Valter Pomar

No dia 17 de março, Carlos Ominani proferiu palestra no Instituto Novos Paradigmas (INP), que tem Tarso Genro como presidente de seu conselho deliberativo.

Carlos Ominami foi senador do Chine, milita na esquerda desde os tempos do governo Salvador Allende, conhece bastante o Brasil e o PT.

Sua palestra foi sobre “Quem somos: a esquerda, a social democracia reinventada e o progressismo ?”

A palestra de Ominami foi resumida por Sandra Bittencourt, num texto publicado por Sul21 que pode ser acessado aqui:

https://www.sul21.com.br/ultimas-noticias/politica/2018/03/carlos-ominami-nao-vamos-construir-o-socialismo-em-um-horizonte-previsivel/

O editor de Sul21 destacou no título a seguinte frase, atribuída a Ominami: “Não vamos construir o socialismo em um horizonte previsível”.

Já Sandra Bittencourt começa seu artigo com a frase: “Estamos obrigados a uma reflexão estratégica”.

A questão é: que tipo de reflexão estratégica pode resultar de um raciocínio que concede ao inimigo todo o horizonte previsível?

Sempre segundo Sandra Bittencourt, Ominami disse o seguinte: “Pode ser que o que eu fale agora soe muito forte, mas não vamos construir o socialismo em um horizonte previsível. Sendo assim precisamos enfrentar três questões estruturantes: a democracia como sistema político, a economia de mercado e a globalização. Nesse espaço se deve desenvolver uma ação transformadora de esquerda”.

Noutras palavras: a “ação transformadora da esquerda” deve “enfrentar” os temas da “democracia”, da “economia de mercado” e da “globalização”, mas como por definição a construção do socialismo está afastada do “horizonte previsível”, então na prática nossa ação visa “transformar” as condições sobre as quais vivemos, mas sem sair do “espaço” do capitalismo.

Até aí, nada de novo. O curioso é que esta “reflexão estratégica” não leva em conta as derrotas que sofremos na América Latina, nos últimos anos.

Derrotas que em parte estão ligadas, justamente, a esta maneira de pensar, que nos limita de antemão, por uma definição apriorística, a considerar que construir o socialismo está fora do horizonte previsível.

Segundo Sandra Bittencourt, depois de relacionar várias das derrotas que a esquerda latino-americana vem sofrendo desde 2010, Ominami disse que “não éramos a revolução, mas éramos a nova esquerda fazendo coisas importantes. Vivemos a melhor década da América Latina. Democracia, crescimento, inflação controlada e diminuição da pobreza, isso tudo no continente das grandes ditaduras, da pobreza, da desigualdade”.

Pois é: “éramos”, segundo Ominami, aquilo que ele defende que continuemos a ser. Não vejo nisto reflexão estratégia alguma, mas sim a reiteração de uma determinada aposta.

Aposta que teve origem, segundo relato de Sandra Bittencourt acerca do que Ominami afirmou na palestra, na crença de que poderia ter ocorrido, nos anos 1970, uma globalização socialdemocrata, com uma ideia de governança mundial, que pudesse gerar transferências massivas de recursos de países ricos a pobres, enfim, uma nova ordem econômica. Mas “se impôs uma globalização baseada no capital”.

E como poderia ser diferente? Afinal, o chamado estado de bem-estar social defendido como modelo pela socialdemocracia europeia só foi possível graças a uma combinação entre pressão “de dentro” (a força da classe trabalhadora europeia vis a vis seus contendores), pressão “de fora” (a chamada ameaça comunista, que também tinha seus reflexos internos a cada país), investimentos dos EUA e – condição sine qua non– a existência de um mundo a explorar.

A medida que estas variáveis foram se alterando, o estado de bem estar foi se enfraquecendo e hoje, na própria Europa, está sob liquidação. Mostrando que a relação entre capitalismo, bem estar e democracia não é aquela que a social-democracia pensava ser.

Acreditar que o “estado de bem estar” poderia ser implantado nos países do capitalismo periférico sempre foi uma imensa ilusão. Aqui, para ter um “estado de bem estar socialdemocrata”, será preciso uma revolução socialista bem radical.

Revolução que Ominami considera, segundo Sandra Bittencourt, algo “fora da agenda”.

O socialismo está fora do horizonte previsível, a revolução está fora da agenda, a “nova esquerda” latino-americana está sendo derrotada, a “socialdemocracia não foi capaz de se impor à globalização”, a China “é basicamente um capitalismo de Estado, muito dinâmico, muito autoritário e muito desigual”…

Qual a alternativa?

