntural dos que esperavam uma atitude conjunta firme e conecta com a realidade da maioria do povo ou se empolgaram pela carência ou desconsideram fazer uma análise histórica prévia. Não se trata de “amarelar”, neologismo que ganhou força após o advento dos 7 a 1 de 2014, o qual atribui valor emocional negativo à conduta dos jogadores. Mas se trata sim de que esses indivíduos, salvo as ditas exceções, estão imersos num mundo em que as ideias da classe dominante são ainda mais dominantes, e isso é o que determina os seus comportamentos.

(*) Varlindo Nascimento é militante petista em Recife, bacharel em Geografia, pós-graduado em Sindicalismo e Trabalho e dirigente da tendência petista Articulação de Esquerda


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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