Por Valter Pomar (*)

No dia 15 de março, o jornal Brasil de Fato publicou um texto intitulado “A situação atual e o paradoxo do lulismo”. O artigo é assinado por André Flores Penha Valle, que é doutorando na Unicamp e até onde eu sei, militante da Consulta Popular.

O texto comemora a “devolução dos direitos políticos ao maior líder popular do país”, mas ao mesmo tempo afirma existir um “paradoxo entre a possibilidade de derrota eleitoral do neofascismo e a repetição da política que contribuiu para a derrota da classe trabalhadora no último período”. Alerta sobre a difícil disputa eleitoral, “que se acontecesse hoje provavelmente seria resolvida voto a voto”, sem falar nos riscos de “uma nova condenação ou qualquer tipo de golpe que impeça a sua candidatura”. E lembra que, “se puder ser candidato, Lula e o PT precisarão acumular forças para serem eleitos, tomarem posse e poderem governar”. Um momento, portanto, bastante diferente de 2002. Até aí tenho concordância com o texto. Vejamos agora as diferenças.

Segundo André Flores, 2021/2022 seria um momento bastante diferente não apenas em relação à 2002, mas também diferente dos “seguintes anos de crescimento econômico e estabilidade política, quando tais forças [lavajatismo e bolsonarismo] eram inexpressivas ou inexistentes e Lula pôde superar a crise do ‘mensalão’ (2005) apelando apenas para o apoio do grande capital nacional, dispensando a mobilização dos trabalhadores”.

Não é verdade que o lacerdismo de classe média fosse “inexpressivo” ou “inexistente” em 2005. Nem é verdade que Lula (e o PT) tenham superado a crise de 2005 apelando “apenas para o apoio do grande capital nacional, dispensando a mobilização dos trabalhadores”. Aliás, a história teria sido outra se não tivesse ocorrido a imensa mobilização da “nação petista” em 2005 e se, no segundo turno de 2006, Lula não tivesse ressuscitado o programa do PT de 2001.

Claro que nunca saberemos qual teria sido o desfecho da chamada “crise do mensalão”, se a postura do PSDB tivesse sido diferente da que foi: não tentar o impeachment e “fazer Lula sangrar” até 2006. Em 2014 eles não repetiriam esse erro. Mas em 2005/2006 foi aquela a opção. André Flores atribui isso a suposta pressão do grande capital nacional sobre o PSDB. Não sei com base no que ele sustenta esta tese, mas minha interpretação dos acontecimentos é outra: um cálculo político errado do comando tucano.

Outra diferença importante diz respeito a afirmação sobre o “golpe que resultou no governo de Michel Temer e que criou as condições para a vitória eleitoral de Bolsonaro em 2018”. O que criou as condições para a vitória eleitoral de Bolsonaro não foi o golpe de 2016, mas o desastroso governo Temer (que esvaziou as candidaturas da direita gourmet) e a interdição de Lula.

Mais uma diferença diz respeito a maneira como se apresenta a classe dominante brasileira e suas frações. Segundo André Flores, o golpe “assinala uma mudança de qualidade na correlação política de forças, na medida em que as classes dominantes se reunificaram em torno das medidas do ‘custo Brasil’ – jargão empresarial que justifica a redução do custo de reprodução da força de trabalho (reforma da previdência, reforma trabalhista, teto de gastos, etc.) – e que essa reunificação coincide ou resulta da entrada em cena do movimento de massas das classes médias e da pequena burguesia verde-amarela”.

A classe dominante brasileira está “unificada” (entendendo isto como ampla hegemonia de uma determinada posição) em torno das políticas neoliberais desde os anos 1990. Esta ideia de que havia um setor da classe dominante com outra posição foi uma ilusão alimentada por setores da esquerda que confundiam as posições táticas de certos personagens e de algumas frações da classe dominante, frente aos governos petistas, com as posições programáticas e estratégicas da classe dominante. Por outro lado, achar que a classe dominante se reunificou em torno de uma determinada estratégia e programa, como resultado da entrada em cena da pequena burguesia/classes médias é simplesmente um contrasenso. Fosse assim, não seria a classe dominante. O que ocorreu em 2010-2016 foi a progressiva unificação da classe dominante em torno da decisão de excluir a esquerda do governo, pelos meios que fosse necessário.

