Por Wladimir Pomar  (*)

Em comentários anteriores, argumentamos que pareciam brotar da boa vontade as teses sobre a necessidade de manter “diálogos políticos” para resolver os problemas que afetam a vida dos brasileiros. E lembramos que até mesmo alguns petistas argumentavam que o governo Bolsonaro poderia ser convencido de que o Brasil deveria adotar uma política que fortalecesse sua economia, gerasse empregos e renda, protegesse o meio ambiente e as áreas indígenas, e controlasse a venda de armas.

De acordo com essa “oposição branda” ao desastre bolsonarista, seria necessário superar a “banalização” da luta pelo impeachment porque não haveriam “provas suficientes” para uma ação de destituição do presidente. Ainda segundo tal “oposição”, embora ninguém possa negar a tragédia que continua atingindo o Brasil, seria possível fazer com que o “diálogo político” seguisse adiante, sem a “banalização” do instrumento do impeachment”, porque ainda não existiria uma “comprovação” que permitisse condenar Bolsonaro.

Argumentamos que, por incrível que pudesse parecer, tais “teses dialogais” haviam emergido no momento crítico em que o Brasil estava sendo empurrado por processos violentos de enfraquecimento de sua economia e de piora brutal das condições de vida da maior parte de sua população. Em tais processos ficava evidente que, além do criminoso negacionismo no combate à pandemia (atualmente com mais de 600 mil mortos), o Brasil se via cada vez mais envolvido por uma política econômica desastrosa, por atos de corrupção, pela queima criminosa de empresas estatais, e por ações que visavam romper com qualquer processo democrático.

Num país sério, tais “provas” bastariam para a instauração de um processo de impeachment, já que são publicamente evidentes e demonstráveis as barbaridades praticadas pelo presidente desde sua posse. Em tais condições, acrescentamos, os propagadores da necessidade do “diálogo” e da “não banalização do instrumento do impeachment”, talvez estivessem vivendo em outro país, ou na Lua, supondo a inexistência de comprovação das ações criminosas do governo.

Depois disso, por ironia da história, tivemos que agradecer às declarações do próprio presidente, em Brasília e em São Paulo, no dia da Independência, por comprovarem que os defensores do “diálogo” estavam, ou ainda estão, realmente na Lua. Desconhecem a realidade brasileira, assim como a natureza fascistóide do presidente e de seu governo. E não se deram conta de que a forma mais crível de impedir que o Brasil seja levado a um fosso sem volta consiste justamente no impeachment, o mais rapidamente possível.

Se até mesmo políticos do centrão se mostraram propensos a considerar seriamente tal processo, não deixa de ser vergonhoso que alguns próceres petistas ainda mantenham a suposição de que o “diálogo” com Bolsonaro e seu governo seja algo viável. E é ainda mais estranho que, apesar do próprio presidente continuar gerando constantes discursos e ações desastrosas, ou fornecendo argumentos evidentes para que aqueles próceres “retornem das regiões lunares para as terras brasileiras”, eles continuem pretendendo um “diálogo” impossível.

Portanto, em tais condições, só nos sobra desejar que tais “próceres políticos petistas” realizem uma boa viagem de retorno à terra brasilis e à batalha do impeachment contra a figura principal do governo responsável por um dos mais desastrosos índices mundiais de mortes pela pandemia do Covid, pela queima criminosa do patrimônio público, pelo afundamento da economia nacional, pelos desastres ambientais, e pelo alastramento criminoso vergonhoso da fome e da miséria.

Tal batalha pode até não se concretizar antes das eleições presidenciais de 2022. Ela é, porém, um dos fundamentos para alertar camadas ainda mais amplas de brasileiros sobre os desastres promovidos pelo bolsonarismo. Portanto, não pode ser abandonada, por mais que que o “diálogo” possa representar uma tentativa civilizada de resolver problemas. Desde que, é lógico, ambos os lados sejam portadores de hábitos civilizados.

(*) Wladimir Pomar é jornalista e escritor político.

 

 

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