Por Lucas Rafael Chianello (*)

Após o GP do Bahrein de F-1 de 2012, quando Flavio Gomes compara Sebastian Vettel com Ayrton Senna, ele diz que o piloto brasileiro era alguém de quem se era proibido não falar bem.

O mesmo se aplica a determinadas figuras do PT, de modo que divergências sobre suas visões faz com que sejamos vistos como pessoas que querem aparecer para tumultuar, ou tumultuar para aparecer, quando na verdade a intenção é exaurir um debate não sobre a pessoa, mas sobre a concepção que estrutura a ideia defendida por determinada pessoa.

Colocado isso, questiono: de onde vem tanta idolatria a José Dirceu, um reformista sistêmico tratado como um revolucionário antissistêmico?

Ainda que não seja necessário, quem me concede “licença” para criticá-lo é o próprio José Dirceu.

Lembro de assisti-lo no púlpito da Câmara dos Deputados ao fazer sua defesa no seu processo de cassação, quando em determinado momento ele diz que erros políticos não podem ser pautas de julgamentos jurídicos, o que é correto afirmar.

Portanto, toda a injustiça jurídica sofrida por ele no mensalão e na lava jato não constituem motivos para automaticamente aprovar suas proposições políticas.

Em entrevista à TV 247 e posteriormente em artigo publicado no Poder 360, José Dirceu, tratado por muitos como o estrategista infalível, defendeu a adesão do PT ao “bloco do Maia”.

Basicamente, para José Dirceu, se não fossem decisões do STF, votações no Congresso e oposição política do PT à esquerda do atual governo, Bolsonaro já teria instaurado uma nova ditadura.

 

A leitura do “estrategista infalível” é inconsistente

O Rodrigo Maia que se coloca como vanguarda da democracia e líder de um bloco anti-bolsonaro é o mesmo Rodrigo Maia que processou e aprovou a reforma da previdência, que castiga milhões de trabalhadores brasileiros que nunca mais irão conseguir se aposentar até que uma nova reforma previdenciária seja tramitada e aprovada no Congresso.

O Rodrigo Maia que se diz vanguarda da democracia é o mesmo que então presidente da Câmara dos Deputados no golpe de Temer dizia que não havia espaço para demandas da sociedade, enquanto Bolsonaro, durante a campanha presidencial, dizia que os brasileiros teriam de escolher entre seus direitos ou seus empregos.

Portanto, sem prejuízo de outros exemplos, José Dirceu, “o infalível”, revela-se um proponente de algo sem sentido: para derrotar Bolsonaro, defende que o PT se alie a quem processa e aprova suas reformas, inclusive para se ter espaço na própria mesa diretora da Câmara e comissões, o que não tem surtido qualquer efeito no sentido de barrar as reformas nazi-bolsonaristas.

Se a agenda de ataques aos direitos trabalhistas, de desmonte do SUS em tempos de pandemia, de privatizações e de reforma administrativa é comum, a qual oposição José Dirceu se refere?

Cada contexto tem suas particularidades e ao contrário do que José Dirceu afirma no artigo publicado no Poder 360, a opção de se aliar ao “bloco do Maia” pode sim descaracterizar o partido a ponto de ferí-lo de morte: como vamos justificar para a sociedade que para barrar os retrocessos primitivos propostos por Bolsonaro, nos aliamos, na Câmara, a quem processa e aprova esses retrocessos?

Se por um lado José Dirceu é o grande artífice da estratégia classista conciliatória que elegeu Lula e Dilma, ele também é um dos grandes responsáveis por essa estratégia não ter respondido ao golpismo tradicional que sempre houve na direita brasileira quando não aceitaram uma nova vitória de Dilma.

Se o PT passou a debater internamente um modelo de partido que deixou de ser dirigente de luta para se tornar refém de mandatos, José Dirceu foi decisivo para isso ao liderar a formação de uma maioria interna, desde meados dos anos 1990, menos ideológica e mais eleitoral, cordata, obediente e fisiológica que passou a reproduzir nos processos decisórios internos do partido os mesmos vícios do sufrágio eleitoral estatal financiado pelo grande capital.

Que se debata e se execute todas as medidas necessárias que indenizem José Dirceu do assassinato de reputação sofrido por ele na qualidade de presidente do PT, ministro da casa civil de Lula, deputado federal e cidadão militante.

Porém, o mérito político de suas proposições precisa ser derrotado, a começar pelo fechamento de questão pela direção nacional do PT que delibere por uma candidatura própria do partido à presidência da Câmara dos Deputados, pois se com a prisão de Lula e o golpe contra Dilma concluímos que não podemos ser republicanos, mesa diretora de poder legislativo também é espaço de luta ideológica.

E se a camarilha de Maia também tem autoria no golpe contra Dilma, na prisão de Lula, no desmonte do estado brasileiro e na própria perseguição a José Dirceu, a célebre frase de Sartre vem a calhar: “Não costumo respeitar as vítimas que se comportam bem diante de seus algozes.”

Sob pena de confusão nas nossas fileiras e de nos tornarmos cretinistas parlamentares, Bolsonaro e o golpismo só serão derrotados com luta social do povo brasileiro, cujo espaço deve ser demarcado tanto na sociedade como nas instituições.

(*) Lucas Rafael Chianello é advogado, jornalista, filiado ao PT de Poços de Caldas e membro da DEAE/MG


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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