Outra diferença, que em certa medida resulta da anterior, é acerca do “pacto neodesenvolvimentista”. Na minha opinião, nem houve pacto, nem o termo “neodesenvolvimentismo” é uma descrição adequada do que de verdade existiu no Brasil entre 2003 e 2016. Por óbvio, não vejo sentido falar na possibilidade de reedição de algo que não considero ter existido.

No concreto, Flores fala que o fator Lula pode ser “pode permitir a reorganização de setores da burguesia brasileira eventualmente insatisfeitos com as medidas de abertura do mercado interno promovidas pelo atual governo, ou mesmo com a gestão negacionista da crise sanitária que vem impossibilitando a retomada da atividade econômica”.

Que setores da esquerda sonham com isso, é um fato, assim como há setores que sonham com o apoio dos militares nacionalistas, ou da direita gourmet.

E se Lula voltar a ser presidente, certamente haverá militares e empresários fazendo declarações de amor (como hoje já há jornalistas e influencers fazendo o mesmo). Mas daí a falar em “reorganização de setores da burguesia” vai uma longa distância. E organizar uma estratégia pressupondo (ou considerando a possibilidade da) reedição de um “pacto neodesenvolvimentista” é confundir 2021/2022, não com 2002, mas com períodos anteriores da nossa história.

O mais curioso nessa análise é que nela Lula é sutilmente apresentado, não como o representante dos trabalhadores no suposto pacto neodesenvolvimentista, mas sim como o representante da suposta fração desenvolvimentista da burguesia. O que, convenhamos, é uma confissão de que tal fração só existe no terreno dos desejos.

O texto de Flores diz assim: “mesmo a burguesia depende de uma representação ou organização política, capaz de organizar os seus interesses em um programa para demandá-los ao Estado. De tal modo, a presença de Lula no processo eleitoral pode deslocar a contradição entre o capital nacional e o capital estrangeiro para o centro da disputa política novamente, se houver acordo em torno dos antigos compromissos de priorização da burguesia brasileira ante a concorrência estrangeira no espaço econômico nacional”.

Poder, pode acontecer quase tudo, mas a questão é: se estamos falando da realidade, é preciso se perguntar de que capital nacional estamos falando. Do capital financeiro? Do capital industrial e comercial? Qual a capacidade real destas frações polarizarem com o capital estrangeiro?

Na verdade, tanto no período 2003-2016 quando num futuro governo petista, o capital nacional realmente existente não tem força para polarizar coisa alguma com ninguém. Quem pode fazer polarização com o capital estrangeiro é o Estado. Não compreender isto foi e pode voltar a ser fatal.

O texto de Flores certamente não vê assim, pois afirma o seguinte: apesar de terem se reduzido as “margens para uma repetição do neodesenvolvimentismo nos moldes anteriores, por outro lado elas não inviabilizam a reedição deste pacto sob as novas circunstâncias, uma vez que não afetam a possibilidade de adoção de medidas de proteção e favorecimento do capital nacional, que constituem os pilares da política econômica neodesenvolvimentista”.

Do meu ponto de vista, não há proteção e favorecimento do “capital nacional” que sejam capazes de ser pilar de uma política desenvolvimentista. Ou se constrói um forte aparato produtivo e financeiro estatal, ou não haverá desenvolvimentismo algum.

Claro, será indispensável fortalecer a pequena propriedade urbana e rural, mas não é disto que se fala Flores, quando  fala de “capital nacional”.

Confesso, por fim, de toda forma, que não fica claro para mim se o texto de Flores critica ou defende a reedição do neodesenvolvimentismo.

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A segunda parte do texto de Flores é denominada a analisar o que ele chama de “paradoxo do lulismo”.

