Por Thaísa Magalhães (*)

As tentativas de construção colaborativa para os atos unificados do Dia Internacional de Lutas por Direitos das Mulheres – 8 de março (8M) remontam aos últimos 8 anos. Rederam atos belíssimos e potentes em algumas capitais e mobilizações diversas em várias outras cidades nas quais disputas, que não tem como fundo as políticas e ou pautas das mulheres, mas outras diversas motivações coletivas e individuais. Durante o (des)governo Bolsonaro cumpriram importante papel de denúncia e resistência, abre-se o ano de luta com as mulheres, manteve-se vivo o Ele Não.

Porém os percalços que se repetiram durante os últimos anos precisam infringir reflexões sobre a organização dos movimentos feministas, de mulheres, das entidades de pautas gerais que debatem as pautas das mulheres, além dos partidos progressistas, assim como, o que são organizações coletivas, colaborativas e conjuntas, palavras que são muitas vezes usadas para construção de hegemonia de uma organização sobre a outra e passam longe de seus significados.

O 8 de março não é em si uma organização única, mas a colaboração para a construção de um ato com pautas comuns, nas quais consensos são construídos e dissensos são deixados de lado em prol de juntar forças por ampliar direitos para as mulheres e denunciar os absurdos vividos na conjuntura sócio-político-econômica no Brasil do pós golpe de Estado. Porém quando uma organização colaborativa se estende por seis anos ou mais, é, e está cada vez mais difícil evitar que se confundam os dissensos frente a diferentes pautas, tão naturais em alguns pontos, inerente a ter múltiplas organizações na construção, como “traição” a unidade lida como se o 8 de março tivesse se transformado em um novo “partido” a ser seguido e disputado.

Cada organização, tanto as gerais como as exclusivas das pautas feministas, constroem o ato respeitando seu próprio estatuto, sua própria organização, e seus fóruns próprios de decisão. O que unifica o ato são as pautas gerais e das mulheres. Nenhuma entidade deixa de existir por três meses, silencia seus fóruns, muda sua organização. As entidades trazem braços e mão para cumprir tarefas organizativas, mobilizatórias e capitação de recursos que viabilizem os atos. Cada passo é avaliado por cada entidade, em seus fóruns. Parece óbvio, porém nos últimos anos, muitas vezes para impor hegemonia, ou impor consensos que não são consensuais, discursos são construídos como se fossem verdades absolutas e que precisam ser obedecidas, sobre ameaças de responsabilização da destruição do “movimento unificado”. A autonomia das entidades de avaliarem em suas organizações como irão se envolver na construção é negada. O tom de ameaça e o disputismo baseado em interesses individuais ou de certos coletivos específicos prevalecem. Pautas como a terminação da gravidez, primordial para a autonomia das mulheres no Brasil, que não é priorização em outros fóruns da esquerda progressista desaparecem daquele que deveria ser seu espaço principal.

As pautas estruturais, do machismo e do racismo, que NÃO SÃO IDENTITÁRIAS, e sim permeiam a estruturação das relações de poder e domínio do Brasil, impondo opressões sociais, políticas e econômicas que se somam na vida das mulheres, em especial as mulheres negras, deveriam por óbvio caminharem juntas dentro da esquerda no Brasil. Mas problemas vários existem nas organizações de esquerda no Brasil, e por assim sendo, nas organizações que debatem as pautas feministas. Por um lado, algumas organizações tratam as pautas estruturais como secundárias e não há investimento político para acumular sobre elas; por outro, tem havido uma hierarquização de importância entre as duas pautas, suprimindo ou diminuindo a importância do debate sobre o machismo ou sobre o racismo, dependendo de qual é a disputa de hegemonia e de quais entidades então nas disputas em diferentes locais.

A construção da paridade e representatividade racial, a essa altura do caminho que o feminismo se encontra, deveria ser natural. E em um espaço que é construído exclusivamente por mulheres o machismo é bem menos comum a ser presenciado do que o racismo. É dever de todas as entidades tidas como de esquerda e progressista combate-lo. Porém também não tem sido incomum a instrumentalização de uma das pautas mais importantes para a esquerda brasileira, para impor controle a um movimento, organização ou partido. Esse cabo de guerra acaba por fragiliza a organização das mulheres. Porque é primordial que haja a junção de forças entre todas nós para exigir dos Partidos e organizações a ocupação dos espaços de poder por mais mulheres e exigir a paridade racial nesses espaços.

Não é uma tarefa fácil. Todas as facetas opressivas estruturais da sociedade refletem dentro das organizações de esquerda, que são parte da mesma sociedade. Não é fácil acordar todos os dias e ter ânimo, saúde mental e força para carregar a responsabilidade de transformar a sociedade. As mulheres negras carregam um duplo fardo. E o movimento feminista deveria ser um suporte para aliviar esse peso que tanto nos penaliza, não um cabo de guerra.

Não poderia haver momento pior para que esse cabo de guerra ganhasse força. O ano em que vamos enfrentar nas urnas o bolsonarismo e tudo de nefasto que ele representa para as mulheres. Nenhum partido é vacinado contra a cultura das estruturas opressivas da sociedade, como o machismo e o racismo. Ampliar a representação nas Câmaras estaduais, Federal e no Senado não será tarefa fácil para nenhuma organização. E para isso é preciso ampliar candidaturas femininas e em especial de mulheres negras e LBTs, que ainda são a minoria da representação nas casas legislativas.

Não basta apenas haver candidaturas de mulheres. Elas precisam ter investimento financeiro e político, e envolvimento real dos Partidos para que essas candidaturas se concretizem. É preciso que se crie um caminho para esperançar situações onde os movimentos feministas possam construir de fato a unidade necessária. E é primordial que a progressiva disputa eleitoral partidária do ano não gere apropriação de pautas que resultem apenas em disputas de espaço. É preciso que as feministas voltem braços e corações para que neste ano as vozes das mulheres ecoem e que o caminho para uma nova sociedade comece.

(*) Thaísa Magalhães é secretária das Mulheres da CUT DF e militante da tendência petista Articulação de Esquerda

Comente!