Por Valter Pomar (*)

Ontem o Ibope divulgou nova rodada de pesquisas.

No caso da cidade de São Paulo, comparando a pesquisa de 9 de novembro com a de 30 de outubro, teria ocorrido o seguinte:

1/a candidatura de Covas teria subido muito e lideraria isolado;

2/o segundo lugar estaria sendo disputado por Boulos, Russomano e França;

3/depois viria um terceiro pelotão, onde estariam Tatto e Mamãe Falei;

4/em seguida viriam as demais candidaturas.

Não cito os números, porque a pesquisa tem uma margem de erro de 3 pontos percentuais, o que torna possível qualquer malabarismo. Por exemplo: Tatto poderia ter de 3% a 9%, Boulos poderia ter de 16% a 10%.

Assim, números deixados de lado, e supondo que a pesquisa não esteja manipulada, nem contenha nenhuma falha metodológica mortal, o que podemos dizer?

1/que é provável que haja segundo turno;

2/que é muito provável que a candidatura Covas, apoiada por Doria e por Marta, esteja no segundo turno;

3/que não está decidido quem mais estará no segundo turno, disputando contra Covas;

4/que provavelmente Russomano não estará no segundo turno: aliás, em todas as partes, as candidaturas apoiadas por Bolsonaro passam por dificuldades;

5/que, a depender do que ocorra nos próximos dias, há margem estatística em alguns casos e política noutros casos para que vários postulantes consigam estar no segundo turno: Boulos, França, Tatto, Mamãe Falei e inclusive Russomano.

Entretanto, a maneira como o Ibope divulgou seus números e a maneira como as pessoas se habituaram a ler as pesquisas, induz muita gente a achar que Boulos seria o melhor posicionado para estar no segundo turno, pois supostamente estaria em segundo lugar.

Motivo pelo qual alguns de seus apoiadores tem se dedicado, diuturnamente, a conquistar votos de petistas. Acham que, fazendo isto, Boulos teria grande chance de estar no segundo turno.

Veremos, em poucos dias, se este tipo de movimentação terá efeitos eleitorais e quais efeitos eleitorais terá. Mas há fortes sinais de que os defensores do voto útil possam terminar como aquele famoso aprendiz de feiticeiro.

No Rio de Janeiro, por exemplo, a campanha pelo “voto útil” também está em marcha, mas nesse caso para tentar beneficiar a candidatura do PDT. O que, certamente, não era o resultado esperado por alguns que defendiam o voto útil com o argumento de “trocar o Rio por São Paulo”.

Já em São Paulo, os defensores do “voto útil” deveriam ficar espertos para uma informação que consta da mesmíssima pesquisa em que se baseiam, a saber: Boulos estaria congelado, sem cair, nem subir. Some-se isto com a presença de Márcio França, candidato do PDT de Ciro Gomes e do PSB de São Paulo (ou seja, dos tucanos anti-Dória); e a conclusão é de que defender o “voto útil” pode ser meio caminho andado para o voto mais inútil da história de muita gente.

Isto posto, e a bem da verdade, não é a primeira vez que o PT sofre este tipo de pressão.

Foi assim no início de nossa trajetória, quando, em nome de derrotar a direita, se pedia ao PT que abrisse mão de lançar candidaturas. Ou que as retirasse, em favor de candidaturas supostamente melhor posicionadas.

O impressionante, portanto, não é que haja campanha pelo voto útil. Nem é impressionante a crença nas pesquisas, a certeza com que algumas pessoas fazem cálculos de viabilidade e apostas neste ou naquele tipo de segundo turno, ou as certezas absolutas sobre o que vai ocorrer em 2022, à luz do resultado X ou Y em 2020.

O que impressiona é a vista curta com que alguns petistas tratam o assunto. É impressionante, mas não é surpreendente: de um lado, há setores que estão fazendo luta interna, na hora e do jeito errado; de outro lado, há setores que transformaram as disputas eleitorais no alfa e ômega da sua atividade política.

Convenhamos, não é nem um pouco misterioso o que está em jogo. Afinal, quando vários defensores do “voto útil” falam que é preciso deixar de lado os interesses partidários, eles estão expondo honestamente o núcleo do problema. Pois olhando a história dos últimos 40 anos, nada foi mais importante para a luta do povo brasileiro, nada foi mais importante para as liberdades democráticas, do que a construção de uma esquerda de massas, nucleada pelo PT.

O fato é que a pressão brutal para que o PT “desista” de sua candidatura em São Paulo visa objetivos muito mais estratégicos. Afinal, um partido de esquerda que, no auge da batalha, desiste da luta por temor da derrota, muito dificilmente voltará a levantar a cabeça.

Por isso, para além de muitos outros argumentos que já foram expostos noutros textos, fazer campanha, defender a candidatura e votar em Tatto prefeito de São Paulo tem um significado que transcende a eleição de 2020 e o município de São Paulo.

(*) Valter Pomar é professor e membro do Diretório Nacional do PT


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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