Segundo Flores, para derrotar o neofascismo não basta dividir a burguesia, sendo necessária a organização popular e as lutas de massas, que seriam no dizer dele “incompatíveis com a estratégia política dominante na esquerda brasileira nas últimas décadas, de institucionalização dos conflitos e desmobilização social”.

Minha opinião é que dito desta forma, não estamos descrevendo corretamente as coisas.

A estratégia política dominante na esquerda brasileira desde 1995 não é “incompatível” com a organização popular e a luta de massas.

O problema não é de “incompatibilidade” (ou seja, rejeição absoluta), mas sim do lugar que a luta de massas e a organização popular ocupam na referida estratégia.

Como Flores considera que há uma incompatibilidade (portanto, uma contraposição absoluta), sua conclusão só pode ser a de que Lula é bom eleitoralmente, mas “o lulismo se apresenta como um obstáculo para a reorientação política e ideológica necessária para derrotar o neofascismo.”

Para Flores, que neste ponto diz seguir Armando Boito, o lulismo se define “pela relação exclusivamente eleitoral e desorganizada da representação política com a sua base social, que aspira a proteção social e econômica do Estado, alimentando ilusões sobre a sua função social”.

Esta definição não vale nem mesmo para o varguismo, imagina para o que se denomina (inadequadamente na minha opinião) de lulismo.

Mesmo Vargas não tinha uma relação “exclusivamente eleitoral e desorganizada” com as classes trabalhadoras e com os setores médios. Pelo contrário, havia um forte investimento organizativo.

O problema de Flores, volto a dizer, está naquela definição segundo a qual a “organização popular e as lutas de massas” seriam “incompatíveis com a estratégia política dominante na esquerda brasileira nas últimas décadas, de institucionalização dos conflitos e desmobilização social”.

O termo “incompatíveis” torna incompreensível a existência do PT, da CUT, os movimentos sociais etc.

O problema não é uma suposta “incompatibilidade” absoluta, o problema é o lugar da luta de massas e da autoorganização na estratégia geral.

Com isto não quero negar que exista paternalismo, que não exista insuficiente educação política, que não exista insuficiente estímulo para a auto-organização de classe.

O que estou dizendo é que o excesso de velas põe fogo na igreja. Dizer que “o lulismo não gera saldo organizativo e avanço na consciência política dos trabalhadores” é desconhecer parte importante da realidade.

Neste ponto do seu texto, Flores volta a uma tese que já havíamos comentado antes: o lulismo seria “uma política burguesa dos trabalhadores, mais precisamente uma política da burguesia interna, na medida em que busca integrá-los como classe-apoio em uma frente política dirigida pelo grande capital nacional”.

Quando a gente se aproxima do mundo a partir de categorias a priori, geralmente dá nisso: uma baita confusão. Que existe um setor da esquerda que defende uma aliança com setores do capital, é fato pelo menos desde 1922. Mas apresentar este fato como a defesa de uma “política burguesa dos trabalhadores”, “uma política da burguesia interna”, introduz variantes que precisariam ser melhor desenvolvidas. Se está por acaso querendo dizer que este setor da esquerda é na verdade… burguês?

Sem entrar na discussão sobre se existe ou não algo que possa ser denominado de burguesia interna, registro novamente que dizer que o PT e Lula seriam seus representantes é uma confissão de que tal fração de classe só existe no mundo das categorias vintage.

Digressões a parte, o politicamente essencial no texto de Flores é o seguinte trecho: “o lulismo tornou-se obsoleto com a crise atual, desarmando a resistência dos trabalhadores com a manutenção de uma estratégia estritamente institucional”.

Que a estratégia adotada desde 1995 está historicamente superada, não tenho dúvida. Mas o fato de uma estratégia estar historicamente superada não quer dizer que ela não possa voltar a ser aplicada. Nem quer dizer que, neste caos que é a política real, não possa produzir efeitos de curto prazo positivos do ponto de vista da classe trabalhadora e até mesmo do ponto de vista de uma estratégia que não seja a da conciliação.

