Página 13 divulga texto do companheiro Gabriel Cavalcante, militante do Partido dos Trabalhadores e da tendência Articulação de Esquerda na Bahia.

 

A lógica que Rui não consegue compreender: equívocos táticos e estratégicos do governador da Bahia

 

A entrevista dada pelo governador da Bahia, Rui Costa, ao Brasil 247, no último dia 28 de maio, é um perfeito exemplo de quando um quadro político está desconectado da conjuntura que o rodeia. Entre críticas ao governo Bolsonaro e sustentações conservadores de medidas controversas do seu governo, Rui se perde em pelo menos quatro questões centrais: 1) A leitura a respeito do governo Bolsonaro; 2) A tática e a estratégia; 3) O papel que cumpre a institucionalidade na disputa da realidade concreta; 4) O papel que deve cumprir um quadro político de massas no enfrentamento ao avanço fascista.

 

No que se refere à leitura realizada a respeito do governo Bolsonaro o discurso emulado por ele apresenta um itinerário que não estabelece qualquer aprofundamento no sentido de determinar a razão interna do governo Bolsonaro. A questão é que a caracterização de um governo de extrema direita que não oferece possibilidade de diálogo e que estimula um discurso de ódio contra seus opositores está alicerçado numa perspectiva de cancelamento da possibilidade de diálogo a partir de sua base social. Ou seja: para existir um governo Bolsonaro que se nega à dialogar, com sustentação no mundo real e concreto, é necessário um conjunto de forças políticas e sociais que dêem condições à existência desse governo. Não é um processo que se dá do céu à terra, mas sim ao inverso: não é somente a vontade do governo Bolsonaro de ser truculento que que estimula uma atmosfera de ódio, mas uma atmosfera de ódio que abre a oportunidade política para que Bolsonaro se comporte da forma como se comporta no governo.

 

Nesse sentido é necessário apreender que a razão interna para uma radicalização maior à direita na sociedade tem local não na vontade subjetiva de Bolsonaro, mas sim na disputa pelo excedente entre capital e trabalho em momento de crise econômica. Havendo, portanto, diminuição global do volume de valor disponível o capital busca recompor a extração de excedente através de uma maior exploração do trabalho. Essa é, então, a violência que ocorre na base da sociedade e que abre espaço para um modo de produção social que tem por expressão um governo também violento e não afeito ao diálogo.

Em relação à tática, ao oferecer diante de um governo Bolsonaro cada vez mais radicalizado uma possibilidade de diálogo, erra também o governador, o que não poderia ser de outra forma já que para uma leitura equivocada da realidade corresponde naturalmente também uma postura tática equivocada. O equivoco encontra-se em razão, primeiramente, do cenário absurdo em que se oferece diálogo a um inimigo que quer guerra. Essa postura inclusive, dialogar com quem quer a sua eliminação, tem um potencial um tanto quanto invariável de levar à aniquilação de quem oferece o diálogo. Porém, principalmente, encontra-se também o equivoco quando apreende-se que, não só não será a predisposição ao diálogo da esquerda que concretizará o fim da polarização, como também, cada vez mais, a base social na população que corresponda a um discurso mais brando estará em franca diminuição no próximo período.

 

Além disso, do ponto de vista estratégico/programático o que está no horizonte da esquerda não é somente chegar ao governo federal a partir de uma proposta de diálogo com setores da sociedade que não querem dialogar, mas sim chegar ao governo e revogar todo o trambolho deixado pelas sucessivas reformas e alterações no Estado realizadas no governo Temer e Bolsonaro. Para tanto, sem organizar a sua base social para o enfrentamento, a esquerda não conseguirá imprimir as profundas transformações necessárias para que haja possibilidade mínima de governabilidade. Organizar essa base social é de fundamental centralidade em razão de que a revogação das reformas demandará enfrentar em bloco o capital financeiro, setores majoritários do capital produtivo, setores hegemônicos da mídia e também uma base social de extrema direita que permanecerá existindo.

 

No tocante ao papel que cumpre a institucionalidade na disputa da totalidade social temos uma tentativa de se desenvolver uma quadratura do circulo quando na mesma entrevista em que se aponta a possibilidade de diálogo com o governo Bolsonaro se fecha o diálogo aos professores universitários grevistas. A questão da disputa pelo excedente aparece aqui novamente quando se trata do governo do estado da Bahia pois: 1) ano a ano a porcentagem de investimento do governo em educação, que passava de 5% da RLI em 2015 e que hoje encontra-se em cerca de 4,5% da RLI; 2) ao passo que a parcela do orçamento destinado às Universidades decresce ano a ano, as desonerações fiscais ao grande capital permanecem intocadas, servindo assim o Estado na Bahia como instrumento de subtração de valor em forma de salários dos servidores públicos e deslocamento desse valor para a remuneração do grande capital em forma de lucro. Nesse sentido, o governo do estado serve como instrumento que enfraquece setores da sociedade representativos da classe trabalhadora, os servidores públicos, e fortalece setores declaradamente inimigos da classe trabalhadora como o agronegócio e o grande capital industrial.

 

Atrelado às questões anteriores temos o papel que deve cumprir um quadro político de massas num periodo de avanço conservador, pois o discurso emulado pelo governador repete em matizes diferentes de intensidade os mesmos discursos da direita convencional: é dessa maneira que ocorre quando Rui repete o mantra da austeridade fiscal, quando afirma que a greve na educação é política e principalmente quando naturaliza os instrumentos de dominação conservadores como o corte do ponto, utilizando para isso seu passado grevista como argumento legitimador.

 

O ponto alto da desconexão do governador baiano em relação à conjuntura é quando o mesmo afirma que “não consegue entender a lógica de se implementar a proposta” da capitalização. A lógica, Rui, é a lógica do Capital, de aumentar a miséria dos miseráveis e a riqueza dos ricos. Sem entender essa lógica não é possivel estar a altura do Brasil pós golpe de estado.

 

A desconexão tática e programática do governador, no entanto, não é tampouco sentida por figuras públicas do PT baiano que preferem, num tom despolitizado e despolitizante, embarcar num aceno a uma provável candidatura de Rui à presidência através de um discurso que no mínimo podemos caracterizar de personalista. Tal aceno abarca figuras como o companheiro Josias Gomes, represente do campo majoritário (Construindo um Novo Brasil), o qual inclusive vem defendendo a necessidade de “renovar” o PT, quanto figuras representativas de tendências que se apresentam na aparência como oposição às práticas e políticas do campo majoritário do Partido, como é o caso do companheiro Waldenor, da Resistência Socialista, o que, ao fim e ao cabo, significa que em momentos de crise invariavelmente aparecem aqueles que defendem que tudo mude para que tudo permaneça igual.

 

Gabriel Cavalcante, militante da Articulação de Esquerda Bahia

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