Por Antônio Augusto (*)

Ler criticamente o artigo publicado na “Folha de S. Paulo”, “O futuro sem Bolsonaro”, de Ruy Castro, nos leva a conclusões políticas de interesse para a atualidade política brasileira.

Deve se saudar a posição de Ruy contra o cavernícola Bolsonaro e o devastador retrocesso neofascista do atual governo extremista de direita.

Não seria de se esperar outra atitude de um jornalista de talento, autor de biografias de interesse, prazerosas na leitura; um homem ligado à cultura.

Tradutor de um livro maravilhoso como “Big loira e outras histórias de Nova York”, da grande escritora Dorothy Parker.

Neste livro de contos, jamais esquecerei uma de suas obras-primas: o encontro, num restaurante de Barcelona, da personagem, “alter ego” da própria Dorothy, com soldados antifascistas, homens do povo voluntários da República em luta na Guerra Civil Espanhola.

Apenas escritores maiores, grandes artistas, dotados da sensibilidade de Dorothy, são capazes de escrever um conto como esse.

Então, obrigado, Ruy Castro, entre outras coisas, por traduzir esta maravilha.

Já as posições políticas de Ruy Castro com frequência não são tão louváveis quanto sua ojeriza a Bolsonaro.

Há um distanciamento de posições democráticas e populares. E sabemos, pelo menos os que possuem cultura política progressista, que a democracia sem povo não passa de ficção.

Pois a ausência deste componente democrático, a partir de posições populares, transparece quando Ruy Castro se manifesta sobre política.

O VELHO UDENISMO

Há um certo tom de reacionarismo, presente no DNA político, não só dele, mas de todo um setor social.

Não por acaso, neste artigo, “O futuro sem Bolsonaro”, são comuns trechos como os seguintes:

“Bolsonaro, por incrível que pareça, às vezes nos dá saudade da ditadura”.

Ou atola-se o pé na jaca neste mote de setores da classe média reacionária, o “antipetismo”:

“Claro que Lula foi decisivo para essa vitória [a de Bolsonaro] [ficção 1],

“ao sabotar outras candidaturas [ficção 2]

“para que Bolsonaro – ‘fácil de derrotar’ [ficção 3] chegasse à final contra o PT.

“Lula subestimou a aversão ao lulismo, alimentada durante 13 anos pelos desmandos de seu partido. [ficção 4, o que é isso se não o udenismo tão inebriador ao estrato social dos Ruys Castros?].

Claro, a Globo não tem nada a ver com a aversão dos Ruys Castros – aliás a Globo não incomoda em nada essas pessoas, ao contrário, adoram ser “in” na estrebaria global].

“A prova dessa aversão é que, com toda a demência e bestialidade do governo Bolsonaro, o PT está à beira da extinção” [ficção 5, a “constatação” de Ruy Castro vamos descrevê-la usando a língua do país por ele (americanófilo) idolatrado: não passa de “wishful thinking”].

Esse udenismo baba de prazer diante da pseudo- “luta contra a corrupção”.

A UDN, principal partido golpista no pré-64, foi aquele partido da direita que achava que tudo vindo do povo, da luta sindical e popular, era “demagógico, populista, ação de comunistas, manipulado, corrupto, atentatório à família cristã”.

Não se podia fazer a Reforma Agrária, segundo a UDN, porque “a Constituição de 1946 era inviolável”. Mas não tiveram nenhum problema em concordar com e praticar todos os estupros da ditadura, o AI-1, o AI-2, o AI-5, oferecer ministros da Justiça para conviverem com isso, apoiarem cassações de mandatos, torturas, supressão de eleições, etc, etc, etc – que não faltaram, exatamente o oposto, atos liberticidas à tirania da ditadura militar.

Rasgaram em um milhão de pedacinhos, transformaram em pó a “inviolável”.

O que parece paradoxal – mas não tanto se pensarmos bem, e formos às suas causas e origens sociais – é vermos setores do PSOL, até às vezes entre seus militantes mais lúcidos, fazerem coro ao “antipetismo”, mesmo quando as acusações ao PT são as mais injustas, ou armações, com claro teor de direita, a subsidiar “avaliações” como, por exemplo, as de Ruy Castro.

Ora, meus amigos, e companheiros do PSOL, a política de esquerda deve combater este vale-tudo. Se o chamarmos pelo nome preciso, este vale-tudo é oportunista. Isso não pode oferecer nada de bom à luta antifascista, à indispensável unidade democrática e popular.

NADA DE PROMISCUIDADE COM A DIREITA REACIONÁRIA

Se o PT, no período de governos do lulismo (2003-2016) é passível de críticas, e até de críticas severas, como a capitulação na política econômica acomodada e satisfeita ao grande capital, à predação do parasitismo financeiro, tais críticas, necessárias, indispensáveis, de esquerda, não podem se alimentar na promiscuidade do “antipetismo” da direita. Ou no “antipetismo” vale-tudo da oposição burguesa estilo Ciro Gomes.

O “antipetismo” é o espantalho da troglodita, reacionaríssima, ultra-golpista direita brasileira contra qualquer ideia democrática e progressista.

O “antipetismo” representa na luta política atual o que o anticomunismo significou para a deflagração do golpe de 1964, e a longa ditadura militar instalada com sua vitória.

É a velha lição fascista de Goebbels, criar um inimigo fictício e atribuir-lhe todos os males, coisa que a Rede Globo faz com maestria.

Não que o anticomunismo tenha deixado de existir, ao contrário, segue como arma nos arsenais da reação, mas a mais usada, por maior eficácia política nos tempos em que vivemos, é o “antipetismo”.

“Antipetismo” e “anticomunismo” são pretextos, demagogia pura, mitos fabricados, intrinsecamente ligados, claramente fascistas, para se combater a democracia e a luta popular.

Devem ser combatidos sempre, sem tergiversações, firmemente, ainda mais na vigência de um governo extremista, perigoso, de tantas características neofascistas, genocida no seu ultra- neoliberalismo.

Ou haverá quem, na esquerda, de olho em interesses eleitoreiros menores, aliados ao sectarismo, acabe por ficar com esta mancha, cúmplice de armas repulsivas do extremismo de direita como o anticomunismo, ou o “antipetismo”?

(*) Antônio Augusto é jornalista


(**) Textos assinados não refletem necessariamente a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13, sendo de inteira responsabilidade do autor.

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