Neste sentido, nos conduz a erro a afirmação segundo a qual “na atual conjuntura, não é possível que o lulismo guine à esquerda sem romper com aquilo que o define como fenômeno político e ideológico – a relação exclusivamente eleitoral e desorganizada com as massas trabalhadoras, baseada na ideologia do Estado protetor”.

A verdade, por mais “paradoxal” que possa ser, é que o apelo eleitoral de Lula, a força eleitoral da candidatura Lula, mesmo o Lula estrategicamente e programaticamente conciliador, pode produzir efeitos que contribuam para radicalizar a luta política. Isto porque a burguesia realmente existente não quer pacto algum e continua apostando na interdição política da esquerda.

Portanto, isto que Valle chama de “lulismo” pode contribuir objetivamente para o país guinar à esquerda, mesmo que seu desejo subjetivo possa não ser este.

Como lidar com esta situação contraditória depende, como é óbvio, de onde cada um se situa organizativamente. Para nós que somos petistas, por exemplo, a luta se trava pela definição de uma tática, de uma estratégia, de um programa e de uma política de organização que estejam à altura da atual situação histórica.

(*) Valter Pomar é professor e membro do Diretório Nacional do PT


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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SEGUE O TEXTO CRITICADO

Artigo | A situação atual e o paradoxo do lulismo

Lula e o PT precisarão acumular forças para serem eleitos, tomarem posse e poderem governar

André Flores Penha Valle

15 de Março de 2021 às 12:45

A anulação das condenações impostas ao ex-presidente Lula representa uma importante vitória das forças democráticas e populares. A devolução dos direitos políticos ao maior líder popular do país pode abrir uma nova etapa no processo político, ao viabilizar uma candidatura realmente competitiva para vencer o bolsonarismo em 2022.

Por outro lado, as circunstâncias da vida política nacional colocam em xeque a estratégia que ficou conhecida como lulismo, estabelecendo um paradoxo entre a possibilidade de derrota eleitoral do neofascismo e a repetição da política que contribuiu para a derrota da classe trabalhadora no último período.

Uma nova etapa no processo político

A despeito das vontades e desejos de superação eleitoral, e dos discursos que alegam ser o antipetismo uma força social mais ampla que o antibolsonarismo, o fato é que as pesquisas de opinião recentes indicam que Lula é o candidato com maior potencial de votos no campo da centro-esquerda.

Apesar disso, os dados não oferecem uma garantia de vitória, uma vez que Bolsonaro conta com sólido apoio social em setores das classes médias, na pequena-burguesia e nos trabalhadores neopentecostais dos grandes centros urbanos, além de avançar sobre os trabalhadores informais e de baixa renda através das medidas de auxílio emergencial. Até o presente momento, as pesquisas de opinião apresentam um cenário instável e imprevisível para a disputa eleitoral, que se acontecesse hoje provavelmente seria resolvida voto a voto.

Enquanto uma possibilidade, essa nova etapa no processo político depende da capacidade de o Partido dos Trabalhadores (PT) e Lula conseguirem evitar uma nova condenação ou qualquer tipo de golpe que impeça a sua candidatura.

Embora uma nova inabilitação não se apresente como hipótese mais provável, devido ao desgaste provocado pela “vaza-jato” e à convergência de amplos setores contra o lavajatismo, não é também uma hipótese impossível, devido à persistência do movimento conservador da alta classe média que se articula por dentro e por fora do aparelho de Estado.

A ameaça do Clube Militar, que considerou inaceitável a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) e prenunciou um “ponto de ruptura”, ou as ameaças de Bolsonaro sobre a “facilidade de impor uma ditadura no Brasil”, são mais do que suficientes para dissipar as ingenuidades sobre uma suposta volta à “normalidade institucional” ou uma “vitória da justiça”.

