Por Wladimir Pomar (*)

A persistência do Covid.19, o alastramento do desemprego e do desamparo econômico, social, cultural e político de crescentes camadas da população brasileira, e uma política presidencial que não só trata com desdém a situação real, mas se empenha em piorá-la ainda mais, geraram, nas últimas semanas, um sopro de vitalidade com as ações de movimentos sociais.

Eles se dispuseram a enfrentar, nas ruas e de peito aberto, não só os perigos do Covid, mas também a sanha das castas nazistas bolsonaristas, e a espionagem de gente de proa no governo, proclamando alto seu apoio à democracia. E, numa demonstração de que também pretendem derrubar o hipócrita monopólio dos capachos entreguistas, levantaram a bandeira brasileira junto com bandeiras de movimentos populares ativos.

A surpresa dessa erupção democrática e de defesa nacional demonstra, por um lado, que cresce, em diversas camadas da população brasileira, a disposição de enfrentar os desmandos da vertente nazista da burguesia e da pequena burguesia. Por outro lado, também torna evidente que diversas organizações da esquerda política desconhecem essa realidade e têm dificuldade em traçar não só táticas capazes de orientar tal enfrentamento, mas principalmente possuir uma estratégia que dê rumo mais seguro a tais táticas.

Parece haver correntes de esquerda esquecidas de que, sem estratégia clara, as táticas tendem a se perder no remoinho dos enfrentamentos sociais e políticos. Como ainda não foi realizada a avaliação crítica da presença de algumas dessas correntes no governo central, entre 2002 e 2016, e dos erros que as levaram a serem apeadas por um golpe do impedimento, há um vácuo estratégico em seu pensamento e em suas formulações políticas.

Em consequência, suas táticas sofrem pela falta de clareza e por indecisões. Para piorar, seu distanciamento dos grandes contingentes populacionais da base da sociedade (em especial da classe trabalhadora, da classe dos sem-sem e das camadas médias populares), que englobam mais de 80% dos brasileiros, não lhes permite ter uma visão clara da vida e da luta diária desses contingentes, de seu grau de clareza sobre o que está ocorrendo, e de suas formas de organização e de luta para enfrentar os desmandos dos de cima.

Em tais condições, torcidas organizadas se aliarem para lutar em defesa da democracia tornou-se um inesperado e belo fenômeno. Isso, principalmente se levarmos em conta que, em geral, não há um entrelaçamento íntimo entre as forças populares organizadas e tais camadas populacionais. E que não há clareza sobre a real correlação de forças sociais e políticas, nem sobre o que está causando profunda divisão no seio da burguesia e da pequena burguesia, que jogaram quase todas as suas fichas na eleição de Bolsonaro.

Além disso, acompanhando as opiniões correntes, parece não haver clareza geral sobre a profundidade do que alguns chamam de crise sistêmica. Nem todos concordam que os fenômenos mais característicos de tal crise são a crescente centralização financeira por uma parte reduzida da burguesia, a crescente desindustrialização, a tendência à subordinação política e econômica do Brasil aos Estados Unidos, o crescente retrocesso da economia brasileira à condição colonial de fornecedora de matérias primas minerais e agrícolas, a brutal precarização do trabalho, e o crescimento constante das populações jogadas na miséria.

Em outras palavras, nem todos procuram, nesse processo desastroso, as raízes da atual divisão no seio das classes dominantes. Divisão que se expressa nas dissenções nos partidos de direita e do centro, nas vacilações e desencantos de muitos que acreditaram e votaram no “Mito”, no bandeamento de alguns dos principais grupos de imprensa (antes totalmente empenhados na destruição do PT e na desmoralização e prisão de Lula) para uma forte oposição ao “E daí?”.

Atualmente, lendo comentaristas que se destacaram como direitistas raivosos contra o PT, têm-se a impressão de que eles migraram da ultradireita para a ultraesquerda, embora continuem dardejando alfinetes contra a esquerda real. Ou seja, embora sempre vacilando sob o temor da volta da esquerda verdadeira ao governo central, a burguesia e a pequena-burguesia descontentes procuram submetê-la a uma “frente ampla”. Isto é, a um movimento político que não pretende abrir, à maior parte do povo, o direito de participar na definição de caminhos democráticos populares para o país.

Ou seja, de caminhos que, além de permitirem a “igualdade” formal na geração da riqueza nacional, também introduzam “igualdade” na distribuição da renda gerada pelos trabalhadores e na definição dos rumos do país. Atualmente, parcelas da burguesia até se solidarizaram com discriminados por diferenças raciais e com penalizados pela pandemia. Porém, jamais com os que são discriminados por pretenderem menos exploração econômica e social e ter voz na definição dos rumos do país.

De qualquer modo, embora sendo um problema teórico de vulto, tal dicotomia só será resolvida quando se tornar evidente quem teve capacidade de mobilizar milhões de brasileiros, não só para dar um basta às sandices destrutivas do bolsonarismo mas, principalmente, para indicar um caminho claro de desenvolvimento econômico, geração de  empregos, distribuição democrática da renda, participação popular na governança do país, e independência nacional.

Em outras palavras, apesar do pensamento terraplanista, imobilista e entreguista das correntes governamentais atuais, o despertar da luta popular começa a demonstrar o contrário. Isto é, que a Terra, além de redonda, move-se, fazendo com que movimentos idênticos sejam realizados por seus habitantes.

É o que o povo brasileiro recomeça a fazer, apesar dos desafios das pandemias virótica e governamental.

(*) Wladimir Pomar é escritor e jornalista.

Comente!