Por Olavo Brandão Carneiro (*)

Manifestantes contrários à proposta de privatização da Cedae protestam em frente ao prédio da Alerj. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Texto publicado na edição de maio do Jornal Página 13

A conjuntura do estado do Rio de Janeiro foi muito agitada na última semana de abril. Assistimos uma dura queda de braço em torno da privatização da Cedae e a conclusão do esperado impeachment do governador Witzel. Os dois fatos impactam a disputa política, ideológica e eleitoral do estado.

A batalha da Cedae recolocou o tradicional debate sobre o papel do Estado e a suposta eficiência da iniciativa privada. A história é cheia de exemplos que as privatizações não melhoraram a vida do povo e só serviram para enriquecer CEO´s e acionistas.

A posição liderada pelo presidente da ALERJ, André Ceciliano do PT, ficou marcada como de oposição à privatização da empresa responsável pelo saneamento em 35 cidades fluminenses, conforme cards, textos nas redes sociais e vídeos de lideranças, movimentos sindicais e instancias do PT. Apesar do PDL aprovado não ser contra a privatização e sim impor condições mais favoráveis ao Estado.

Na política fluminense a polêmica sobre o leilão da Cedae reposicionou especialmente Ceciliano, que já tinha votado a favor da entrega da empresa aos interesses privados. Pela segunda vez em um ano, o deputado do PT confrontou o titular de plantão do Poder Executivo. Desde o governo Pezão, André Ceciliano contribui com a governabilidade do Palácio Guanabara.

Em 2019, Ceciliano liderou a aprovação das contas do governo Pezão, que escandalosamente descumpriu a aplicação de recursos de fundos estaduais e os mínimos constitucionais em saúde e educação. Ao mesmo tempo, ajudou o emedebista e o governo Witzel que se iniciava. Após o afastamento do juiz oportunista, o governador interino Claudio Castro contou com a ajuda do presidente da ALERJ na condução da gestão estadual.

A divergência sobre as condições de se realizar a entrega da Cedae opôs, enfim, Ceciliano ao bolsonarista Claudio Castro. O governador interino, o clã Bolsonaro e Guedes perderam na ALERJ por 34 a 22, mas garantiram o leilão na Justiça. A mistura de interesses – público e privado – foi escancarada a ponto de termos no leilão a presença do presidente Jair Bolsonaro e uma das empresas vencedoras ser a BTG fundada por Paulo Guedes.

Na semana anterior, a Alerj aprovou um projeto de liberdade nas escolas, no sentido oposto ao projeto “escola sem partido”, de autoria de Carlos Minc/PSB e André Ceciliano, recusando todas as emendas bolsonaristas.

Inegavelmente Ceciliano polarizou, pela esquerda, com o campo bolsonarista no estado do Rio de Janeiro, e se projetou como nome do campo progressista para a disputa do governo estadual em 2022.

Para encerrar o mês agitadíssimo no cenário fluminense, vimos no dia 30 de abril se consumar o impeachment de Witzel, tendo como importante protagonista o deputado petista Waldeck Carneiro, na condição de relator. Deste modo sacramentou a condição de Claudio Castro como governador de fato e de direito, aumentando de certo modo a sua autonomia como governador. Ele nunca escondeu apoiar Bolsonaro, mas agora tende a deixar mais nítidas as suas alianças e ambições alinhadas ao bolsonarismo. O que se espera do presidente da Alerj é a continuidade da polarização com a ultradireita expressa em Claudio Castro.

(*) Olavo Brandão Carneiro é membro da Executiva do PT-RJ.


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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