A situação atual

Se puder ser candidato, Lula e o PT precisarão acumular forças para serem eleitos, tomarem posse e poderem governar

Se puder ser candidato, Lula e o PT precisarão acumular forças para serem eleitos, tomarem posse e poderem governar. Os setores sociais com maior atividade política nos últimos anos, as alas lavajatistas e bolsonaristas das classes médias, apesar das rusgas que levaram ao seu rompimento, convergem em torno da interdição da esquerda e do movimento popular na cena política.

É, portanto, um momento bastante diferente em relação à 2002 e aos seguintes anos de crescimento econômico e estabilidade política, quando tais forças eram inexpressivas ou inexistentes e Lula pôde superar a crise do “mensalão” (2005) apelando apenas para o apoio do grande capital nacional, dispensando a mobilização dos trabalhadores.

Naquela ocasião, Paulo Skaf e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), que em 2015-16 reinaram na cena política através da campanha pela redução dos impostos e pelo impeachment de Dilma Rousseff, foram a público defender o governo durante a crise política, dissuadindo o movimento que vinha sendo articulado pelo Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB) no Congresso Nacional para depor o então presidente Lula.

Com o golpe de 2016, a parcela da burguesia brasileira que apoiava os governos do PT se aliou ao imperialismo e seus aliados internos em torno das reformas neoliberais contra os trabalhadores, reeditando a mesma configuração política das eleições de 1989, 1994 e 1998, quando o bloco no poder se unificou para impedir a vitória do PT nas eleições presidenciais.

O golpe que resultou no governo de Michel Temer e que criou as condições para a vitória eleitoral de Bolsonaro em 2018, assinala uma mudança de qualidade na correlação política de forças, na medida em que as classes dominantes se reunificaram em torno das medidas do “custo Brasil” – jargão empresarial que justifica a redução do custo de reprodução da força de trabalho (reforma da previdência, reforma trabalhista, teto de gastos, etc.) – e que essa reunificação coincide ou resulta da entrada em cena do movimento de massas das classes médias e da pequena burguesia verde-amarela.

A ascensão repentina de Jair Bolsonaro como liderança política nacional e, posteriormente, a sua vitória eleitoral em 2018, não é obra do acaso ou um raio em céu azul.

A chegada do neofascismo ao governo é resultante de uma crise política específica, provocada pela combinação particular das seguintes contradições: i) da entrada em cena do movimento de massas das classes médias, inicialmente pelo impeachment de Dilma Rousseff e posteriormente pela “intervenção militar”; ii) da ofensiva política das classes dominantes contra as massas populares, com a unidade contra o “custo Brasil”; iii) da crise de hegemonia, que levou a alteração da hierarquia de poder entre as classes dominantes; iv) da crise de representação dos partidos burgueses, com o abandono das representações tradicionais e a adesão da grande burguesia à candidatura de Bolsonaro; iv) das sucessivas derrotas políticas e da crise ideológica das classes trabalhadoras, que não foram capazes de construir uma alternativa política para barrar o processo de fascistização no país.

O desenvolvimento destas contradições produziu uma instabilidade política permanente, que se prolonga até os dias de hoje. As classes dominantes confiscaram o bolsonarismo para executar medidas regressivas contra os trabalhadores, que por sua vez se encontram dispersos e desorganizados para construir uma resistência à altura.

O avanço do fascismo, as reformas neoliberais e a tutela militar sobre a democracia apresentam uma situação política muito mais desfavorável para as forças democráticas e populares, indicando que a possibilidade de uma nova etapa no processo político não depende apenas de uma eventual derrota eleitoral de Jair Bolsonaro.

A reedição do neodesenvolvimentismo

Apesar da correlação de forças desfavorável aos trabalhadores, a presença de Lula no processo eleitoral pode alterar o posicionamento das forças sociais em presença e tornar possível uma reedição do pacto neodesenvolvimentista.

O apoio de um amplo contingente de trabalhadores e a competitividade eleitoral que credencia Lula como alternativa real para a presidência da república pode permitir a reorganização de setores da burguesia brasileira eventualmente insatisfeitos com as medidas de abertura do mercado interno promovidas pelo atual governo, ou mesmo com a gestão negacionista da crise sanitária que vem impossibilitando a retomada da atividade econômica.

