Por Raquel Mirian (*)

“Às vezes as águias descem
e voam entre as aves do quintal
mas as aves do quintal jamais
jamais se elevarão até as nuvens”. (Lênin)

Florestan Fernandes deixou corrente uma dúvida que, ao respondê-la, podemos conduzir a descolonização do nosso próprio partido, que precisa voltar a ser do povo. Embora defender o PT seja afirmar que é o único partido que massifica. Essa lógica vem deixando de ser concreta, e o abstracionismo contagia aqueles que usufruem da legenda partidária e da sua força diante do povo para subir no palanque e externar, na prática, o genocídio da população negra e o sucateio da educação da classe trabalhadora. É bizarro amar um partido e ao mesmo tempo odiar o silêncio que a ala majoritária demonstra diante de uma representação petista em governo, reproduzindo tudo aquilo que o PT não concorda. Ou pelo menos, não deveria consentir.

O fato é, que mesmo sendo um partido com parlamentares, o código de ética partidário se desmancha diante das ações políticas dos nossos representantes. Como unificar uma JPT com militantes que não absorvem a contraditoriedade da dialética partidária? E não recebem aplausos sequer, do presidente Lula que ao sair da prisão agradece a todos e, em especial, à juventude do Levante. Não se defende Rui Costa, não se defende Humberto Costa, não se defende a polarização do Lula se não contiver um projeto socialista no solo histórico da nossa própria construção. A dúvida de Florestan Fernandes se refere a qual a consistência teórica e a firmeza da identidade operária na prática reformista ou revolucionária dissociada do marxismo?

Observa-se que o PT é visto hoje como um partido de centro, por tudo que fez e por tudo que deixou de fazer. Não se vê o Lula batendo na verdadeira classe dominante da burguesia. Bolsonaro, a quem a fala de Lula no 7° congresso se referiu como sendo um dos nossos inimigos, passa a não ser tão verdade assim. Ao regressarmos aos escritos do século XVIII, encontramos Marx no 18 Brumário, discorrendo que a burguesia da classe média não conseguia mais realizar a sua função de expandir o capitalismo, e quando isso acontece, a verdadeira classe dominante coloca alguém para salvar a verdadeira burguesia, mesmo que seja um tolo. Como de início, o que a burguesia fez com o Luís Bonaparte, hoje faz com o Bolsonaro.

A classe que controla o Estado não necessariamente muda o Estado: pode-se tanto ter uma burguesia na liderança do Estado ou uma representação da classe trabalhadora, que o Estado não deixará de ser burguês. Mas sim, é necessário obter o poder desse Estado para depois aboli-lo e não o alimentar, como nosso partido assim faz. A classe dominante que é nossa inimiga colocou um tolo para seu gerenciamento, mas ela mesma sabe quais caminhos seguir com ele ou sem ele, e dessa forma, mas como antítese, é que devemos fazer surgir uma síntese internacionalista e socialista pelas mãos dos trabalhadores e militantes do nosso partido. Pois não podemos ser o proletariado em farrapos que serve como instrumento da burguesia, como foi um dia o lumpemproletariado Francês.

Lula afirmou que uma estratégia do nosso partido deve ser apresentar o máximo de candidaturas executivas para as eleições municipais de 2020, como já houve um dia, depois da política falha do “paz e amor”. O PT cresceu 8 vezes de 1992 a 2004 depois de muito acordo fechado com quem não se deveria apertar as mãos. Será esse nosso projeto político do PT novamente em 2020?

Nunca se deve esquecer que um dia nosso partido se aliou com o PL para obter a presidência, com o PMDB, para obter a presidência, com o PSB para obter a presidência, e hoje mais uma vez tudo se faz para obter a presidência. Somos concretamente um partido eleitoreiro, reformista e conciliador. Nunca batemos na Globo e reorganizamos os meios de comunicação, nunca fizemos reforma agrária para nosso povo e nunca pensamos no sistema falho e racista do sistema penitenciário, muito pelo contrário, nos nossos governos petistas a população encarcerada cresceu mais de 100%. E onde estávamos que não reivindicamos essas bandeiras? Onde estava nosso presidente e nossa presidenta quando essas mazelas se alastraram?

