Por Marcos Jakoby (*)

O texto a seguir é uma adaptação das exposições realizadas por Natália Sena e Valter Pomar nas duas últimas edições do programa Antivírus (01 e 08/10) sobre o processo eleitoral em suas primeiras semanas, com alguns de seus aspectos gerais e, sobretudo, com um detalhamento de informações e dados importantes para a sua análise.

A campanha teve o seu início oficial em 27 de setembro. E com a formalização dos registros de candidaturas, temos um panorama numérico praticamente estabelecido. No quadro geral, o PT está em 6º lugar entre os partidos com mais candidaturas registradas. São 31.321 candidaturas, somando candidatos a prefeito, vice e vereadores. Isso representa 5,7% do total de candidatos e candidatas na disputa. Na frente do PT, estão cinco partidos de direita, como demonstra a tabela a seguir:

PartidoN° candidaturas% do total
MDB44.6078,12%
PSD39.2737,5%
PP38.1156,93%
DEM32.7955,97%
PSDB32.7935,96%
PT31.2315,7%

 

Ou seja, esses cinco partidos de direita, que estão na nossa frente em número de candidaturas, somam quase 35% das candidaturas em disputa. Sem contar os que vem depois do PT: Republicanos com 5,18%, PL com 5,12%, PSL com 3,99%, PSC com 3,25%, Solidariedade com 3,08%, para citar alguns exemplos, o que faz já passar de 50% das candidaturas concentradas nesses partidos.

Se somar as candidaturas de partidos de esquerda, PT, PSOL, PCdoB, PSTU, UP, PCO e PCB, teremos quase 9% das candidaturas. Veja na tabela abaixo:

PartidoN° candidaturas% do total
PCdoB10.5001,91%
PSOL4.3640,84%
PSTU2040,04%
UP1330,02%
PCO880,02%
PCB0,01%74

Se incluirmos a chamada centro-esquerda, PDT (5,16% /28.365 candidaturas) e PSB (4,85% /26.641 candidaturas) a proporção aumenta em 10%. Portanto, somando as candidaturas de esquerda e centro-esquerda teremos um montante de 19% do total de candidaturas.

Claro que os números brutos não são suficientes para prever o resultado, mas indicam pistas. Por exemplo, indicam que algo entre 70% a 80% das candidaturas estão alojadas em partidos identificados com a direita, tradicional ou bolsonarista.

Pode-se lembrar dos casos no interior onde o candidato do PSDB só está nesse partido por uma conjuntura específica local e que na verdade é alguém progressista e que sempre apoiou Lula, Dilma este ou aquele governador ou prefeito do PT. Com certeza isso existe. Mas não é suficiente para minimizarmos a força organizada do lado de lá que esses números indicam.

No entanto, a nossa capilaridade e referência popular, especialmente do PT, coloca-nos a altura de fazer essa disputa e ter bons resultados, políticos e eleitorais. E esses números também deixam evidente que a defesa e afirmação do PT nas eleições é uma necessidade concreta da organização da classe trabalhadora, e não questão de “hegemonismo” ou “autoconstrução”, como costumeiramente alguns afirmam.

Mesmo com inúmeros problemas, com um cerco pesado contra o nosso Partido e nossas lideranças, com pandemia, com tentativas de impor um isolamento, o PT sozinho tem mais que o dobro de candidaturas que o segundo partido de esquerda com mais candidaturas, que é o PCdoB. Esse elemento reforça a compreensão da impossibilidade de derrotar o bolsonarismo e retomar o Brasil deixando o petismo em segundo plano.

Portanto, vale detalharmos um pouco mais os números da situação eleitoral do PT. Existem, no Brasil, 5.570 municípios. Nestes, o eleitorado poderá votar numa chapa majoritária do PT para prefeito em 1.256 municípios. Para comparativo, em 2016 o PT teve 971 candidatos a prefeito, e em 2012 teve 1.763 candidatos.

O PT também terá chapa proporcional em 2.902 municípios. Além das 1.256 candidaturas a prefeito, o PT ainda terá 1.292 candidaturas a vice e 28.900 candidaturas a vereador. No total, são 31.448 candidaturas. Por outro lado, existem 2.668 municípios onde o eleitorado não terá a alternativa de votar num candidato a vereador do PT e 4.314 municípios onde o eleitorado não terá a alternativa de votar num candidato a prefeito do PT.

Comparando somente as candidaturas a prefeito em relação a outros partidos de esquerda, fica evidente também a importância do PT no conjunto da esquerda:

PartidoCandidatos a prefeito
PT1.256
PSOL347
PCdoB271

Portanto, os três partidos que compõem o núcleo da esquerda brasileira apresentaram 1.874 candidaturas a prefeito. Já o PSB tem 862 candidaturas, o PDT tem 959 candidaturas e o PROS tem 304. Se considerarmos também o PV, com 297 candidaturas, chegaremos à conclusão de que o setor de centro-esquerda lançou, no máximo, 4.274 candidaturas.

