Por Varlindo Nascimento (*)

Na última quarta-feira, 8/4, o então pré-candidato à presidência dos Estados Unidos, Bernie Sanders, abriu mão da possibilidade de ser indicado pelo Partido Democrata para a disputa eleitoral contra Donald Trump. Desta forma, Joe Biden, vice-presidente nos governos de Barack Obama, será o concorrente do partido nas eleições marcadas para novembro.

Senador da república, Sanders tentou pela segunda vez concorrer à vaga Democrata na disputa pela presidência. Em 2016 ele disputou com ex-primeira dama e secretária de Estado Hillary Clinton, tendo um desempenho surpreendente e trazendo para o debate público norte americano temas e perspectivas tolhidas pela forma injusta como se organiza o sistema político e eleitoral do país, calcado num bipartidário que praticamente impede alternativas que fujam do controle das alas mais conservadoras da sociedade e da elite econômica do país.

Nos primeiros estados onde as eleições primárias foram realizadas, Sanders, que se intitula socialista, aparecia liderando o quadro de delegados, e as pesquisas acerca das primárias seguintes eram otimistas quanto à possibilidade de ser o escolhido na convenção do partido. Com uma candidatura que conseguiu captar quase U$ 200 milhões com o apoio de doadores voluntários e não aceitando recursos dos grandes capitalistas, o senador por Vermont mostrou que existe na base da sociedade norte americana espaço para a eclosão de uma nova força política que supere a ordem estabelecida e perpetuada pelo modelo de organização política e eleitoral.

A sorte do candidato antissistema começou a ruir quando o bilionário Michael Bloomberg, que gastou meio bilhão de dólares da sua fortuna pessoal com a candidatura, abriu mão da campanha no começo de março em favor de Biden, deixando claro o poder do establishment no direcionamento do processo, mesmo com todas as pesquisas indicando que Sanders seria a melhor aposta para contrapor o discurso e a política de Donald Trump. Desde o momento da retira da pré-candidatura de Bloomberg o sentido da campanha mudou e nas primárias seguintes o desempenho de Sanders esteve longe do que se prognosticava anteriormente. A mudança de cenário culminou com a retirada da candidatura anunciada por Sanders na última quarta.

Neste momento a leitura que pode ser feita é que a superestrutura do Partido Democrata, que não é em nada diferente da Republicana no essencial, conseguiu sufocar a sua ala “rebelde”. E, daqui por diante, é necessário fazer a leitura do que essa ala “rebelde” fará com o capital político acumulado durante o período. As primeiras indicações vão no sentido de que eles utilizarão esse capital para influenciar o partido a adotar na campanha, e num eventual governo, as pautas defendidas por Sanders, principalmente no que diz respeito a uma presença forte do Estado no setor social. A experiência histórica não dá nenhum sinal de que isso vá se configurar na prática, o que pode custar ao movimento encabeçado por Sanders um refluxo irrecuperável a médio prazo.

(*) Varlindo Nascimento é militante petista em Recife, bacharel em Geografia, pós-graduado em Sindicalismo e Trabalho, graduando em História e mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas.

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