Hoje, defender nosso PT é uma tarefa árdua, necessária e indiscutível, mas até que ponto devemos defendê-lo, e até que ponto devemos responder pelas atrocidades da nossa ala majoritária, que nada se faz para defender os direitos da classe trabalhadora. Enquanto o Camilo Santana agride as nossas manifestações nas ruas, enquanto o Rui Costa despeja a população de seus assentamentos, enquanto nossos representantes petistas votam a favor das reformas estaduais massacrantes para o povo, o nosso presidente que a muito devo agradecer por diversas reformas, estava jogando bola! E a majoritária? Jogando bola!

Não podemos deixar que o Partido dos trabalhadores se torne, se é que já não se tornou, refém do lulismo. Ser petista é acreditar em um projeto de transformação da sociedade com organização e práxis. Nesse conjunto, encaixa-se a tendência petista Articulação de Esquerda e seus militantes e filiados, que possuem a tarefa militante de tornar o nosso partido uma ferramenta de superação do capitalismo e da “conciliação”, com radicalidade e teoria política.

O Partido dos Trabalhadores, assim como a JPT, é interseção de transformação social. Por nós, a população poderá conseguir não só uma emancipação política, como também nossa emancipação humana. Precisamos nos erguer em busca de uma transformação profunda em todos os setores, abarcando os movimentos secundaristas, estudantis, feministas, ecossocialistas, antirracistas, emancipacionistas, internacionalistas e classistas. Precisamos pautar com mais firmeza as pautas das mulheres, a nossa posição diante as distinções das esferas públicas e privadas, a vinculação das estruturas familiares e a justiça social, o sentindo de representação política com o enfoque de uma construção partidária que dê a mesma importância para os militantes como dão para os parlamentares, pois a nossa luta se sobrepõem a presença ou não de parlamentares no Planalto.

“Quando, numa república, o povo como um todo possui o poder soberano, trata-se de uma democracia”. Percebe-se que é necessário o nosso alinhamento com as prerrogativas políticas de nosso partido com foco popular para questionar as práticas institucionais dos nossos parlamentares petistas em comandar todo o processo estatal, em busca de uma democracia representativa. Assim como Marx afirmava que só o povo constitui a classe verdadeiramente revolucionária, e que ela deveria ter alcançado para si um novo instrumento de mudanças, mas foi o Estado que aproveitou das mazelas sociais e se consagrou perpétuo no Poder. Continuamente, a burguesia trucidou do mapa todas as instituições feudais, possibilitou o mercado livre, e a exploração da produção agrária para propiciar um espaço cientificado e condizente no continente europeu. Essa elite política tinha o discernimento dos ataques que estavam motivando e que iriam sofrer as consequências em sua própria civilização, em contraposição, não possuíam o entendimento que sua sentença condenatória seria advinda do seu próprio regime parlamentarista e de sua dominação política.

Logo, devemos agir com muita resistência, formação e militância para que não mais servirmos de escada política para figuras que em nada se enquadram com o Partido dos Trabalhadores. Não devemos ver com bons olhos aqueles que almejam se candidatar e viver da política desenvolvimentista ou liberal, pois estes não se vangloriam de serem petistas. Não podemos abraçar figuras políticas que são petistas, mas que não se politizam verdadeiramente em defesa de sua militância e das pautas necessárias da população, mas que desejam somente prosseguir em sua carreira política. Ao oportunismo das correntes majoritárias que compõem o Partido dos Trabalhadores, lembremo-nos do que disse Rosa Luxemburgo:

“Precisamente porque nós não concedemos nem um centímetro de nossa posição, nós forçamos o governo e os partidos burgueses a nos conceder os poucos sucessos imediatos que podem ser ganhos. Mas se nós começamos a perseguir o que é ‘possível’ de acordo com os princípios do oportunismo, sem nos preocupar com nossos próprios princípios, e por meio de troca como fazem os estadistas, então nós iremos logo nos encontrar na mesma situação que o caçador que não só falhou em matar o veado, mas também perdeu sua arma no processo.”

(*) Raquel Mirian é estudante de Ciências Sociais na Univasf é militante petista e da AE em Petrolina-PE

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