Por Patrick Araújo (*)

As condições de vida da grande maioria da classe trabalhadora no Brasil têm piorado brutalmente. A crise sanitária já provocou diretamente a morte (ao menos as que foram oficialmente notificadas) de quase sessenta mil brasileiras e brasileiros até o início deste mês de julho e o conjunto das crises econômica e social fez com que, entre março e abril, quase 8 milhões de pessoas ficassem sem emprego e com previsão de que quase 15 milhões passem fome até o fim de 2020.

Diante deste cenário, o enfrentamento de outra crise é imprescindível: a crise política. Pois com o governo Bolsonaro e seu programa ultraliberal, as crises sanitária, econômica e social são imensamente potencializadas e com isso a crescente degradação das condições de vida das trabalhadoras e dos trabalhadores.

Mas o enfrentamento da crise promovida pelo governo Bolsonaro tem encontrado entre os setores da oposição divergências táticas, tanto à direita quanto à esquerda. Nos setores de esquerda é possível identificar a existência de pelo menos duas táticas.

Uma delas aponta para a defesa da democracia e da vida “em sentido amplo”, combatendo mais os efeitos da política bolsonarista do que as suas causas. A tática defendida por estes setores passa pela constituição de uma frente para “colocar limites” na política bolsonarista, ideia na qual cabem setores de centro e até mesmo da direita.

Os setores de esquerda que defendem essa tática, aparentemente, acreditam que o caminho para derrotar Bolsonaro está nas urnas da eleição de 2022. Portanto, os movimentos de agora devem ser para evitar rupturas no presente e garantir um futuro mais “previsível”. O que aconteceu no 1º de maio, alguns dos

manifestos publicados ao longo do mês de junho e o mais recente comício virtual do movimento “Direitos Já”, são expressões esta concepção.

Entre estes, estão os setores da centro-esquerda que vislumbram um cenário eleitoral em 2022 no qual o PT esteja enfraquecido. Também por isso, movimentam-se agora em tentativas de isolar o PT, como na assinatura de um pedido de impeachment sem a participação petista, com ataques contra Lula e lançando candidaturas e chapas para as eleições municipais sem, e em alguns casos contra, o PT.

Ainda assim, existem petistas que consideram esta tática como uma alternativa, num movimento combinado de duas frentes: uma ampla, nos termos mencionados anteriormente, e outra de caráter propriamente de esquerda, esta sim organizada em torno do Fora Bolsonaro.

No PT, por sua vez, prevalece a defesa do fim do governo Bolsonaro e da realização de novas eleições presidenciais antes de 2022. Como afirmado na resolução aprovada pelo diretório nacional em 17 de junho, “a saída de Bolsonaro e seu governo da direção do país é condição primeira para se restabelecer a democracia. E a sua substituição pelo voto popular é o único caminho para assegurá-la. Qualquer saída sem a participação do povo ou sem a centralidade de seus direitos não resgatará o caminho democrático”.

A questão que se coloca aqui, portanto, é: em que tática de luta contra Bolsonaro cabe a participação do povo e a centralidade de seus direitos? Certamente não cabe numa tática de aliança com quem ajudou a eleger Bolsonaro e que protagonizou os seguidos golpes contra a democracia e as violentas retiradas de direitos. Ou mais ainda, com gente que defende uma versão apenas mais asseada da política de econômica de Guedes.

A tática capaz de ter a participação do povo e a centralidade de seus direitos é aquela que combata a política ultraliberal e

apresente uma alternativa política concreta. Tal alternativa não se materializa em alianças com a centro-direita e a direita, por uma razão simples: eles são contra a centralidade dos direitos do povo.

É nesse sentido que, até mesmo para força-los a aderir em algum momento ao impeachment, o fundamental é que se tenha um conjunto de forças políticas e sociais de caráter popular exercendo uma enorme pressão. E os setores populares não se mobilizarão para ficar ombreados com seus algozes.

Por isso, pelo menos entre essas duas táticas de enfrentamento ao governo Bolsonaro existentes hoje na esquerda, o PT deve construir uma posição que polarize e não envie sinais contraditórios para as trabalhadoras e os trabalhadores. Se começamos junho com importantes mobilizações contra o fascismo e contra o racismo, e começamos julho com mobilizações dos trabalhadores de aplicativo contra o imenso grau de exploração, podemos identificar que muitos setores da classe trabalhadora estão dispostos a lutar. Não desperdiçemos esta disposição.

(*) Patrick Araújo é do Diretório Nacional do PT

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