Por Mateus Santos (*)

PT e Juventude possuem laços históricos. Como não recordar, por exemplo, daquele partido que, em 1980, nascia a partir de muitos homens e mulheres jovens, sonhadores com um país democrático e transformado socialmente. Aquele PT era sinônimo de novo. Uma nova opção para a luta da classe trabalhadora, mas também um espaço dos novos, isto é, de todos aqueles e aquelas que, parafraseando o título da famosa obra de Eder Sader, eram inéditos personagens entrando em cena.

Hoje, prestes a completar seus quarenta anos de vida, o jovem PT tornou-se um partido maduro. Treze anos de governo, formação de inúmeros quadros para a política nacional e possuindo mais de um milhão e meio de filiados, encontros e desencontros entre gerações marcaram também o advento da vida adulta do partido. Aquela geração das lutas da ditadura militar, dos combates em torno da democratização efetiva do país e em oposição ao neoliberalismo, deparou-se com um novo segmento no interior do partido. Tratava-se agora de uma juventude que crescia num Brasil melhor. Num país mais justo, de portas abertas aos seus novos filhos, por meio de políticas de transferência de renda, da expansão do ensino superior e do avanço de outros programas sociais. Foi deste Brasil que muitos jovens, como eu e você, decidimos “gostar” da política, ou, em melhor termo, compreender e assumir o nosso papel enquanto agentes de transformação.

A Juventude do Partido dos Trabalhadores, enquanto espaço de organização e formação, nasceu com a proposta de ser este espaço de empoderamento e construção dos jovens petistas. Sendo a autonomia uma das suas principais bandeiras, a JPT teria todas as condições de ser um órgão vital no interior do partido, capaz de proporcionar, ao mesmo tempo, a ligação necessária com um segmento histórico de suas fileiras e ser o mecanismo fundamental de garantia de renovação política.

Num olhar retrospectivo nos permite afirmar que essa organização de juventude sonhada ainda precisa se afirmar enquanto tal. A autonomia política não se traduziu numa solidez necessária na condução de um projeto efetivo de organização. Na heterogeneidade existente no interior do Partido dos Trabalhadores, é em sua juventude que talvez este aspecto esteja mais encarnado. Apesar de possuir uma marca e um histórico no interior das lutas sociais e mobilizações das juventudes, a JPT esbarra numa configuração política que se tornou secundária no interior do partido. O fortalecimento da organização de coletivos por parte da maioria das tendências levou ao cenário de privilégio da autoconstrução e da ação mais individualizada, em detrimento da edificação de uma JPT enquanto um possível sujeito coletivo, isto é, um organismo que reconheça as diferenças no interior de suas juventudes, mas que não deixasse de atuar em bloco com um programa político coeso.

Na conjuntura política nacional, a Juventude é um espaço em disputa em meio à polarização. Os dados das eleições de 2018 demonstram como este segmento se encontra dividido entre os projetos que estiveram em confronto naquele pleito. O golpe de 2016 representou um fim provisório de muitos sonhos e processos de construção individuais e coletivos. Desemprego, falta de perspectiva na formação acadêmica, sucateamento da educação, ataque a agricultura familiar, genocídio da juventude negra e tantas outras políticas nefastas tem nos jovens deste país um alvo principal. O que se discute hoje no Brasil não é apenas (e nem pode ser somente) o que virá em 2020 e 2022, mas o que podemos fazer para garantir que esta e as próximas gerações tenham alguma coisa no futuro.

É no meio deste compromisso com o futuro próximo e o futuro distante que a JPT é convidada a um movimento de refundação organizacional e política. Pensar hoje na construção de uma alternativa de país é considerar como precisamos ganhar parcela da juventude que, mesmo ao nascer num Brasil melhor, encontra-se hoje embebida pelo discurso bolsonarista e pela política neoliberal. Ilusões do Estado mínimo e do “politicamente incorreto” conquistaram milhares de jovens ao redor do país. Programas como Renova BR e organizações como o MBL constituem mecanismos de arregimentação e formação de quadros para os diversos setores da direita brasileira, na disputa da opinião pública e no embate institucional. A presença de mais jovens no Congresso Nacional não foi, de modo algum, consequência de conquistas à esquerda, mas também das movimentações citadas anteriormente.

A JPT deve ser encarada como a principal ferramenta política para a conquista da Juventude. Conquista essa que não possui outro horizonte senão a construção de uma sociedade socialista. Diante dessa tarefa, formação política deve ser uma das palavras de ordem de um novo ciclo na organização da juventude petista. A transformação de filiados ou aproximados em efetivos militantes não é só tarefa de outros segmentos do partido, mas também constitui uma necessidade entre seus jovens. As novas gerações petistas precisam compreender qual o lugar ocupado por este partido ao longo dos quarenta anos de existência, o que significou o PT na história das lutas no Brasil Republicano, além de estarem em constante aperfeiçoamento político. Para aqueles que acreditam ser possível anular a teoria, o abandono desta ocasionou e ocasiona sérios problemas ao partido, especialmente na formação de seus novos quadros.

Do ponto de vista de sua estrutura, a autonomia apregoada em sua gênese precisa ser construída diariamente. Temos que caminhar em prol de uma juventude isenta da lógica “carguista”, que saiba ocupar o seu lugar no partido conforme o avanço na sua formação e atuação nas bases, sem obsessões pelo poder. Uma organização que coloque o Partido dos Trabalhadores em primeiro lugar, atrelando o seu crescimento como uma tarefa diária. Ao contrário do que se verifica hoje, para uma JPT forte será necessário o abandono da política fracionária praticada no movimento estudantil. É um dever das juventudes das diversas tendências protagonizarem o trabalho pelo próprio partido, indo de encontro às posições que fragilizam o nome e a política do PT como um todo, em detrimento dos acordos particulares.

Uma JPT das ruas, com imagem e estilo próprio, reconhecida pela militância e capaz de dialogar com setores mais amplos da sociedade. Ao defendermos esta como uma frente de massas é reconhecer que seu sentido histórico reside na organização de fileiras de resistência política ao golpismo, fortalecendo a cidadania e construindo politicamente seus indivíduos. Cumprindo este papel, estará a Juventude Petista também atuando em prol do Brasil. Sua reorganização é primordial para estes tempos de guerra. De Sion pra cá, o PT e o país mudaram. Se quisermos efetivamente defender uma transição geracional, precisamos, antes de mais nada, assumir outros vocabulários e traduzi-los em ações: formação, atuação e organização.

Façamos deste 5º Congresso um espaço de debate sobre o “futuro das futuras” gerações petistas. A mudança que o PT precisa começa também a partir de seus próprios filhos e novos construtores.

(*) Mateus Santos é militante da Juventude da Articulação de Esquerda (JAE – Bahia) e membro da Executiva da JPT – BA

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