No centro, Anísio Maia, candidato a prefeito de João Pessoa pelo PT

O Partido dos Trabalhadores deliberou em sua tática eleitoral, no início do ano, em ter candidatura própria em maior número de cidades possíveis, em especial nas grandes cidades, com destaque para as capitais, pois as “eleições de 2020 serão uma grande oportunidade para o PT conversar com a sociedade brasileira“, “defender o nosso legado” e “uma grande oportunidade de fazer o debate das questões nacionais.” (https://bit.ly/3iAgT1n)

A aplicação dessa tática enfrenta inúmeros problemas. O primeiro deles, o fato de que o Partido não está organizado em todo país, basta ver que o estado de Roraima, onde ao que tudo indica, não haverá uma única candidatura a prefeito. Ou de que cerca de 40% dos eleitores brasileiros não terão a possibilidade de votar em uma candidatura a prefeito do PT, por falta de organização partidária nas respectivas cidades.

Um segundo tipo de problemas diz respeito à existência, no Partido, de setores que defendem política de alianças ao velho estilo, com partidos de centro-direita e inclusive bolsonaristas, em nome do quê se abriu mão de ter candidatos próprios por apoios inaceitáveis.

Além desses dois fatores negativos, há outro que é positivo, mas que também tem consequências, que é a busca em construir alianças com setores do campo democrático e popular. A questão é que esses setores também são atravessados por imensas contradições. Então, em muitas cidades do país, mesmo que possam, alguns setores desses partidos não fazem alianças com o PT. E, noutros casos, setores desses partidos nominalmente de esquerda ou centro-esquerda, são de fato de centro-direita ou direita. Portanto, o quadro é muito complexo.

Nesse contexto, é que deve ser vista a tentativa em curso de intervenção no Diretório Municipal do PT em João Pessoa. O Partido na Paraíba, mesmo que pese divergências históricas e complexas, conseguiu no período recente construir um alto grau de unidade. Tal unidade verificou-se no último PED, tanto em âmbito estadual quanto municipal e agora, nas eleições municipais, numa tática eleitoral em torno da candidatura de Anísio Maia para prefeito da capital.

No longo processo de construção da candidatura petista à prefeitura, em nenhum momento, houve uma busca efetiva por parte do PSB de uma aliança conosco. Somente agora, na última semana, o ex-governador Ricardo Coutinho entrou em cena, buscando não uma aliança com o PT, mas o tempo de TV/Rádio do Partido.

Além de buscar uma aliança em um tempo político vencido, e em termos instrumentalistas, conseguiu a proeza, num espaço de uma semana, de apresentar três nomes diferentes: Luciano Cartaxo, ex-petista e atualmente no PV, depois a deputada estadual, Estela Guerra, e, nos acréscimos do segundo tempo, disse que ele próprio, Ricardo Coutinho, seria o candidato. Isso aconteceu ontem (16), à tarde, no dia e faltando poucas horas da Convenção do PT.

No dia anterior, terça-feira (15), o Diretório Nacional reuniu-se e orientou no sentido de construir uma aliança de esquerda. O que poderia materializar-se de diferentes maneiras: acordo para o segundo turno, apoio do PSB à candidatura do PT, apoio do PT à candidatura do PSB etc. Este apelo pela unidade da esquerda da Paraíba foi unânime, ficando claro que havia diferenças sobre o que fazer. Mas não se deliberou, como alguns chegaram a sugerir, por uma intervenção no diretório de João Pessoa.

Então, no dia 16 de setembro, ocorrem várias reuniões que desembocam na constatação de que marcharíamos separados no primeiro turno. Até que, como já foi dito, no final da tarde de ontem, Coutinho decide ser ele mesmo o candidato. Aí começaram os atropelos, que não condizem absolutamente em nada com a história, o funcionamento e a concepção de Partido que defendemos.

Após o comunicado de Coutinho de que ele seria candidato, começa circular em Whasapp do Diretório Nacional do PT, a proposta da presidenta Gleisi Hoffman de que fosse anulada, parcialmente, a convenção de João Pessoa, que estava acontecendo naquele momento. Logo depois aparece um projeto de resolução, formalizando a proposta de apoio à candidatura de Coutinho. O bizarro é que este projeto de resolução trazia a data da véspera (15 de setembro) e atribuía a decisão à reunião do DN, que não havia aprovado isto. Evidentemente, a data foi corrigida.

Não houve reunião do DN formalmente convocada. Não houve sequer debate. Uma simples enquete pelo “zap” para saber quem concordava e quem discordava da intervenção em João Pessoa. Muitos protestaram contra o absurdo de tomar uma decisão daquela importância de uma forma tão atropelada e fora da legalidade do Partido. A direção do Partido de João Pessoa informou que tinha disposição de manter a sua candidatura, fruto de um longo processo de construção e que estava sintonizada com a tática eleitoral nacional.

Ao final da troca de mensagens no aplicativo (digo troca de mensagens, pois compartilhamos o ponto de vista segundo o qual não se tratava de uma reunião, e portanto sem poderes deliberativos), ainda à noite, foi designada uma Comissão que estaria encarregada de fazer uma nova Convenção. Isto apesar de que, no dia anterior, 15 de setembro, por unanimidade, o DN decidir que tomaria decisão somente depois de debater no DN a decisão que viesse a ser aprovada pela Convenção de João Pessoa.

Segundo ata divulgada pela imprensa local, a Comissão interventora, formada por três membros do DN, está responsabilizada, em 24h, de definir quem seria o candidato à vice na chapa de Coutinho. O documento foi encaminhado à 1ª Zona Eleitoral de João Pessoa, para informar da intervenção. Todos os detalhes, a repercussão e as implicações dessa intervenção, você acompanha na edição de hoje do Antivírus, às 19h. Com Valter Pomar, Natália Sena.

 

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