Por Maria Caramez Carlotto (*)

O Datafolha publicado ontem, 22 de outubro, deve ser visto com muita cautela. Com exceção da queda de 7 pontos de Celso Russomano, todos os demais movimentos, sem exceção, se deram dentro da margem de erro, nesta ordem:

Quem mais cresceu, em relação à última pesquisa, foi Jilmar Tatto, do PT, que subiu 3 pontos percentuais.

Ao lado de Tatto também cresceram mas em um patamar menor:

Bruno Covas (PSDB), que foi de 21% para 23%
Guilherme Boulos (PSOL), que foi de 12% para 14%
Márcio França (PSB), que foi de 8% para 10%
Joice Hasselmann (PSL), que foi de 1% para 3%
E Arthur do Val (Patriotas), que foi de 3% para 4%.

Além desses candidatos que cresceram, caíram na pesquisa: Levy Fidelix (PRTB), Felipe Sabará (Novo) e Antonio Carlos (PCO), 1 ponto percentual cada. E permaneceram no mesmo patamar: Andrea Matarazzo (PSD), Orlando Silva (PCdoB) e Mariana Helou (Rede) e Vera (PSTU). Nesse embolado de candidatos, que juntos somam 6 pontos percentuais, eu diria que nada mudou.

Nesse mesmo sentido, chama a atenção que os votos Brancos/Nulos/Nenhum praticamente não se alteraram, caindo de 13% para 12%. O mesmo aconteceu com os que não sabem em quem votar, que caíram de 4% para 3%.

Datafolha de 22 de outubro para prefeito de SP por sexo, idade, renda, escolaridade, religião e raça | Eleição em Números | G1

Em termos analíticos, é provável que no período que passou (entre 8 e 22 de outubro, que marca o início da campanha de rádio e TV) os movimentos mais importantes tenham sido a queda de Celso Russumano (Republicanos) e o crescimento de Jilmar Tatto (PT). Esses movimentos devem contar com uma certa inércia e se aprofundar na próxima pesquisa, o que a análise do próprio Datafolha reconhece.

Se, para alguns, isso indica que Tatto deveria abrir mão da sua candidatura para garantir Boulos no segundo turno, para outros, ao contrário, indica que a candidatura do petista deve ser mantida. Seja porque tudo indica que Tatto ainda vai crescer mais; seja porque ele está cumprindo um papel importante ao tirar votos de Russomano e abrir caminho para uma vaga para a esquerda no segundo turno.

Essa última percepção é reforçada pelo fato de que existe, de fato, uma migração de votos de Russomano tanto para Boulos quanto para Tatto, mas em perfis distintos do eleitorado.

Boulos conquista os votos dos mais jovens. Ou melhor, dos muito jovens. Enquanto o candidato do PSOL subiu de de 17% para 27% entre os eleitores de 16 a 24 anos, Russomano caiu de 35% para 20% nessa mesma faixa etária, em que antes liderava.

Já Jilmar Tatto, como era esperado, cresceu entre o eleitorado petista da capital, indo de 7% para 20%, sendo que Russomano caiu de 36% para 18%. Ainda é um percentual baixo: só 1 em cada 5 petistas da capital votam em Tatto hoje. Mas tudo indica que o perfil do eleitor petista que migra para Tatto é um pouco mais velho: entre os eleitores de 25 a 34 anos, Tatto cresceu e Russomano caiu. Paradoxalmente, nessa faixa etária, Boulos oscilou para baixo, indo de 19% para 15%.

Isso indica que o corte etário se confirma como um corte importante para entender o voto, em especial nas eleições municipais e em grandes centros urbanos. Também indica que o PSOL tem sido mais bem bem sucedido em construir uma linguagem para este perfil do eleitorado do que outros partidos, mas o efeito colateral disso talvez seja um impacto negativo sobre um público mais velho. Isso precisa ser melhor compreendido nas pesquisas futuras.