Segundo relato de Sandra Bittencourt, Ominami teria dito: “Saber quem somos, a esquerda, o progressismo, não é uma questão puramente semântica. Precisamos saber de que lugar, de que modo, vamos vencer o desafio das desigualdades, que faz parte do DNA da esquerda. Mas junto ao desafio da desigualdade há outras questões igualmente urgentes e importantes. A democracia é uma delas. A cultura da esquerda na questão democrática é complexa. Temos o desafio ecológico, há um desafio ambiental, de sustentabilidade, que precisa ser enfrentado. Temos ainda o desafio de gênero, porque ainda há uma esquerda com tendências machistas. E temos uma esquerda muito vinculada à cultura estatal, pouco aberta à inovação”.

Neste nível de generalidade, nada contra nada. Podemos querer ser radicalmente democráticos; laicos; solidários socialmente; vinculados à sociedade; verdes; feministas; abertos ao mundo, inovadores e transparentes.

[Não entendo, entretanto, por qual motivo deveríamos ser meritocráticos.]

Mas, principalmente, não entendo por qual motivo, neste mundo em que vivemos, não devemos ser, antes de mais nada, socialistas e revolucionários.

Pois a conclusão que Ominami tira, sempre segundo SB, é defender o “progressismo”, não como “uma esquerda light, mas que recupera espaço. Precisamos definir se estaremos na vanguarda ou na retaguarda, em que posição vamos enfrentar as coisas”.

Façam as contas: se o socialismo está fora do horizonte previsível, se a revolução está fora da agenda, o tal “progressismo” estaria na “vanguarda” do que mesmo?

Ou, dito de outro jeito: como é que o socialismo vai entrar no horizonte visível e previsível, se não houver quem lute por ele?

Segue o texto comentado:

https://www.sul21.com.br/ultimas-noticias/politica/2018/03/carlos-ominami-nao-vamos-construir-o-socialismo-em-um-horizonte-previsivel/

 Carlos Ominami: “Não vamos construir o socialismo em um horizonte previsível”

Publicado em: Março 17, 2018

Carlos Ominami participou de um debate sobre a identidade da esquerda, promovido pelo Instituto Novos Paradigmas. (Foto: Sandra Bitencourt/Divulgação).

Sandra Bitencourt (*)

“Estamos obrigados a uma reflexão estratégica”, resumiu Carlos Ominami durante a palestra “Quem somos: a esquerda, a social democracia reinventada e o progressismo ?”, promovida neste sábado (17), em Porto Alegre, pelo Instituto Novos Paradigmas (INP). Doutor em Economia, ex-ministro da Economia do Chile, senador por dois mandatos e histórico militante pela “concertação” no seu país, Ominami foi anunciado formalmente pelo Presidente do Conselho Deliberativo do INP, ex-governador Tarso Genro, como o mais novo integrante do Conselho do Instituto. Ominami debateu com uma plateia formada por intelectuais, autoridades, parlamentares, professores e estudantes.

Para o político chileno, estamos vivendo tempos muito difíceis e, particularmente no Brasil, foi onde provavelmente ocorreu o fato mais grave das últimas décadas na América Latina. Ele referiu um acúmulo de más notícias para a esquerda, a partir de 2010, com a direita voltando ao poder no Chile pela primeira vez depois de 20 anos de concertação, a destituição de Lugo (ex-presidente paraguaio Fernando Lugo deposto em 2012), o triunfo imprevisível de Macri na Argentina em 2015, a derrota de Evo Morales no referendo em 2016, o golpe contra Dilma, a crise política na Venezuela e o processo de decomposição da revolução cidadã no Equador. “Não éramos a revolução, mas éramos a nova esquerda fazendo coisas importantes. Vivemos a melhor década da América Latina. Democracia, crescimento, inflação controlada e diminuição da pobreza, isso tudo no continente das grandes ditaduras, da pobreza, da desigualdade”, recordou. E advertiu:

“É bom ter os pés na terra para saber onde estamos pisando. Dois pequenos países resistem e fazem um contraponto hoje, Uruguai e Portugal, mas são países pequenos, são a exceção que confirma a regra”. Por isso, a obrigação de fazer uma reflexão estratégica. “Pode ser que o que eu fale agora soe muito forte, mas não vamos construir o socialismo em um horizonte previsível. Sendo assim precisamos enfrentar três questões estruturantes: a democracia como sistema político, a economia de mercado e a globalização. Nesse espaço se deve desenvolver uma ação transformadora de esquerda”, defendeu.