Enquanto isso, MDB sozinho tem 1.934 candidatos, o PSD tem 1.627, o PP tem 1.496, o PSDB tem 1.292. Todos esses sozinhos têm mais candidaturas que o PT sozinho. E somando-se aos outros partidos, a centro-direita lançou um total 14.094 candidaturas a prefeito.

Embora estes números por si só já indiquem a capilaridade relativa entre os grandes campos políticos, a análise deles precisa levar em conta a distribuição das candidaturas pelos diferentes colégios eleitorais municipais, considerando seus tamanhos. Além, claro, do resultado eleitoral.

No caso do PT, lançamos candidaturas em 25 estados brasileiros. No DF não há eleições e em RR não lançamos nenhuma candidatura. Em um estado (Acre) temos candidaturas em 55% dos municípios. Nos demais estados, lançamos candidaturas que cobrem no máximo 36% (Piauí) e no mínimo 11% dos municípios (Paraíba).

A situação melhora quando observamos o eleitorado total atingido: nossas candidaturas cobrem de 75% do eleitorado (caso do estado de SP) até no mínimo 13% do eleitorado (caso da Paraíba). Mas olhando de conjunto, cerca de 40% dos eleitores brasileiros não terão a possibilidade de votar em uma candidatura petista nas eleições municipais deste ano.

O PT lançou, também, 1.292 vice-prefeitos e vice-prefeitas em todo o país. E apoiamos 1.669 candidaturas a prefeito de outros partidos, sendo que 1.244 são de legendas do campo de centro-direita.

No caso de vereadores, o PT lançou 28.900 candidaturas (mais do que as 21.293 de 2016 e menos do que as 38.425 de 2012). Novamente, MDB, PSD, PP, DEM e PSDB lançaram mais candidaturas do que o PT; somados, esses partidos de centro direita lançaram 172.325 candidaturas a vereador.

Quando analisamos a distribuição das candidaturas do PT pelo tamanho das cidades, o quadro é o seguinte: temos candidatura majoritária em 1.256 municípios, que reúnem 55% do eleitorado; e temos candidaturas a vice em 484 municípios, que reúnem 9% dos eleitores.

A tabela abaixo, por sua vez, mostra a quantidade de candidaturas de outros partidos que o PT apoia (a prefeito):

PartidoN° apoios
PCdoB45
PSOL61
PDT173
PSB140
PROS25
REDE13
MDB270
PSD219
PP184
PL104
Republicanos71
PTB67
DEM60
PSDB57
PSC41
Cidadania39
Avante36
Solidariedade33
Podemos29
Patriota15
PSL6
PMN6
Democrata Cristão4
PRTB2
PMB1

Em resumo: o PT lança 1.256 candidatos a prefeito. Apoia 61 candidatos de esquerda; 364 de centro-esquerda (incluindo PROS e REDE) e 1.244 de direita.

Por fim, as coligações: o PT participa das eleições de 2020 em 302 cidades coligado com o DEM; em 333 cidades com o PP; em 314 cidades com o PSDB; em 606 cidades com o MDB; em 193 cidades com o PSC; e em 48 cidades com o PRTB. Junto com o PSL, são 140 coligações.

Obviamente, os números em si não são suficientes para um panorama das eleições. Além das especificidades locais, que existem; e dos tamanhos das cidades, que são muito discrepantes, e o fato de termos candidatura própria petista – ou de esquerda com nosso apoio – em todas as maiores cidades; além disso, o que de fato vai determinar o resultado político da eleição de 2020 é…. a política.

Ou seja: onde temos candidatura própria, estamos politizando, nacionalizando, tratando dos problemas locais vinculando com o bolsonarismo, polarizando? Ou estamos nos comportando como mais do mesmo, bons gestores, bons cidadãos de sua própria cidade, e desvinculando as campanhas dos grandes problemas nacionais, como o governo Bolsonaro, o programa ultraliberal, os direitos políticos de Lula?

É isso que vai definir se mesmo com esse imenso número de alianças com partidos da centro-direita, o PT sairá dessa eleição fortalecido ou enfraquecido como polo à esquerda. As eleições não servem apenas nem principalmente para ganhar mandatos e governos.

Afinal de contas, ganhamos mandatos e governos para que eles possam ser instrumentos de melhoria da vida do povo e, a partir disso, instrumentos da disputa política geral da esquerda em prol de um outro mundo, um outro Brasil, democrático, popular e socialista.

(*) Marcos Jakoby é professor e editor do site Página 13

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