Por Valter Pomar (*)

Vamos imaginar que o candidato da extrema direita desidrate totalmente, que a terceira via não emplaque e que a vitória da esquerda pareça inevitável.

Neste caso, o que fará o império?

Daria sua cooperação técnica para um magnicídio?

Daria apoio para um golpe, antes mesmo da posse da esquerda?

Ou deixaria a esquerda tomar posse e, depois, faria “gemer” o país, criando as condições para uma derrubada posterior?

Pode ser.

Tudo pode ser.

Mas também pode ser que, neste cenário, o império decida fazer uma jogada mais ousada, a saber, sinalizar à cúpula da esquerda sua disposição para uma digamos troca: uma certa cooperação do império em troca de um certo realinhamento internacional do (futuro) governo da esquerda.

Há precedentes históricos, nos anos 1980, em que a adesão a Otan foi o “beijo na cruz”.

Mas em 2021, na suposição totalmente fictícia que estamos fazendo, que preço a tal cúpula da esquerda teria que pagar, se aceitasse fazer esta digamos troca?

Para descomplicar o raciocínio, nos limitemos ao preço em termos de política externa: em resumo, ganhar distância de alguns velhos e de alguns novos amigos. O que incluiria assumir um papel mais domesticado na liderança da região.

A tal cúpula da esquerda estaria disposta a pagar este preço?

Alguns integrantes desta cúpula certamente não estariam.

Muitos certamente não estariam.

Do que sabemos, podemos dizer que a grande maioria não estaria disposta a pagar este preço.

Mas como estamos fazendo uma especulação totalmente fictícia e sem base alguma na realidade, digamos que existisse alguém em algum lugar disposto a pagar aquele preço.

Vamos analisar esta suposta disposição com o máximo de empatia, evitando aquelas invectivas estigmatizantes que tanto bloqueiam o livre debate.

Em primeiro lugar, as coisas estão objetivamente muito difíceis e, portanto, alguma redução de danos parece sempre uma boa política.

Em segundo lugar, há inúmeras provas de que se pode conseguir mais resultados positivos através de um acordo – mesmo que ruim – do que através de uma boa briga. Afinal, brigas a gente sabe como começam, mas a gente não sabe como terminam.

E, em terceiro lugar – e nesta suposição fictícia isto é um dado muito importante – lembremos que o império parece estar num “momento progressista”.

Portanto, fazer uma digamos troca com o império neste momento pode ser – ou pelo menos pode parecer – algo aceitável perante a história, perante o pragmatismo ou mesmo “lá em casa”.

Feito este exercício de empatia, vamos agora admitir (sempre especulativamente) que fosse esta a posição prevalecente na tal cúpula da esquerda.

Ou seja, digamos que prevaleça a disposição de fazer uma certa troca com o império.

Daria certo?

Não há como saber.

Mas já que estamos especulando (lembremos again e again e again que se trata de uma especulação sem base alguma), pensemos um pouco sobre o que poderia dar errado e o que poderia dar certo numa operação como esta.

Primeiro, sempre pode passar que o império prefira um “progressista de verdade” a um “esquerdista disfarçado de progressista”.

E, portanto, pode acontecer do império agir com certa malandragem (!!!), dando alguma corda para que a cúpula da esquerda se enforque: depois de manifestar publicamente sua admiração pela nova aproach do império, a cúpula desta esquerda descobriria que o império prefere outra… candidatura.

Mas por favor tenhamos pensamento positivo e vamos supor que isso não ocorra, que o império realmente esteja disposto, ao menos fora de casa, a apoiar um Bernie Sanders!

Desta suposição decorre outra, também positiva (pensamento positivo é tudo na vida): sem o apoio do Império para suas balbúrdias, o grande capital instalado no país muito provavelmente vai buscar um modus vivendi com a cúpula da esquerda.

Até porque a tal troca significaria implementar a política que prevaleceu na maior parte de nossa história.

Mas aí aparece uma dúvida (infelizmente, as dúvidas são sorrateiras e atrapalham até mesmo o mais positivo dos pensamentos): será que as medidas adotadas internamente pelo império podem ser reproduzidas em outros locais?

Se a cúpula da esquerda tentar fazer isso, será que o grande capital vai aplaudir ou pelo menos vai aceitar sem reagir com demasiada força?

Será que o trumpismo local não seria mais forte aqui do que lá? E, portanto, capaz de reagir, com força suficiente para atrapalhar nossa festa?

Será que não corremos o risco de uma troca pela metade: a cúpula da esquerda aceitaria os termos do império, mas não conseguiria paz interna para aplicar seu programa?

Outro ponto: como reagiria a esquerda como um todo, diante de uma mudança tão radical na política externa da cúpula da esquerda?

Especulando, sempre especulando, o mais provável é que as resistências dentro da própria esquerda sejam relativamente sufocadas (pelo menos por algum tempo) pelo entusiasmo causado pela volta da esquerda ao governo e pelas expectativas de sempre.

E ao falar das expectativas, chegamos a um novo ponto: será possível que o povão vai ser menos paciente com a esquerda, do que está sendo paciente com a direita?

A experiência mostra, por mais paradoxal que possa parecer, que o povo cobra mais da esquerda.

Isso pode criar sérios problemas para a cúpula da esquerda, por exemplo perda de apoio na base social e crescimento da oposição de direita.

Mas, viva o pensamento positivo, vamos supor que tudo isto seja manejável, ou seja, que a cúpula da esquerda faça a troca citada, que ganhe as eleições, que consiga tocar as coisas, que consiga chegar ao final do mandato e inclusive que consiga a reeleição.

Afinal, não foi isso que aconteceu em alguns países europeus no passado recente? Sendo assim, não custa – já que estamos especulando – fazer como alguns mais bem dotados fazem e tomar “asoropa” como parâmetro para tudo.

A questão é: o que tudo isso provocaria no desenvolvimento de longo prazo do país?

Evidentemente, esqueçamos de socialismo.

Esqueçamos também de social-democracia de verdade, de um welfare state que mereça o nome.

Mas será que um acerto com o império ajudaria, pelo menos, na construção de um capitalismo melhorzinho??

Alguns acham que sim (please atention: isto é uma especulação!).

Acham que o império está no modo New Deal e que, portanto, um acordo com o império neste momento poderia ter o mesmo efeito que (supostamente) teve a aproximação entre Vargas e FDR.

Deixemos de lado o que ocorreu com Vargas no final da Segunda Guerra e deixemos também de lado o que ocorreu com Vargas no seu posterior mandato eleito.

Vamos nos concentrar na tese.

A tese é que os EUA de hoje seriam como os Estados Unidos dos anos 1930.

A tese também supõe que os EUA dos anos 1930, como os EUA de hoje, não seriam imperialistas.

Ou seja: por um lado a tese passa o pano. Por outro lado, a tese desconhece que o mundo mudou, que o capitalismo mudou, que os EUA mudaram… para pior.

Sendo esta a tese de fundo, se a tal troca for feita, tudo pode dar certo, mas vai dar tudo errado.

Claro, disse e repito, tudo isso é só uma especulação sem base alguma na realidade.

Até porque, se tivesse alguma base na realidade, seria a confirmação de que a ilusão é a quinta força do Universo.

Ou de que jabuti sobe em árvore.

(*) Valter Pomar é professor e membro do Diretório Nacional do PT


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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