Ominami assinalou ainda que, nos anos 70, houve a possibilidade de uma globalização socialdemocrata, com uma ideia de governança mundial, que pudesse gerar transferências massivas de recursos de países ricos a pobres, enfim, uma nova ordem econômica. “Mas se impôs uma globalização baseada no capital, o que restringe a autonomia, a possibilidade de manobra dos países nacionais. A expressão mais direta disso são as agências de classificação de risco, que ameaçam e interferem qualquer tentativa de política fiscal. São instrumentos da globalização neoliberal para frear os progressos dos países sobre níveis de pobreza e igualdade”, apontou.

Para o economista, a interrogação que devemos fazer já que a revolução está fora da agenda é se são possíveis reformas econômicas profundas em só um país. Ominami vê a Europa também em dificuldades, com integração monetária sem integração fiscal e com redução do espaço social integral.

“Se perdeu a ocasião de ter um ponto de referência importante no mundo. O grande drama é que a socialdemocracia não foi capaz de se impor à globalização. Embora seja de direita, o novo presidente francês tem uma tentativa de propor algo para a Europa, recompondo o motor franco-alemão. Mas hoje, de realmente distinto no mundo temos a China. Daqui a 10 anos, é provável que seja a grande potência. Entretanto, o que se tem lá é basicamente um capitalismo de Estado, muito dinâmico, muito autoritário e muito desigual. Há, portanto, a necessidade de gerar uma força política capaz de fazer surgir novos processos”, reflete. Para Ominami, os processos políticos da esquerda não podem mais ser construídos sob a liderança de um único líder, algo que tem ocorrido em todos os países e invariavelmente acaba mal. “Outro fator é ser intransigente com as práticas políticas ruins. Não dá para contemporizar, ser tolerante com sistemas podres. Se paga muito caro por isso. Já no campo econômico, é necessário urgentemente libertar-se da dependência da produção primária”, defendeu.

Finalmente, Ominami elencou interrogações que possam ampliar a sugestão do tema da palestra, ou seja, compreender qual a identidade da esquerda. “Saber quem somos, a esquerda, o progressismo, não é uma questão puramente semântica. Precisamos saber de que lugar, de que modo, vamos vencer o desafio das desigualdades, que faz parte do DNA da esquerda. Mas junto ao desafio da desigualdade há outras questões igualmente urgentes e importantes. A democracia é uma delas. A cultura da esquerda na questão democrática é complexa. Temos o desafio ecológico, há um desafio ambiental, de sustentabilidade, que precisa ser enfrentado. Temos ainda o desafio de gênero, porque ainda há uma esquerda com tendências machistas. E temos uma esquerda muito vinculada à cultura estatal, pouco aberta à inovação”, opinou.

Ominami tende a pensar que, apesar de ser ambíguo, o progressismo é um terreno favorável para responder a todos esses desafios. “A ideia que defendo é a de um progressismo não como uma esquerda light, mas que recupera espaço. Precisamos definir se estaremos na vanguarda ou na retaguarda, em que posição vamos enfrentar as coisas”. Sobre o processo de alianças, Ominami lembrou que, na tradição da esquerda, a principal aliança social se dá com a classe trabalhadora, historicamente na superação do capitalismo. Contudo, há uma problemática antiga das relações da esquerda com os setores médios que precisa ser analisada. “Por que não somos capazes de sintonizar com essas camadas médias?”, questionou: como esses novos processos políticos devem se organizar? As forças partidárias que são originárias do século XIX vão sobreviver e serão a forma de organização no século XXI?

Ominami propôs uma espécie de decálogo para pensar essa nova identidade da esquerda no século XXI: 1) radicalmente democrática; 2)laica; 3) solidária socialmente; 4) vinculada à sociedade; 5) verde; 6) feminista; 7) meritocrática; 8) aberta ao mundo; 9) inovadora e 10) transparente.

O INP é uma instituição social, sem fins lucrativos, que busca contribuir com o aperfeiçoamento das instituições democráticas brasileiras através da abertura e promoção de espaços públicos de reflexão e debates e do incentivo à produção intelectual de sua rede de colaboradores (www.novosparadigmas.org).

(*) Diretora de Comunicação do INP.

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