Por Varlindo Nascimento (*)

A edição do Oscar de 2020, prêmio concedido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos, concedeu pela primeira vez em 92 edições sua premiação máxima a um filme não falado em língua inglesa. O sul-coreano “Parasita” foi a grande surpresa da noite com o maior número de estatuetas conquistadas. Além da de melhor filme, a película levou as premiações de melhor roteiro original, melhor filme estrangeiro e melhor diretor, concedido ao cineasta Bong Joon Ho.

Para nosso campo político o grande mérito de Parasita foi expor uma realidade sobre a vida dos sul-coreanos que nos é cotidianamente invisibilizada, tendo em vista que a dicotomia entre os regimes das duas Coreias provoca a necessidade de que o modelo capitalista do sul seja sempre representado como exemplo de toda a virtude, liberdade e desenvolvimento que só este modelo econômico poderia promover, enquanto no norte prevaleceriam o autoritarismo, o baixo desenvolvimento social e econômico, além da supressão das liberdades individuais.

ALERTA: A partir deste trecho, o texto contém spoilers ou revelações do enredo da obra (Nota do Editor)

A obra retrata a vida de uma família de quatro pessoas, todas desempregadas e morando numa casa minúscula abaixo do nível da rua, numa localidade de estrutura extremamente precária, como numa típica favela brasileira. Seus integrantes sobrevivem dia após dia realizando atividades intermitentes, como montar um lote de caixas de entrega de pizza para um restaurante, por exemplo.

A história dos quatro começa a mudar quando o filho, um jovem que não conseguiu cursar a universidade por motivos econômicos, recebe o convite de um amigo bem-sucedido para assumir as aulas particulares de inglês que ele dá a uma adolescente de família rica num bairro nobre da cidade. Mesmo não tendo diploma o rapaz é incentivado pelo amigo a simular uma situação e assumir as aulas enquanto viaja ao exterior. A partir de então o rapaz começa a dar aulas à garota, com quem se envolve. Logo depois sua irmã também passa a ser “professora de artes” do filho mais novo do casal rico, o pai motorista e a mãe governanta. Todos eles se fazendo passar por pessoas que não têm relação entre si, alcançando o acesso à família rica através de uma rede bastante elaborada de mentiras e situações simuladas, como no caso da demissão da antiga governanta acusada de ter contraído tuberculose, o que poria em risco a saúde e a segurança da família, se valendo da neurose dona da casa, uma pessoa tipicamente fútil e alienada.

Até esse momento o filme tem um ar cômico e leve, apesar da crítica social já estar embutida na disparidade social expressa no antagonismo entre a realidade das duas famílias. Porém, depois de uma viagem dos patrões num final de semana os empregados resolvem se aproveitar de todo o luxo e conforto que eles não têm, literalmente ocupando a casa onde trabalham e contando com a ausência dos proprietários durante todo o final de semana. A “visita” da antiga governanta e uma tempestade que cai durante todo o dia mudam completamente o fluxo do filme e toda a comicidade presente até aquele momento é transformada num grande drama que aprofunda ainda mais as consequências tirânicas de um modelo de sociedade que permite tudo a uns poucos e nega a mínima dignidade à grande maioria. A visão que a família pobre tem dos ricos vai se modificando à medida que as situações vão ocorrendo, se tornando cada vez mais crítica até o ponto de chegar ao colapso total da relação.

Sem adotar um discurso político direto, Parasita coloca sobre a mesa realidades inconvenientes sobre a forma como pessoas da parte de cima da pirâmide social enxergam a vida das pessoas de baixo, muitas vezes apenas como um complemento necessário à manutenção do seu conforto e de seus privilégios, e o quanto os da parte de baixo da pirâmide podem permanecer absortos pela expectativa de ocupar o lugar dos de cima, sem se questionar sobre se realmente haveria a necessidade da existência desse nível de desigualdade da qual são vítimas.

(*)  Varlindo Nascimento é militante petista em Recife, bacharel em Geografia, pós-graduado em Sindicalismo e Trabalho, graduando em História e mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas.

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