Por Patrick Araújo (*)

Bolsonaro e a extrema-direita conseguiram mobilizar, ao longo dos últimos anos, uma expressiva força política e social através da constante disputa cultural e ideológica. Eles foram favorecidos pelo aprofundamento da crise econômica iniciada em 2008 e pelas condições que a própria direita impôs ao Brasil desde a preparação do golpe de 2016, com o desemprego crescente, a perda de direitos trabalhistas e sociais, e a piora nas condições de vida de milhões de trabalhadoras e trabalhadores.

Mesmo apresentando um programa que apontava para o aprofundamento da crise para os mais pobres, com privatizações, reformas ultraliberais e redução das liberdades democráticas e da proteção social, parcelas da classe trabalhadora foram ganhas pelo bolsonarismo. Existem diversos fatores que explicam, em maior ou menor medida, esse movimento à direita, como a força do conservadorismo nas classes populares, a situação internacional, a fragilização das organizações populares de esquerda, a perda de território para organizações fundamentalistas, para o crime e a milícia, os erros cometidos pelos governos petistas e os anos de ataques da direita através do oligopólio da mídia e do judiciário.

Mas há também uma dimensão moral no programa conservador bolsonarista que cumpriu um importante papel na disputa travada. Por um lado, a chamada “pauta moral” ou dos costumes foi atiçada contra a esquerda, num movimento de caracterização da direita como defensora de supostos “bons valores” (cristãos, heteronormativos etc.). Por outro, se buscou constituir uma determinada moralidade pelo discurso “contra” a corrupção e a criminalização do PT.

Tudo isso contribuiu para que a extrema-direita e o bolsonarismo conseguissem se apresentar, por exemplo, como uma alternativa antissistema, no momento em que crescia em parte da população a compressão de que a piora das condições de vida estava diretamente ligada ao governo, aos políticos e às instituições.

Mas passados mais de três anos do início do governo Bolsonaro, a situação econômica e social piorou brutalmente; são mais de 620 mil pessoas mortas, milhares dessas mortes devido ao negacionismo que levou a falta de vacinas; Bolsonaro e sua família tornaram ainda mais público que são parte integrante do sistema; e os casos de corrupção, como o superfaturamento de vacinas e o dinheiro escondido para comprar apoio no congresso e financiar aliados, se tornaram cotidianos.

Ainda assim, o governo segue com o apoio de aproximadamente 25% dos eleitores. Há quem considere esse percentual baixo, principalmente quando colocado ao lado das intenções de voto que, hoje, Lula tem registrado. Com isso, acabam subestimando a força do bolsonarismo, que apesar de tudo que já fez, ainda possui cerca de ¼ do eleitorado.

Mas além disso, deixam em segundo plano o impacto que a influência do bolsonarismo promoveu em setores da classe trabalhadora. São anos de um trabalho cotidiano de difusão de mentiras, mas também da defesa de posições conservadoras, racistas, machistas, LGBTfóbicas, individualistas e de uma meritocracia egoísta.

Enfrentar essa dimensão moral do programa bolsonarista será fundamental para derrotar a extrema-direita. O estrago causado na vida de milhões de pessoas desde o golpe de 2016 foi imenso e, mesmo que muitos considerem que Lula pode devolver aquilo que foi tirado, essa compreensão não ocorre de forma automática e nem se dará apenas por meio de publicidade e marketing eleitoral.

Por isso, o programa que o PT e a campanha de Lula devem apresentar para as eleições de 2022 precisa ter muita nitidez em todas as suas dimensões, inclusive no campo “moral”. E nesse aspecto as posições não podem esperar a campanha eleitoral para serem apresentadas.

A defesa de valores como a solidariedade, o coletivismo, a alteridade, a tolerância e de princípios como a justiça social precisarão ser trabalhados cotidianamente. Mas isso não será fácil, principalmente num cenário em que milhões de pessoas não tem o que compartilhar, o que comer, onde morar e que estão lutando todos os dias, muitas vezes uns contra os outros, para sobreviver.

No entanto, se quisermos efetivamente dar conta de um programa de transformação e reconstrução do país, que desfaça tudo aquilo que foi feito pelo menos desde o golpe de 2016 e que avance com reformas estruturais, alguns desses valores precisarão ser reforçados em amplos setores da classe trabalhadora.

Isso não será fácil, e será muito mais difícil de ser feito se a chapa presidencial de Lula for composta por alguém que expressa exatamente o oposto dessas ideias, como o “ex-tucano”, golpista, conservador, espancador de professor e privatista, Geraldo Alckmin. Ou ainda por meio de uma federação partidária que reúna partidos de centro-direita que foram cúmplices do golpe de 2016 e da aprovação das reformas neoliberais.

O programa precisa expressar nossa disposição e capacidade de enfrentar o sistema financeiro, o oligopólio dos meios de comunicação, o latifúndio, o imperialismo e de garantir empregos, comida, moradia, terra, saúde, educação, proteção social e dignidade para o povo. Um programa, portanto, que tenha moral para convencer as trabalhadoras e os trabalhadores da sua necessidade e urgência. Ou fazemos isso, adotando uma tática de mobilização de massas, ou podemos ver novamente a extrema-direita aproveitar a degradação da vida do povo para, a partir do que as pessoas têm de pior, mobilizá-las contra seus próprios interesses.

(*) Patrick Araújo é dirigente nacional da AE e integrante do Diretório Nacional do PT.

Este post tem um comentário

  1. Rafael

    Gostei do que o texto propõe, que devemos reafirmar sempre a dimensão moral de nosso programa (“a defesa de valores como a solidariedade, o coletivismo, a alteridade, a tolerância e de princípios como a justiça social”) pra contrastar com o programa deles. Apenas adiciono que o maior desafio, na minha opinião, é fazer nossas ideias chegar na maior parte da população, cuja maioria nem ensino médio completo tem, como lembrou Milton Pomar nas jornadas de formação.

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