Uma retrospectiva sobre a atuação das forças petistas no LVII Congresso da UNE. A trajetória política mais recente da entidade demonstra como a constituição de um campo petista torna-se, cada vez mais, uma ação urgente para o futuro do movimento estudantil e da Juventude do PT.

Por Mateus Santos (*)

Para aqueles que estiveram em Brasília entre os dias 10 e 14 de julho, o Congresso da UNE, do ponto de vista do resultado final, interessa menos do que algumas questões relacionadas ao posicionamento dos coletivos, além de determinadas tendências que acabaram por se concretizar. A eleição para a presidência não foi surpresa pra ninguém. A hegemonia da UJS na entidade permanece, variando apenas a composição da direção e as movimentações no interior da majoritária. É exatamente com relação a sua composição que devemos iniciar um movimento de reflexão. Reunindo parcela do PT, PCdoB, PDT e a Consulta popular, o desfecho do 57º Congresso é uma janela para pensarmos sobre o que significa tal composição, especialmente para o maior partido de esquerda da América Latina.

Sob o discurso de fortalecimento da Frente Brasil Popular e da construção de uma unidade no Movimento Estudantil, forças que até então se antagonizavam em determinados aspectos acabaram por estarem juntas em um único projeto. A contradição mais evidente, a primeira vista, reside entre petistas e pedetistas. Não há como esquecer o histórico de ataques entre os dois lados, sobretudo diante do projeto individual de Ciro Gomes em tornar-se presidente do Brasil, considerando como movimento fundamental a promoção de um desgaste do PT frente à esquerda e mesmo sustentando discursos comuns à direita. Neste cenário, é muito difícil esperar de alguém que adote essa estratégia um mínimo esforço para pautar a defesa do Lula Livre, pauta tão cara para o Partido dos Trabalhadores e outros setores da esquerda que teorizam profundamente o golpe.

A fragmentação do campo petista, quando colocada com relação às demais forças que compõem o movimento estudantil, enfraquece radicalmente a capacidade do Partido em intervir e dar a linha de uma entidade política como a UNE. Ainda considerando o mesmo arranjo político vencedor nas urnas, ao conceber o PT não como um partido heterogêneo, mas como uma espécie de conjunto de mini partidos, as demais organizações que compõem a direção acabam por submeter o PT a uma condição de fragilidade, quando, se apresentasse uma coesão mínima, poderia seguramente ser a segunda bancada mais forte do congresso. Diante das enormes dificuldades disso acontecer, a estratégia do “dividir para dominar” parece cada vez mais eficiente.

Tal eficiência pode ser comprovada em ao menos dois aspectos políticos mais recentes. Do ponto de vista pragmático, a constituição da nova mesa diretora evidenciou uma das faces de uma derrota da estratégia adotada pela maioria das forças de juventude do Partido dos Trabalhadores. Coube a uma delas apenas o cargo de primeiro vice-presidente, quando, em outros momentos, foi prometida uma posição mais alta. Do ponto de vista da linha política, num cenário em que projetos distintos estiveram unidos sob uma mesma chapa, alguém poderia ser privilegiado. E esse alguém não foi a JPT. O “Lula Livre”, uma das pautas mais centrais do partido neste período, não foi pautado enquanto uma das bandeiras da entidade nacional, diante da contrariedade de forças que hoje compõem a direção e são parte da chamada chapa majoritária.

Este é o único caminho para o PT? Seguramente não. Nós, da Juventude da Articulação de Esquerda apresentamos outra estratégia possível para a JPT. Com muita coragem e disposição defendemos a construção de uma oposição petista, que seja capaz de defender suas plataformas políticas sem se submeter aos “acordões” que só enfraquecem nosso partido. Num momento central da luta política no Brasil, defender uma ação ousada das forças petistas foi a melhor forma de impedir qualquer tipo de concessão política ao “centrão” e as forças que buscam isolar o PT na política institucional ou tomar o seu lugar enquanto principal referência da classe trabalhadora.

Ao demarcarmos uma nova alternativa para as forças petistas, demonstramos que é possível constituir novos caminhos para o movimento estudantil. A dicotomia tão sustentada no discurso daqueles que acompanham o M.E não encontrou sustentação neste Congresso. Semeamos hoje para colhermos a construção de um campo ainda mais forte no amanhã. O avanço do bolsonarismo na educação e a urgência de reconstruirmos a legitimidade da UNE exigem novas posturas daqueles que tem condições para mudar essa história. Continuaremos a defender que a esperança, a efetiva, que promova confiança dos estudantes num projeto de forte representação estudantil, ainda pode ser vermelha.

Texto escrito em julho de 2019 e revisado em janeiro de 2020.

(*) Mateus Santos é militante petista e da Juventude da Articulação de Esquerda – JAE (Bahia)

 

 

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