Por Valter Pomar (*)

O resultado das recentes eleições na Argentina e a movimentação golpista da oposição na Bolívia, sem falar no crescimento da extrema-direita pinochetista no Chile e na força do trumpismo nos EUA, confirmam que há momentos da luta de classe em que moderação não gera moderação.

Há situações em que, por razões objetivas e subjetivas, os conflitos escalam mesmo que um dos lados esteja disposto a dar dois passos atrás. O caso clássico é o do acordo de Munique entre Daladier, Chamberlaim, Hitler e Mussolini. Os dirigentes da França e da Inglaterra – para  lembrar das palavras proféticas de Churchil – “entre a desonra e a guerra, escolheram a desonra e terão a guerra”.

Mas não é preciso ir até a Europa de 1938 para buscar exemplos de moderação contraproducente. Os últimos vinte anos estão cheios de exemplos, entre os quais, a nomeação de Joaquim Levy para ministro da Fazenda. O objetivo era deter a movimentação golpista, acelerada desde o final do segundo turno de 2014. Mas a nomeação de Levy teve o efeito oposto: dividiu a esquerda, causou efeito negativos no povo, mandou para a direita um sinal de fraqueza e acentuou a escalada golpista.

Hoje muito gente percebe isso. Mas não era assim naquela época: é bom lembrar que no ano de 2015, cerca de 55% do congresso nacional do PT reunido em Salvador (Bahia) votou contra uma resolução que exigia uma mudança imediata na política econômica. Entre os que votaram contra, havia de tudo: os que concordavam com a política de Levy, os que achavam que havia tempo para corrigir o rumo, os que minimizavam o problema e até os que temiam contrariar a presidenta (argumento bizarro, mas que serviu de “desculpa” para muita gente boa não cumprir um dever básico).

O tempo passou, veio o golpe e hoje muitos padrinhos e cúmplices ativos ou passivos daquela política econômica tiram o seu da reta e criam teorias surreais sobre o golpe de 2016, como se ele tivesse sido um ex abrupto que supostamente poderia ter sido evitado caso a presidenta fosse mais afeita a fazer “DR” com a classe dominante e seus representantes no parlamento.

Quem pensa assim está, como é óbvio, entusiasmado com a receita “lula com chuchu”. Acham que fazer uma aliança assim – ou simplesmente considerar a hipótese, já que a aliança mesmo são outros quinhentos – seria a garantia de vitória eleitoral e o passaporte da governabilidade, não se importando com o “detalhe” de que isto pressuporia um acordo programático entre o PT e a tucanagem (esteja ela dentro ou fora do PSDB).

Acordo parecido foi costurado por Palocci e implementado entre 2003 e 2005. Até hoje há quem considere que aquele teria sido um “preço a pagar”, assim como hoje há quem acredite que uma aliança com a direita gourmet seria o preço a pagar para sairmos do pesadelo bolsonarista.

Infelizmente, tudo isto é wishful thinking, baseado em várias premissas falsas, algumas das quais foram abordadas em um artigo de Jorge Branco, publicado no Brasil de Fato no dia 15 de novembro. O artigo em questão intitula-se “Nixon goes to China” e pode ser lido aqui: https://www.brasildefators.com.br/2021/11/15/nixon-goes-to-china

No artigo se diz que estaria em curso um “relevante deslocamento de setores do grande capital internacionalizado, em busca de uma alternativa política progressista, a fim de travar a caminhada do bolsonarismo”. Jorge Branco ressalva que “o cavalo de pau da grande burguesia internacionalizada tende a não ser acompanhada pela ‘massa de empresários’ ideologicamente aderente ao bolsonarismo”. Mas considera que o movimento existe e estaria por detrás da “transmutação de Alckmin de neoliberal à social-liberal”.

Qual a diferença entre um “neoliberal” e um “social-liberal”? Quais seriam os sinais de que Alckmin antes era um e agora é outro? Alckmin seria um representante do “grande capital internacionalizado” que supostamente estaria em busca de uma “alternativa política progressista”? Bolsonaro e Guedes seriam representantes da “massa de empresários”? Dória e Leite seriam expressões de que setor?

Não sei que respostas Jorge Branco dá para estas e outras questões correlatas. Talvez a resposta esteja em algum outro artigo que eu ainda não tive a oportunidade de ler. Entretanto, sou de opinião que ele está se iludindo. Explico.

O grande capital apoiou o tríplice golpe e lucrou bastante com isto. Sua preocupação atual não é “travar a caminhada do bolsonarismo”. A maior preocupação do grande capital é preservar as conquistas obtidas desde o impeachment. E o que ameaça estas conquistas? A crescente possibilidade de uma vitória de Lula que conduza a uma guinada programática. Como superar esta ameaça? Há três possibilidades: reeleger Bolsonaro, eleger uma “terceira via” e domesticar a esquerda.

Não importa quem ou quantos a apoiem, esta terceira possibilidade não é, portanto, um cavalo de pau programático. Melhor dizendo: não seria um cavalo de pau programático para o grande capital. Para a esquerda, seria!

Isto posto, algumas dúvidas: caso continue até o fim a polarização eleitoral entre Lula e Bolsonaro, o grande capital vai preferir apostar em domesticar a esquerda? Uma esquerda domesticada teria mais chances eleitorais? Caso ganhe, uma esquerda domesticada teria mais governabilidade?

Os que respondem “sim” para as três dúvidas acima raciocinam como se a situação nacional e mundial de 2022-2023 possa vir a ser parecida com a de 2002-2003.

Já os que respondem que não” reconhecem que o cenário de 2022-2023 será muito diferente daquele que existiu há 20 anos, motivo pelo qual o espaço para “caminhos de centro”, acordos e conciliações é hoje ainda menor do que era naquela época. Aliás, mesmo naquela época o “grande capital internacionalizado” e a “massa de empresários” nunca foram com a nossa cara: preferiam os tucanos, que começaram a implementar o neoliberalismo quando Bolsonaro era apenas mais um “viúvo” da ditadura.

É, digamos, “compreensível” que – por medo de um segundo mandato do cavernícola – haja gente de esquerda disposta a cometer uma “desonra” (concessões inaceitáveis ao inimigo neoliberal). É bem menos “compreensível” a tranquilidade com que alguns consideram a hipótese sadomasoquista de um neoTemer na vice. O que não é compreensível é achar que nesse caso a “transmutação” em social-liberal seria de Alckmin.

(*) Valter Pomar é professor e membro do Diretório Nacional do PT

 

 

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