Por Luiz Sérgio Canário (*)

O Vox Populi, um dos mais sérios institutos de pesquisa de opinião, publicou uma pesquisa onde sonda os sentimentos do povo sobre a vida sob Bolsonaro, sobre o governo Bolsonaro e sobre as eleições em 2022. Essa pesquisa traz dados interessantes. O primeiro deles é logo de cara: Como você se sente hoje em relação ao Brasil?

É importante atentar que aí estão números dos últimos 13 anos, passando por Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro. O pico de satisfação é 2012, primeiro ano de Dilma, e o de insatisfação é de longe, muito longe, os dois anos de Bolsonaro. Saímos de um alto nível de satisfação com o PT, passamos por um período relativamente longo de paridade entre satisfação e insatisfação, e chegamos no atual estágio. Bolsonaro acabou com a percepção de satisfação das pessoas com o país!

Daí para frente a pesquisa mostra Lula dominando todos os aspectos positivos e Bolsonaro os negativos:

  • Melhor presidente: Lula desde 2013 o melhor, chegando agora a 46%. Bolsonaro 17%
  • Pior presidente: Bolsonaro com 46% e Lula longe, com 17%
  • Conhecimento: 91% conhecem Lula e 71% conhecem Bolsonaro
  • Avaliação: Lula, Positiva, 47%, Bolsonaro, atrás de Sérgio Moro, 23%
  • Chance de voto: Com certeza 39% votarão em Lula. Em Bolsonaro, 19%. Não vota em Lula, 39%. Não votam em Bolsonaro, 64%
  • Sentimento: 50% gostam de Lula e 25% não gostam. 27% gostam de Bolsonaro e 50% não gostam

Na pesquisa eleitoral a vantagem de Lula é expressiva:

Voto espontâneo:

Voto estimulado:

Lula somente não está na frente na região sul, assim mesmo por um ponto percentual. E está na frente em todas as outras categorias: sexo, idade, escolaridade, renda, religião e raça. No segundo turno vence em todos os cenários:

Também vence no segundo turno em todas as regiões e todos as outras categorias. Na pergunta “Quem vai ganhar as eleições?” 47% acham que é Lula, contra todos os outros candidatos: Bolsonaro, Ciro, Huck, Doria e Amoedo. A pesquisa segue avaliando vários aspectos do governo Bolsonaro: enfrentamento da pandemia, isolamento social, responsabilidade pelas mortes e continuidade do auxílio emergencial. Em todos os aspectos a avaliação é negativa.

A pesquisa também mostra que a maioria das pessoas acha que o PT e Lula foram perseguidos, que as acusações contra Lula não foram comprovadas e que Moro deveria ter sido condenado mesmo. Outro dado interessante é o comparativo entre as pesquisas de vários institutos:

Independentemente da avalição da qualidade ou da confiabilidade das pesquisas, chama a atenção o crescimento de Lula entre os dias 4 e 16 de maio. E uma certa estabilidade, com tendência de baixa, de Bolsonaro. Além dos números baixos de todos que querem ocupar o lugar de “terceira via”.

Esse certamente é um cenário animador. Tanto pelo desgaste de Bolsonaro, quanto pelo crescimento de Lula. Mas também trás questões importantes que precisam de atenção, cuidados e segurança constantes.

O cenário mostra um país polarizado. Está cristalizada a aparente luta do bem contra o mal, onde Lula representa o bem e Bolsonaro o mal. Isso coloca uma enorme responsabilidade nas mãos de Lula e do PT. Nesse momento ele se consolida como a resposta a tudo de ruim. O verdadeiro D. Sebastião que retornou das Cruzadas para livrar o povo português de todos os males. E isso é perigoso para Lula e principalmente para o PT. Não temos o direito de errar. A expectativa é enorme.