Em todo o caso, o principal aspecto que eu tinha destacado no meu último comentário se confirmou:

Os votos que podem ajudar a esquerda a avançar nesta eleição estão/estavam com Russomano. Por isso, ele deve ser o alvo prioritário nas próximas semanas. As candidaturas devem atacá-lo juntas esse alvo e isso sem necessariamente estarem fundidas.

Além disso, algumas dúvidas que eu tinha vão ficando mais claras:

Bolsonaro, mais atrapalha do que ajuda e tem tudo para sair como grande derrotado em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país. Isso reforçará as derrotas que o presidente deve ter em outros colégios eleitorais.

A extrema-direita cresce, mas muito lentamente. Me parece que também sairá derrotada das eleições de 2020, embora isso precise ser acompanhado com mais calma nas próximas pesquisas e nas urnas.

Isso significa que atacar Bolsonaro e a extrema-direita deve ser um objetivo de quem quer crescer nas eleições municipais, que devem ser politizadas, à luz do contexto nacional.

Márcio França (PSB) surpreendeu ao crescer 2% e mostrar certa resiliência. Embora eu ainda acredite ainda que parte desse eleitorado deve se mover nas últimas semanas do primeiro turno gerando algum impacto.

Por fim, algumas observações rápidas:

Se somarmos os votos de Boulos (PSOL), Tatto (PT) e Orlando Silva (PCdoB), a esquerda em São Paulo soma, atualmente, 18%. É ainda menos do que esses mesmos partidos fizeram, juntos, no primeiro turno de 2016, quando terminaram com 20%. Mas ao que tudo indica, é provável que a esquerda termine 2020 num patamar de votos superior a 2016.

Dizer que o PT será o grande derrotado em São Paulo me parece precipitado. Sem dúvida, está tendo um desempenho inferior ao que normalmente tem na capital, mas saiu com um candidato muito desconhecido, numa eleição atípica e concorrendo com um ex-candidato à presidência que, além de tudo, é identificado com o PT e, principalmente, com Lula, mais do que o seu partido, o PSOL, normalmente o é.

Eu acho que ao invés dos defensores das campanhas de Tatto, Boulos e Orlando Silva perderem tempo se atacando sobre o que deveria ter sido feito numa ou outra direção, deveriam centrar forças em atacar Russomano e, com ele, Bolsonaro. Derreter Russomano e derrotar Bolsonaro é mais importante para 2022 do que alianças eleitorais fora de hora, a saber, com o pleito em andamento. Diferentes candidaturas no primeiro turno mais ajudam a derrotar Bolsonaro em SP, do que atrapalham, na medida em que, pelas suas características, atraem perfis distintos do eleitorado de Russomano. A agressividade de alguns setores da esquerda contra Tatto e o PT está baseada, a meu ver, numa leitura superficial e equivocada da dinâmica política desta eleição e vai prejudicar o movimento de unidade que terá que ser construído no segundo turno, caso a esquerda ultrapasse Russomano.e chegue ao segundo turno. Esses embates têm um ranço narcisista que tem atrapalhado demais a construção de um discurso mobilizador e de oposição verdadeiramente popular a Bolsonaro. Que setores de classe média, na esteira da grande imprensa paulista, batam nessa tecla, era esperado. Mas que setores do PT embarquem nisso é impressionante, embora não surpreenda.

(*) Maria Caramez Carlotto é professora da UFABC

Ps1. Amanhã deve sair a pesquisa completa e será possível compreender melhor alguns movimentos por perfil do eleitorado.

Ps2. A margem de erro da pesquisa é de 3%. Na prática, margem de erro de 3% é margem de 6%. É muita coisa. tomar qualquer decisão política com base nisso é muita loucura. Ainda mais porque a pesquisa foi presencial. Numa pandemia, isso pode ter efeitos que ainda não conhecemos. Enfim, é uma observação metodológica, mas acho importante.

 

Comente!