Por Luiz Sérgio Canário (*)

A discussão sobre as eleições de 2022 está posta. E no cenário de hoje está polarizada entre Jair Bolsonaro e Lula. E muito se fala em uma terceira via, algum outro candidato forte, que quebre essa polarização, que não seria boa para o país, nem representaria a realidade da sociedade nesse momento.  Mas até que ponto na nossa história recente as eleições presidenciais não foram tão polarizadas quanto essa? Vejamos os números:

Das eleições pós ditadura, foram 8, em somente uma houve diferença pequena entre o segundo e o terceiro colocados: em 1989, quando Lula chegou em segundo com 4,07% de votos a mais que Brizola, em terceiro lugar. Em 1994, 1998, 2006 e 2018 as diferenças foram muito grandes entre o segundo e o terceiro lugares. Em 2006 Alckmin teve seis vezes mais votos que Heloisa Helena. Em 2018 Haddad teve quase 2,5 vezes mais votos que Ciro Gomes.

Como sempre, números se dão a variadas interpretações. Mas também fotografam com objetividade uma determinada realidade. Ciro Gomes, por exemplo, que se coloca como uma alternativa viável e forte para terceira via nesse momento, se dizendo capaz de romper essa alegada polarização, nunca esteve perto disso eleitoralmente. Na eleição 1998, quando também ficou em terceiro lugar, Lula, em segundo, teve cerca de 3 vezes mais votos que ele. Depois de 1994, a eleição em que terceiro lugar mais se aproximou do segundo foi em 2002, quando Serra teve 30% de votos a mais que Garotinho.

A tabela abaixo joga um pouco mais de luz sobre a polarização em nossas eleições, com exceção da de 1989, que foi atípica nesse sentido.

Em todas as eleições, exceto 1989, os dois primeiros colocados no primeiro turno tiveram mais de 70% dos votos, chegando a 90,24% dos votos na reeleição de Lula em 2006, onde ele termina o primeiro mandato com mais de 80% de aprovação de seu governo.

O passado, citando livremente Zizek, é uma obra em aberto. Cabem muitas análises sobre ele. Muito se pode discutir sobre as razões desses números e suas consequências. Mas os números das eleições passadas indicam que a polarização, mais ou menos intensa, é uma característica das eleições brasileiras desde 1994. E um dos polos é o PT. E até 2014 o outro polo foi o PSDB. Somente em 2018 Bolsonaro se coloca como o outro polo da disputa em relação ao PT e vence as eleições.

Um dado interessante é que em todas as eleições em que houve segundo turno o primeiro colocado no primeiro venceu as eleições.

Até 2018 a polarização do PT com a direita gourmet, que adora se dizer centro, e neoliberal, representada pelo PSDB, não era nenhum problema. Até então o jogo estava dentro dos parâmetros aceitáveis pela burguesia. A vitória do PT, a quarta consecutiva, em 2014, apontou a dificuldade de se vencer o polo do campo popular, representado pelo PT, em eleições limpas. Vem o golpe, que mela o jogo, e a operação lavajato, que na determinação de acabar com Lula e o PT, levam junto todo sistema político brasileiro, condenando a política e muitos dos seus operadores. Os estragos somente seriam percebidos em 2018.

A polarização era tão aceita e tão pouco incômoda, que nas eleições de 2010 a coligação liderada pelo PT tinha 16 partidos e a liderada pelo PSDB 6 partidos, totalizando 22 partidos, cerca de 80% dos partidos brasileiros. Em 2014 9 partidos estavam com o PT e 10 com o PSDB, total de 19 partidos. Isso sempre no primeiro turno, mostrando a falência do sistema partidário. A grande maioria dos partidos prefere se coligar como um dos polos a lançarem candidatos e correrem os riscos de perderem espaço na formação dos governos, em caso de haver segundo turno. Em 1989 22 candidatos disputaram as eleições. Em 2010 apenas 9, sendo que em 2010 havia muito mais partidos que em 1989.

O cenário nas eleições de 2018 é diferente. Concorrem 13 candidatos, representando 13 coligações partidárias. Mas, diferentemente das eleições anteriores, o PT se coliga apenas com o PCdoB e o PROS, como evidente resultado da perseguição enfrentada pelo partido desde as eleições de 2014. O PSDB, representante da direita neoliberal, reúne a maior coligação com 9 partidos: PSDB, PP, PTB, PSD, PRB, PR, DEM, SD e PPS. A nata da direita gourmet, com Centrão e tudo. Jair Bolsonaro concorre pelo PSL, coligado com o minúsculo PRTB. A polarização se mantém. Mas tem no seu polo esquerdo o PT acompanhado de dois partidos pequenos, numa configuração com características mais à esquerda, e tem no seu polo direito dois partidos minúsculos e sem expressão, com características de extrema-direita. A polarização se acentua politicamente, com os dois polos se distanciando. A direita neoliberal é esmagada na eleição com sua poderosa coligação ficando em um distante quarto lugar, com quase um terço dos votos do terceiro, o Coronel Ciro.

Anos de pesadas perseguições a Lula e ao PT, inclusive com o impedimento de Lula participar da eleição em 2018, não conseguiram nem destruir o PT, nem reverter a polarização nas eleições com o PT em um dos polos. Em 2018 resultou na destruição da direita neoliberal eleitoralmente e na tomada do polo oposto ao PT pela extrema-direita e o bolsonarismo. Todas as tentativas de construção de uma terceira via que atenuasse a polarização não foram bem-sucedidas. Se o passado está em aberto, o futuro está definido, mais uma vez citando livremente Zizek.

Mas que futuro é esse? Em 2022 teremos uma eleição polarizada com o PT em dos polos, como sempre foi, e Bolsonaro no polo oposto. As chances de uma terceira via se constituir são, como sempre, improváveis. E se houver segundo turno será entre Lula e Bolsonaro e quem sair com mais votos do primeiro turno deve vencer as eleições, como tem sido desde 1989.

A nós do PT, liderando o polo de esquerda, cabe fazer o que sempre fizemos: campanha nas ruas! Mobilizar as pessoas não somente para ganhar uma eleição. Mas para mudar esse país em uma das mais importantes eleições que já tivemos. O Brasil não suporta outro mandato de Bolsonaro ou de qualquer um que encaminhe a mesma política neoliberal de consenso em toda a burguesia. Não é só derrotar Bozo. É derrotar um projeto que está destruindo o país e matando a população. Somente com a política de extermínio com que pandemia foi conduzida mais de 500.000 pessoas morreram, em um verdadeiro genocídio. O PT tem a responsabilidade histórica de mobilizar o povo para votar não somente em um presidente, mas sobretudo em uma mudança radical nas políticas públicas e nos objetivos do governo. Construir um governo que melhore a vida do povo e avance na conquista do poder de fato, não somente do governo. Que se rompam com as estruturas de dominação que nos aprisionam há séculos. Não só colocar o povo no orçamento, mas colocar o povo no controle da construção e na aplicação do orçamento.

Ainda temos um bom caminho até 2022. E precisamos aproveitar esse tempo para organizar a classe trabalhadora e o povo para defender seus direitos e construir uma campanha eleitoral de lutas e que entre para a história como um marco no duro e longo caminho da conquista do poder por quem tem direito de exercê-lo. E liderado pelo partido construído pela classe trabalhadora como seu principal instrumento de luta política e de construção do socialismo.

Fora Bolsonaro! Todos os que puderem nas ruas nas manifestações!

(*) Luiz Sérgio Canário é militante petista em São Paulo-SP


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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