Embora não existam ainda sinais de rupturas evidentes com o governo e esta possibilidade não esteja colocada de imediato, ainda assim ela não pode ser descartada de antemão.

Os posicionamentos políticos das frações burguesas não são constantes e suas representações políticas organizam, não apenas canalizam os interesses capitalistas como força social. Na sociedade capitalista, onde o Estado se apresenta como representante do “interesse público”, as diferentes classes e frações de classes precisam lutar para fazer seus interesses econômicos serem atendidos pela política estatal.

Mesmo a burguesia depende de uma representação ou organização política, capaz de organizar os seus interesses em um programa para demandá-los ao Estado. De tal modo, a presença de Lula no processo eleitoral pode deslocar a contradição entre o capital nacional e o capital estrangeiro para o centro da disputa política novamente, se houver acordo em torno dos antigos compromissos de priorização da burguesia brasileira ante a concorrência estrangeira no espaço econômico nacional.

A presença de Lula no processo eleitoral pode deslocar a contradição entre o capital nacional e o capital estrangeiro para o centro da disputa política novamente

Esta reedição, no entanto, não pode ocorrer nos mesmos termos de 2002 a 2014, devido às novas condições da crise política com a ameaça de alternativas autoritárias, e ao acúmulo de mudanças institucionais que aprofundaram a blindagem dos instrumentos de política econômica sob o controle do capital financeiro.

No entanto, apesar de as medidas de restrição fiscal, esvaziamento dos bancos públicos, desmonte das proteções sociais e trabalhistas, congelamento de salários e reajustes, privatizações e venda de ativos das empresas estatais, autonomia do Banco Central, etc., terem reduzido as margens para uma repetição do neodesenvolvimentismo nos moldes anteriores, por outro lado elas não inviabilizam a reedição deste pacto sob as novas circunstâncias, uma vez que não afetam a possibilidade de adoção de medidas de proteção e favorecimento do capital nacional, que constituem os pilares da política econômica neodesenvolvimentista.

As mudanças institucionais recentes constituem, de fato, um empecilho para a política industrial e para a ampliação das políticas sociais, mas o Estado brasileiro dispõe de reservas internacionais na ordem de US$ 355 bilhões e o governo ainda detém o controle dos bancos estatais, que possuem carteiras de crédito robustas o suficiente para forçar a concorrência sobre os juros privados e fazer investimento produtivo.

Mesmo que a reedição do neodesenvolvimentismo ocorra provavelmente em moldes ainda mais rebaixados, isso não significa que as margens para esse tipo de política econômica estejam esgotadas. O desenho das instituições estatais, em certa medida, é moldado pelas relações de forças e pelos interesses de classe em disputa, de modo que este pode ser novamente alterado em uma conjuntura mais favorável para a chegada da esquerda ao governo.

O paradoxo do lulismo

A possibilidade de derrotar o neofascismo e construir um governo de esquerda ou centro-esquerda depende de uma significativa alteração da correlação de forças. A divisão no campo burguês é insuficiente para frustrar a ameaça de novos golpes e bancar a revogação das reformas neoliberais, que melhorariam as condições para a realização de medidas redistributivas e investimentos públicos.

Nesse contexto, portanto, não restam alternativas senão a organização popular e as lutas de massas, que são incompatíveis com a estratégia política dominante na esquerda brasileira nas últimas décadas, de institucionalização dos conflitos e desmobilização social. Esta estratégia contribuiu para a dispersão e para a apatia política das classes trabalhadoras no período recente, quando assistiram passivamente ao golpe e à retirada de direitos sem apresentarem uma resistência à altura.

E aqui se apresenta o paradoxo do lulismo.

Se por um lado Lula é a melhor opção, se não a única, para derrotar eleitoralmente Jair Bolsonaro, por outro lado o lulismo se apresenta como um obstáculo para a reorientação política e ideológica necessária para derrotar o neofascismo

Se por um lado Lula é a melhor opção, se não a única, para derrotar eleitoralmente Jair Bolsonaro, por outro lado o lulismo se apresenta como um obstáculo para a reorientação política e ideológica necessária para derrotar o neofascismo.