Por mais que tenha se discutido sobre não antecipar as eleições de 2022 para 2021, que ainda teríamos que atravessar esse ano antes de falar sobre eleições, consolidar posições, a campanha eleitoral está no pano de fundo de toda a movimentação política faz um tempo. Lula e Ciro estão em campanha. Os demais estão pensando o que fazer para furar a polarização Lula-Bolsonaro. E nisso pode-se até dizer que o governo Bolsonaro acabou como algo funcional e com capacidade de mudar significativamente o cenário. Atenção, isso não quer dizer que Bolsonaro está morto. Não está. Ele também está em campanha. A máquina subterrânea poderosa que o elegeu e que o apoia está a todo vapor. E crescendo. A rede de apoio dele está trabalhando. Ele vai seguir destruindo tudo ao seu redor e mandando para o Congresso todas as “reformas” tramadas pela equipe de Paulo Guedes. Mas cada vez mais refém do centrão. Artur Lira se posicionou na defesa dos interesses patrimoniais de seus colegas. O país que se dane. Só passa ali o que render algum dinheiro. A proposta que foi votada para a privatização da Eletrobrás, repletas dos famosos jabutis, é exemplo disso: passou, mas tem ali uns gatos. Bolsonaro vai seguir arrasando e salgando a terra por onde passa para que nada mais cresça nos escombros. Talvez ainda restem algumas árvores na Amazônia, se ele não for barrado a tempo. E também sabe-se lá quantos brasileiros vivos após o fim dessa pandemia.

E é nesse cenário de terra arrasada, cercado de legislações que impedem o governo de ter um orçamento e uma execução orçamentária decente, de um banco central supostamente independente, de uma política fiscal neoliberal e com o aparelho do estado enfraquecido que Lula e o PT, se ganhamos as eleições, vão ter que governar. E atender às expectativas e anseios do povo e da classe trabalhadora.

E a resultante da soma de tudo isso é que o PT precisa pavimentar o caminho para 2022 desde já. Atravessar o ano de 2021, que já vai pela metade, construindo uma candidatura com fortes vínculos com a classe trabalhadora e o povo. Como se diz, com um olho no gato e outro no peixe. Precisamos combater os efeitos desse governo assassino sobre a vida das pessoas, lutar pela vida, pelo emprego, pelo fim da miséria, por vacina, por um auxílio emergencial decente e suficiente até o fim da pandemia. Não esperarar pelas eleições para tirar Bolsonaro do governo. Cada dia que ele passa como presidente significa muitos brasileiros de todas as idades mortes. Significa prosseguir com a destruição de tudo que foi construído em muitos anos de luta da classe trabalhadora. Fora Bolsonaro é um grito pela vida!

Não podemos achar que 2023 será igual a 2003. Em vinte anos o país mudou. E para pior. E nós já sabemos o que compromissos com a burguesia representam: golpe. Lula pode e precisa conversar com todo mundo que queira. Como disse Dilma, até com o diabo. Mas está na hora dele começar a demarcar campo. Deixar claro de que lado está. A quem um governo do PT irá servir e quais são nossas prioridades. Recolocar a construção do socialismo como saída para a crise. Romper como a política conciliadora imposta pela direção de nosso partido. Não há fração da burguesia disposta a apoiar um programa de transformações que nosso país precisa e o Partido dos Trabalhadores tem por obrigação implantar. O nosso giro é para a esquerda, na direção do socialismo.

Almoçar com FHC é socialmente aceitável. Mas politicamente não. FHC é uma liderança da direita que apoiou com entusiasmo todo o processo de construção e de execução do golpe. A sinalização pode ser boa para setores da direita, para fortalecer FHC na disputa interna do PSDB ou para o ego dele. Mas não é boa para nós. O velho e bom diga-me com quem anda e lhe direi quem é. Ou ainda, quem com porcos se mistura farelos come. A sabedora popular é muito sábia!!!

(*) Luiz Sérgio Canário é militante petista em São Paulo-SP


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

 

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