Por Wladimir Pomar (*)

Se elaborarmos uma lista de perguntas sobre a realidade nacional, a ser respondida pela militância de esquerda, aqui incluídos os dirigentes partidários, o mais provável é que tenhamos como resultado um leque bastante amplo de respostas e pequenos e grandes consensos.

De qualquer modo, tais perguntas poderiam servir de acicate para estudos e debates em profundidade, que permitissem uma visão de conjunto mais apropriada sobre a realidade brasileira, algo essencial para a elaboração e a execução mais ajustada de políticas que visem tirar o Brasil da crise em que afundou, em particular desde 2013.

Desde então surgiu uma série de novas perguntas que, partindo do geral para o particular, deveria pressionar o dia a dia de qualquer militante político interessado em, pelo menos, fazer com que o Brasil seja um país independente e economicamente próspero, com uma população em constante elevação de seu padrão de vida, tanto econômica quanto social e culturalmente, com amplas liberdades democráticas.

Para começar, é possível alcançar tal objetivo ignorando as atuais crises capitalistas e seu desenvolvimento, no mundo? Como explicar o que está acontecendo nos Estados Unidos, que está perdendo sua condição de potência capitalista mais desenvolvida? Ou entender o que está ocorrendo na União Europeia, com a saída da Grã-Bretanha do bloco? É verdade que tudo isso está relacionado ao avanço econômico chinês, ou trata-se de um conjunto de problemas relacionados principalmente com o próprio desenvolvimento capitalista?

Em outras palavras, o que realmente está acontecendo no mundo? As disputas econômicas e políticas, assim como a especulação financeira, têm alguma influência no deslocamento de empresas estrangeiras de países onde haviam investido, pelo menos desde os anos 1950 a 1970, para outros países que se aproveitaram melhor dos avanços científicos e tecnológicos, não só para a produção de insumos, mas também para fazer frente às demandas ecológicas mundiais?

Quanto ao Brasil, seu capitalismo está ou não em crise? O que pode explicar a crescente desindustrialização, com a contínua transferência de empresas industriais para outros países e regiões fora do Brasil, a exemplo do recente comunicado de transferência da Mercedes e da Ford, e a esdrúxula propaganda do agronegócio apresentar-se como a “verdadeira indústria” do Brasil? Ou seja, que problemas estão presentes na economia brasileira, capazes até mesmo de atrapalhar as tentativas bolsonaristas de privatizar as empresas estatais, ofertadas a preços de banana, nos mercados nacional e internacional?

Que propostas existem, além das neoliberais, estas talvez empacadas não só pelos efeitos da pandemia e pela incompetência bolsonarista, mas também pelas próprias contradições do capital, para dar um rumo à crise do capitalismo brasileiro, que só tem apresentado um curso de piora constante?

Quais as contradições, análises e propostas proveniente das diversas frações existentes na classe burguesa dominante (financeira, industrial, agrícola e comercial), que as levaram à aventura de patrocinar a eleição de um desajustado à presidência da república e, agora, diante da ignorância do “bolsonarismo raiz”, faz com que algumas delas façam oposição a ele como se não tivessem qualquer responsabilidade com sua eleição?

Por outro lado, como a esquerda deve se comportar diante de tais contradições, análises e propostas dos diferentes setores da burguesia dominante, politicamente divididos e alcunhados de “extrema direita”, “direita tradicional”, “direita centrista”, ou algo idêntico, dependendo do analista. Deve aliar-se às direitas não extremistas para concentrar o fogo na pior, ou incentivar a luta e as contradições entre elas sem aliar-se a qualquer delas? Ou combinar as duas ações, e em que medida?

Outra questão presente na situação brasileira diz respeito à análise e às propostas referentes aos chamados setores sociais médios, também alcunhados de pequena burguesia ou classe média, que representam uma porcentagem importante da população. Essa camada, ou classe social, por sua condição dúplice (possibilidade de apenas vender sua força de trabalho como assalariado, ou transformar-se em pequeno proprietário capitalista), tem desempenhado papel político importante não só no Brasil, mas também em todas as sociedades existentes no mundo, seja para um lado ou para o outro. Portanto, questões referentes ao trabalho com tais setores (sua situação e problemas de vida e trabalho, aspirações, tendências principais etc) precisam ser pesquisadas e respondidas.

O mesmo se coloca quanto aos diferentes setores da classe trabalhadora, urbana e rural, e suas demandas econômicas, culturais, sociais e políticas. Constituindo a mais extensa classe social existente no país, embora com divisões profundas entre os que conseguem vender sua força de trabalho e os que desistiram de tentar tal venda, ela enfrenta problemas que vão desde a sobrevivência física até os baixos salários, passando pela possibilidade de vários de seus membros serem transformados em trabalhadores escravos.

Para complicar, as classes e seus segmentos estão sempre em ebulição à medida que diversos deles, pressionados pelas exigências econômicas e políticas da sociedade, se organizam e elaboram diferentes propostas, não só para solucionar seus problemas econômicos e sociais, incluindo tanto a organização social e política, quanto a cultural, a religiosa e também, em várias situações, a criminal, a exemplo das milicias armadas de vários conglomerados urbanos.

Quem quer que pretenda ter uma ação positiva diante de todos esses problemas e questões tem que estudá-los em profundidade. A ausência de tal estudo, ou pesquisa da realidade, talvez seja a origem da crise profunda que algumas organizações populares, culturais, sociais e políticas parecem estar vivendo.

Para superar tal situação, a análise da realidade e o debate amplo e profundo sobre seus resultados são, certamente, os caminhos para estabelecer uma estratégia adequada para enfrentar com sucesso os desafios com os quais se defrontam. São essa análise e debate que vão definir que caminho será necessário seguir para evitar o retrocesso econômico, social, cultural e político em curso no Brasil e para abrir um novo caminho de desenvolvimento a seu povo.

  (*) Wladimir Pomar é escritor e jornalista


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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