De acordo com Armando Boito, o lulismo se define pela relação exclusivamente eleitoral e desorganizada da representação política com a sua base social, que aspira a proteção social e econômica do Estado, alimentando ilusões sobre a sua função social.

A relação paternalista da base social com a liderança política, que se manifesta pela gratidão enquanto beneficiários de políticas sociais e não pela identificação consciente em um programa político de ampliação de direitos e reformas estruturais, não educa o enorme contingente de trabalhadores pobres que constituem a base eleitoral do lulismo a se organizarem de maneira autônoma para defenderem os seus interesses políticos. Em outras palavras, o lulismo não gera saldo organizativo e avanço na consciência política dos trabalhadores.

Trata-se, efetivamente, de uma política burguesa dos trabalhadores, mais precisamente uma política da burguesia interna, na medida em que busca integrá-los como classe-apoio em uma frente política dirigida pelo grande capital nacional.

As políticas sociais que vinculam os interesses materiais das classes trabalhadoras ao lulismo, por mais importantes e legítimas que sejam, por si mesmas não são capazes de assegurar as condições ideológicas e organizativas para que estas se organizem em sua defesa e contra o neofascismo.

Apesar de eficaz para um período em que o crescimento econômico, o lulismo tornou-se obsoleto com a crise atual, desarmando a resistência dos trabalhadores com a manutenção de uma estratégia estritamente institucional

Apesar de suficiente e eficaz para um período em que o crescimento econômico amorteceu o conflito de classes e garantiu certa estabilidade política, o lulismo tornou-se obsoleto com a crise atual, desarmando a resistência dos trabalhadores com a manutenção de uma estratégia estritamente institucional.

Desde o golpe, passando pelas caravanas pelo Nordeste, pelo período de sua prisão e mesmo após a sua soltura, em todos estes momentos Lula e o PT apostaram todas as suas fichas na possibilidade eleitoral, sob a expectativa ingênua de que as instituições burguesas fizessem “justiça”, ou de que alguma força ou iniciativa externa ao seu controle derrubasse o governo e contivesse a escalada autoritária, renunciando à tarefa de organizar e politizar sua base social.

Com o fato novo que devolveu a elegibilidade de Lula, o lulismo deve apostar todas as suas forças na repetição da estratégia que “deu certo”, em sua versão mais radicalizada. Na atual conjuntura, não é possível que o lulismo guine à esquerda sem romper com aquilo que o define como fenômeno político e ideológico – a relação exclusivamente eleitoral e desorganizada com as massas trabalhadoras, baseada na ideologia do Estado protetor.

O papel da esquerda socialista

De tal modo, a esquerda socialista, que deverá defender e lutar novamente pelo direito de Lula ser candidato, não poderá alimentar ilusões sobre a possibilidade de “disputar o lulismo”, mas trabalhar para construir uma alternativa autônoma dos trabalhadores, sem cair no isolamento político.

Se não quiser perder a independência política, a esquerda socialista deverá desenvolver uma relação de unidade e luta contra o lulismo: unidade em torno da luta antifascista e antineoliberal, em defesa de sua candidatura; luta ideológica e política contra o eleitoralismo e os limites do neodesenvolvimentismo, em defesa do marxismo-leninismo e de um programa democrático e popular (antiimperialista, antimonopolista e antilatifundiário).

Para isso é fundamental que os movimentos populares e as organizações políticas que no período anterior compreenderam corretamente a natureza dos governos petistas e desenvolveram uma linha de apoio crítico, sem cair na subordinação ao lulismo e sem incorrer no sectarismo, não retrocedam para uma posição adesista que renuncia à disputa de hegemonia sobre as classes trabalhadoras.

A preservação de uma estratégia revolucionária e a clareza das tarefas políticas na atual conjuntura permitem que a esquerda socialista influencie o novo ciclo de lutas que se inaugura a partir de agora.

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