Por Mateus Lazzaretti (*)

A última semana de 2020 foi marcada por intensa agitação propagandística anti-China pela mídia Ocidental. Alguns meios publicaram e outros reproduziram, tratando de dar enorme repercussão à prisão de uma jornalista chinesa por supostamente ter divulgado informações sobre o coronavírus no início da pandemia, enquanto o governo chinês estaria tentando abafar os casos, tal qual teria ocorrido com o médico Li Wenliang, o primeiro a alertar para a existência do vírus, transformado em mártir no Ocidente, vítima da perseguição do “autoritarismo” do governo da China.

Pouco importa a estes meios de comunicação o fato de que o médico em questão fosse membro do Partido Comunista da China (PCCh), que tivesse reconhecido que errou na ocasião e que, o que de fato ocorreu foi um desrespeito à cadeia de encaminhamento destas questões sanitárias, cadeia esta que por sinal garantiu eficaz resposta da China ao Covid-19 [1]. Nenhuma atenção também deram ao fato de que a “jornalista” presa não era uma profissional [2], mantinha um blog/canal em que, pautada num certo fundamentalismo cristão, mantinha constantes ataques ao governo e às autoridades chinesas, negando a pandemia e tentando forçar barreiras sanitárias, invadindo hospitais e hostilizando pacientes e desrespeitando as regras de lockdown. Aliás, este foi o motivo de sua prisão, e não por “fazer jornalismo” num país “autoritário”, como dizem os grandes meios ocidentais [3].

Ao mesmo tempo em que as notícias a respeito da prisão da blogueira chinesa eram reproduzidas nos mais diversos meios aqui no Brasil, e compartilhada por páginas e pessoas de diversos espectros políticos, requentou-se o debate da “perseguição de minorias étnicas na China”, com os supostos “campos de concentração” em Xianjiang, onde o governo chinês supostamente mantinha minorias muçulmanas em trabalho forçado [4]. Nessas acusações, constam coordenadas geográficas de supostos campos de concentração, sem nenhuma prova concreta ou indícios confiáveis. Essas “provas” foram recentemente desmentidas pelo governo local de Xinjiang [5]. Essas questões também já foram respondidas de maneira qualificada por alguns sites brasileiros, que estão nas referências.

Bom, que estes grandes grupos de comunicação e a imprensa imperialista façam este tipo de ataque desonesto à China (e a outros países) não é nenhuma novidade. Afinal, em 2020 se acentuou a guerra comercial entre Estados Unidos e China, o coronavírus demonstrou a bravura do povo chinês e a capacidade de seu Estado no combate à pandemia, enquanto que os EUA amargam os resultados do negacionismo de Trump e a enorme quantidade de mortos no país, e, um dos fatos mais importantes da década, porém invisibilizado no Ocidente, a China realizou a façanha de erradicar a pobreza absoluta em seu território, tendo tirado mais de 80 milhões de pessoas dessa condição desde 2013, ao passo que os EUA estão com 40 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza.

Como poderiam esses interesses representados pelas grandes corporações de mídia responder ou contrapor a realidade concreta sem promover campanhas de desinformação e converter fatos positivos em negativos? Ou seja, nenhuma surpresa em tal estratégia. Essa campanha ideológica é constantemente utilizada “coincidentemente” contra países que não se dobram aos interesses do imperialismo norte-americano, não só na Ásia, mas também aqui na América Latina, como bem sabemos.

O que causa certa surpresa aqui no Brasil é o comportamento de parcela considerável da esquerda – militantes e figuras públicas – quando o assunto é China. No caso da prisão da blogueira chinesa, nomes importantes prontamente se posicionaram nas redes sociais pedindo “liberdade para ela e todos os jornalistas cidadãos perseguidos na China e em qualquer lugar do mundo”, como publicou Luciana Genro em suas redes. Acompanhando alguns debates também foi comum ver pessoas – até bem intencionadas – afirmando que “sim, a China é autoritária, mas o Brasil está pior”, ou coisas do tipo. Pessoas que costumam denunciar e/ou já conhecem como a mídia brasileira costuma tratar a esquerda local e latino-americana, mas que fazem coro aos ataques sinofóbicos e anti-comunistas da mesma mídia contra a China, cujas fontes geralmente são de “dissidentes”, suposições e “vazamentos” de fontes ocidentais.

Ora, não se trata de uma obrigação de sermos todos estudiosos sobre a China, mas de no mínimo desconfiar e tratar com ceticismo este tipo de informações e, principalmente, não utilizar tais fontes para embasar posicionamentos políticos. É preciso perceber que esta mesma narrativa e campanha de desinformação sobre a China também é usada contra nós e contra qualquer tentativa de mudança contra-hegemônica, é usada para nos domesticar e fazer com que nossa atuação e formulação política fique sempre dentro dos limites do capitalismo neoliberal. Tampouco é recomendável que o estudo acerca da milenar nação asiática se dê apenas a partir de teóricos e intelectuais ocidentais, e, especialmente, que não se avalie “democracia”, “liberdade”, etc, sob os marcos dessas categorias no Ocidente, ou se irá incorrer ao erro e contribuir, mesmo que involuntariamente, com a narrativa imperialista.

A história da China e, principalmente, o processo revolucionário vitorioso em 1949 e que, com rupturas e continuidades, segue conduzindo o país rumo ao progresso civilizacional e humanitário, traz muitas lições a serem aprendidas por nós. Não se trata de importar modelos, mas de estudo, leitura da realidade concreta e das condições locais,  adaptando as lições às necessidades de cada país. Aliás, foi isso que os comunistas chineses fizeram com o marxismo e os ensinamentos da Revolução Russa de 1917. Longe de “fazer torcida” para a China ou deixar de fazer análises críticas e cientificamente embasadas, contra a ofensiva ideológica imperialista estadunidense, não devemos nos furtar de compreender e defender essa que é uma das mais exitosas experiências socialistas, anti-imperialistas conduzida por operários e camponeses na História.

Sem secundarizar nossas tarefas e necessidades locais, devemos fortalecer nosso internacionalismo e solidariedade ao bravo povo chinês. As experiências dos governos Lula e Dilma no Brasil, por meio dos BRICS e outros projetos de integração, demonstram a importância desses países no estabelecimento de uma ordem multipolar e do desenvolvimento conjunto e integrado dos países periféricos sem as amarras do imperialismo. Lembremos, por fim, que não há espaço para idealismos na luta pelo socialismo, não há um checklist ou um passo a passo, existe sim a construção real, organizada e planejada, que aprende com seus erros e é rigorosa na leitura da realidade concreta, bem como na ação para transformá-la, como vem demonstrando a China.

(*) Mateus Lazzaretti é graduando em História e militante do PT


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

Referências:

[1] http://portuguese.people.com.cn/n3/2020/0320/c309806-9670529.html

[2] https://marcelobamonteseoane.medium.com/quem-%C3%A9-zhang-zhan-27b755278c2b

[3] https://www.brasildefato.com.br/2020/12/30/blogueira-chinesa-foi-julgada-por-violar-regra-sanitaria-e-nao-por-fazer-jornalismo

[4] https://revistaopera.com.br/2019/07/25/o-ariete-da-desinformacao-as-mentiras-que-cercam-a-provincia-de-xinjiang/

[5] https://www.globaltimes.cn/content/1208288.shtml

 

 

 

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