Por Marcos Aurélio da Silva (*)

Um certo ultra-esquerdismo tem se lançado à crítica das chamadas lutas identitárias como fosse este o centro do problema do pós-moderno. Isto é apenas um resultado. O problema pós-moderno começa na completa ruptura com uma ideia de “unidade da história”, no que resulta em uma visão fragmentada das lutas sociais, incapaz de apresentá-las no interior dos grandes coletivos que emergiram no mundo moderno. Uma “falsa consciência”, para lembrar o conceito de ideologia de Engels, uma consciência fixada na “parte”, incapaz de apreender a realidade como “totalidade” — mas nem por isso esta “parte” significa um “nada”, uma “ilusão”.

Por “grandes coletivos” do mundo moderno, nos referimos aos sindicatos e aos grandes partidos de massa, mas até mesmo às grande revoluções socialistas que estes partidos puderam conduzir e seu legado positivo para as lutas das regiões do globo que não passaram por esta ruptura — incluindo a visão “programática da economia”, voltada a superação do atraso industrial e tecnológico impostos pelo colonialismo e depois pelo imperialismo, e assim também para a superação — a toda prova central para os oprimidos do Terceiro Mundo — de uma vida de misérias restrita ao mundo rural.

Economia programática, vale recordar, é como Gramsci definiu o socialismo, o mesmo Gramsci que, em uma das tantas cartas que escreveu no cárcere, chegou a se referir ao desflorestamento — hoje central para a militância pós-moderna — como um problema a ser enfrentado através de uma piatilietka — os planos quinquenais soviéticos iniciados na era Stalin. A mesma piatilietka aplicada na Índia de Nerhu e em muitos outros lugares, mas igualmente central no socialismo chinês que hoje conhecemos, já palmilhando a organização de uma “ecocivilização”.

Pois bem, este mesmo ultra-esquerdismo é aquele que, seja de qual dimensão das lutas se trate, frequentemente propõe que se jogue fora não só “a água suja do banho”, mas até mesmo “a criança” (é isto mesmo, raro leitor, até mesmo a “criança”!). Não é de estranhar que, neste caso, as lutas do movimento negro, das mulheres, a luta ambientalista, do movimento por liberdades e identidades sexuais e de gênero, figurem a este campo político como um atraso capaz de destruir a luta do proletariado revolucionário. Os chineses de que acima falamos, já conscientes da necessidade de “promover uma virada em relação a um desenvolvimento considerado pouco racional e medido apenas em torno do PIB” (2), deitam-se no chão de tantas risadas.

Bem vista as coisas, estamos diante de uma perfeita “volta redonda”, vale dizer, um giro que conduz este tipo militância para posições muito conservadoras. Se fôssemos buscar uma aproximação histórica, diria tratar-se de um neosocialchauvinismo, a replicar elementos daquele que se desenvolveu no seio da esquerda europeia ao tempo da I Guerra Mundial, a distorcer completamente a importante questão nacional — a rigor a questão popular — no interior do marxismo. (3)

Assim como o socialchauvinismo do início do século XX, que ao aprovar os créditos de guerra terminou por se colocar contra a luta dos povos oprimidos (incluindo o proletariado dos seus próprios países, feito bucha de canhão nas trincheiras), também este, afastando-se das lutas populares e democráticas que cada uma destas frações representa, e acima de tudo incapaz de integrá-las nas lutas dos grandes coletivos que emergem com a modernidade, se desloca perigosamente para o campo adversário assumindo posições tão conservadoras quanto ele.

Voltas e mais voltas para não sair do mesmo lugar. Pior, voltas e mais voltas para assumir posições muito próximas a um pós-modernismo de direita. Críticos contumazes do legado do mundo moderno, Steve Bannon, Donald Trump, Bolsonaro e tutti quanti do chamado neopopulismo — que de semelhança com o populismo clássico latino-americano tem apenas o nome, posto abertamente reacionário e distante de um sopro sequer de reformas modernizantes — agradecem.

(*) Marcos Aurélio da Silva é professor da UFSC

Notas:

(1) Gramsci, A. Lettere dal carcere — 1926-1937. Palermo: Sellerio, 1996, p. 424.

(2) Bertozzi, D. A. A Cina della riforma: un percorso storico-ideologico. Marx Ventuno, n. 2-3, 2015, pp. 60-1.

(3) Azzarà, S. G. ‘Sovranismo’ o questione nazionale? Il rinselvatichimento socialsciovinista nella politica odierna. in: Il secondo tempo del populismo. Sovrannismo e lotta di classe. Roma: Momo edizione, 2020.


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

 

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