Por Lucas Reinehr (*)

A cada dia que passa, as notícias sobre a política e outros acontecimentos no Brasil se tornam cada vez mais estarrecedoras. Acumulamos tragédias, crimes, chacinas e assistimos a um genocídio diário que perdura há mais de um ano. O governo Bolsonaro, apesar de seus crimes explícitos e de cultivar o descontentamento de uma parte da população, se mantém no poder. Mais que isso: segue cometendo crimes, tirando sarro da gravidade da pandemia, desrespeitando os familiares e amigos das vítimas do Coronavírus, atacando a educação pública e orquestrando o genocídio da população negra.

Desde o início da pandemia, a luta política da esquerda se viu afetada pela necessidade de isolamento social. Passamos a construir atividades virtuais e ações simbólicas com o objetivo de combater o governo federal e suas ações que prejudicam veementemente a classe trabalhadora. Um ano depois, nos questionamos: foi suficiente?

Obviamente, a discussão sobre os atos de rua é complexa. Desde o início da pandemia, a esquerda defendeu a necessidade de um isolamento social rigoroso, com políticas de distribuição de renda, como o auxílio emergencial, para conter o avanço da pandemia. A questão é que, no Brasil, não houve e não haverá lockdown enquanto estivermos sendo governados pelo fascista que ocupa a cadeira presidencial. Bolsonaro opera na contramão do combate à pandemia: ele contribui para o agravamento da situação, seja pela ausência de políticas sanitárias eficientes, seja pelas aglomerações que promove com seu rebanho.

Passado um ano da pandemia e diversas tentativas de combater e enfraquecer o governo, devemos nos perguntar: qual é a saída necessária? Eu creio que a resposta dessa pergunta repercutiu nas últimas semanas, pois estava escrita num cartaz segurado por um manifestante da Colômbia, país latinoamericano que se levantou contra o atual governo neoliberal. “Se um povo vai às ruas na pandemia é porque o governo é mais perigoso que o vírus”. E no caso do Brasil, o governo é infinitamente mais perigoso que o vírus.

Não podemos mais esperar por Godot, como temos feito. É preciso dar uma resposta que amedronte Bolsonaro e faça o fascismo recuar. Infelizmente, a força necessária para isso não virá das redes, embora estas tenham cumprido um papel importante na disputa cultural – que ainda tem muito a avançar. Defender a ida às ruas é, como já falei anteriormente, complexo e paradoxal, mas é um paradoxo necessário. Fazer o governo tremer através da luta popular salvará vidas e garantirá a força que necessitamos não apenas para 2022, mas para as lutas que devem vir em 2021 e para um futuro com outra perspectiva para o país.

Nesta semana, muitas notícias repercutiram em relação às universidades brasileiras, que correm o risco de fechar em função da diminuição de verbas na Lei Orçamentária Anual. Além disso, no dia 6 de maio, ocorreu no Rio de Janeiro, na Favela do Jacarezinho, uma chacina que deixou 29 pessoas mortas. Esse episódio representa um agravamento do genocídio à população negra e periférica, projeto que será aprofundado por Bolsonaro caso não haja uma resposta imediata.

É justamente em função disso que a Coalizão Negra por Direitos, organização que desde o ano passado trouxe importantes discussões e ações à luta popular brasileira, convocou para este 13 de maio uma mobilização nacional de denúncia contra o racismo. Essa resposta, do movimento negro organizado, é extremamente necessária e à altura da gravidade do que vivemos. Além da Coalizão Negra por Direitos, outras organizações fizeram coro à convocação e mobilizam suas bases para o dia de amanhã, como a União Nacional dos Estudantes (UNE) e outras entidades.

Muitos militantes e organizações ainda possuem ressalvas em relação às mobilizações de rua, e essa preocupação é justa. Mas é preciso agir, caso contrário, seremos engolidos por uma enorme tragédia e não restará Brasil para ser reconstruído ou força social para arrancar as raízes do fascismo, que crescem a cada dia. Assim como o povo paraguaio, colombiano, como as mobilizações do Black Lives Matter e outras lutas importantes que marcaram o último período, chegou a hora de o povo brasileiro combater a pandemia e o fascismo com outro fenômeno: um tsunami.

Em 2019, milhões foram às ruas protestar contra os cortes na educação. De 2019 a 2021, a situação só piorou, então, é necessário ampliar ainda mais a mobilização, não apenas em número, mas especialmente em organização. É preciso criar uma agenda permanente de mobilizações que faça o fascismo recuar e a classe trabalhadora brasileira despertar. Às organizações de classe, cabe contribuir com a segurança dos atos, distribuindo máscaras PFF2 e álcool gel aos manifestantes, além de fortalecer o vínculo com o povo, que deve ser o verdadeiro protagonista da derrubada de Bolsonaro.

É um debate complexo, mas apenas um tsunami pode nos salvar. Um tsunami capaz de varrer o fascismo e resgatar a esperança e os direitos da classe trabalhadora.

(*) Lucas Reinehr é diretor da UNE e militante da JPT

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