Por Frederico de Barros Silva (*)

Este texto não traz nenhuma referência teórica, embora tenha sido constituída a partir de algumas leituras, observações e análises.

O Partido dos Trabalhadores hoje é um adulto de 40 anos, muito próximo a uma crise de identidade.

Teve um nascimento festejado, uma adolescência rebelde e idealista e, ao entrar na vida adulta, abdicou de seus sonhos para adotar um pragmatismo de conciliar interesses e as reais possibilidades do poder. Mas mais do que isso, arrisco dizer que o PT perdeu aquela a chama da indignação e da revolta com a desigualdade e a injustiça social.

Deixamos de ser um partido de massas e de contato com o povo para nos tornarmos o partido da ordem e do pragmatismo institucional. Mais do que uma síntese de governo, isso se tornou um comportamento da nossa militância, que percebeu nos mandatos um insinuante jogo de poder e influência, destruindo o debate interno e de ideias e se tornando uma força de argumento a ser utilizada por aqueles que acreditam que a conquista eleitoral conta mais do que uma vitória política.

Desde que me filiei ao PT, tenho me questionado sobre muitas coisas, mas principalmente sobre os nossos deveres enquanto militantes e direção: 1) como se reaproximar com as camadas sociais mais pobres que buscam conforto e esperança nas Igrejas Pentecostais que ocuparam o espaço das Comunidades Eclesiais de Base?; 2) como dialogar com uma classe trabalhadora cada vez mais precarizada, menos sindicalizada e presente nas fábricas e a qual foi vendida a ilusão do empreendedorismo; 3) como pensar a organização de micro e pequenos empreendedores que hoje prestam serviços e necessitam de um auxílio do poder público, mas que não se enxergam e não se sentem representados por ninguém?; 4) como dialogar com negros, mulheres e jovens, inseri-los numa dinâmica partidária e constituir relações de igual para igual?

Estes são alguns dos inúmeros desafios da esquerda em pleno 2020. Não citei aqui a luta ambiental, a batalha pela saúde e a sobrevivência dos milhões de brasileiros e brasileiras em meio a uma pandemia, e a retirada de direitos por uma agenda neoliberal. Neste sentido, é importante dizer que, ao mesmo tempo em que temos grandes desafios, também existem adversários e inimigos que souberam dialogar e fazer movimentos importantes. Se antes o racismo, o machismo e o preconceito de gênero eram causas condicionadas ao capitalismo, o neoliberalismo abraça as diferenças, como se não se alimentasse justamente de todos estes tipos de preconceito.

Hoje, há uma abordagem convidativa do capital em relação aos assuntos citados acima, portanto, como denunciar o capitalismo, se ele se mostra inclusivo e representativo? Dou aqui um exemplo claro: a nova classe trabalhadora prestadora de serviços trabalha em forma de cooperação com clientes e prestadores de serviços. Sendo assim, ela necessita estabelecer essas relações. Ao mesmo tempo em que a grande maioria dos “empreendedores” cumpre com dois, três ou mais funções ao mesmo tempo em sua empresa. A pessoa está tão preocupada em fazer com que o seu negócio dê certo que não percebe que todo o sistema joga contra ele. Afinal, como ganhar do Barcelona, tendo que ser zagueiro, lateral e atacante? É um mundo em que a figura do patrão sumiu, e essa é a maior vitória do capital. Essa é a força motriz do discurso do empreendedorismo que, com poucas exceções, é injusta e cruel, pois coloca a culpa do fracasso no indivíduo e não nos principais elementos econômicos que influenciam oferta e demanda.

Tendo deixado claro aqui o que eu penso que são os grandes desafios da esquerda brasileira e mundial, cito aqui uma série de questões que parecem ser prioridade para a nossa militância e faço aqui um recorte destes que cito. Assim como o PT envelheceu, a sua militância também. Os seus sonhos deram lugar a uma compreensão lógica do que pode se fazer ou não. O brilho no olho não existe mais, a palavra socialismo foi abolida e a lógica de um partido de massas deu lugar a um partido de cabeças brancas, em que a experiência e os anos de PT são o argumento-chave para desmontar qualquer iniciativa diferente ou liderança jovem.

E a estes eu digo: o PT precisa rejuvenescer e abraçar a juventude. Precisa rejuvenescer e realizar a tão dita renovação geracional, pois enquanto o nosso discurso continuar sendo o do chão de fábrica dos anos 80, nós vamos continuar vendo o trabalhador votar na direita por não se ver representado naquilo que falamos. A luta de classes que coincidiu com a efervescência política que deu lugar ao surgimento do PT foi deixada de lado em nossos governos. Mais do que isso, deixamos de lado a indignação, a vontade de fazer mais e melhor por análises meramente eleitorais sobre os nossos sucessos e fracassos nas urnas. Deixamos de organizar a sociedade e lutar por uma mudança econômica, social e cultural. Não fizemos o debate cultural e de consciências. Entre tantas outras coisas que poderia citar aqui.

Mas o que posso dizer é que estes que se agarram ao discurso de chão de fábrica, ainda enxergam e veem em Lula a última referência de um Brasil que foi rebelde e não aceitou o seu destino. Enquanto nosso discurso for antigo e nossas práticas também, jamais encontraremos novos meios de dialogar com as novas demandas de uma sociedade extremamente desigual. Se não estamos dispostos a enfrentar um novo momento do PT e encontrar novas lideranças, novas formas de comunicação e abdicar da “passagem do bastão”, é muito provável que isso venha a afastar todo e qualquer jovem, mulher ou negro que queira ou enxergue os governos Lula e Dilma como uma referência. Esse também é um ponto delicado, pois parece que aos olhos do Brasil, só temos a oferecer uma memória do passado que parece cada vez mais distante, ao invés de enfrentar os riscos e desafios de um novo projeto popular para o país.

Me surpreende negativamente que parcela de nossa militância que envelheceu não consiga olhar com humildade, empatia e confiança aos que estão entrando no barco agora. Parecem disputar a todo custo o tempo em que ficam no leme. É um sinal muito perturbador de que não consigamos enxergar no novo uma possibilidade de mudança e estejamos abraçados a uma distante memória do passado já envelhecida demais para ser vista a olho nu. Uma esquerda incapaz de compreender a renovação geracional e que não reproduz a esperança e a vontade de mudar o mundo não pode continuar contaminando os frutos que crescem no chão.

(*) Frederico de Barros Silva é presidente do PT de Santa Cruz do Sul e candidato mais jovem à prefeitura no Estado do Rio Grande do Sul nas eleições de 2020

(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

 

 

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