Por Mateus Santos (*)

Denice ao centro, candidata do PT em Salvador

Texto publicado no Jornal Página 13, edição de n° 220.

No último domingo, milhões de baianos foram às urnas escolherem seus respectivos prefeitos e vereadores para os próximos quatro anos. Em mais de 400 cidades, o resultado eleitoral já é reconhecido, faltando apenas dois dos maiores colégios eleitorais do estado: Feira de Santana e Vitória da Conquista.

Na capital, o candidato Bruno Reis (DEM), conforme apontavam as pesquisas, saiu vitorioso no primeiro turno, com cerca de 64,20% dos votos válidos. A candidata do PT, Major Denice, teve apenas 18,86%. Ainda sobre os números, chama atenção o fato do candidato abertamente bolsonarista, Cezar Leite, ter ficado à frente da candidata do PCdoB, Olívia Santana, numa diferença de 2 mil votos. Leite, sempre abaixo nas pesquisas, chegou a ser segundo colocado em uma das zonas eleitorais da cidade. Nas eleições soteropolitanas, as candidaturas à esquerda somaram quase ¼ dos votos válidos, melhorando os números de 2016, mas ainda muito aquém para uma cidade com o maior índice de rejeição ao Bolsonaro, além dos expressivos números obtidos pelo PT, em nível estadual e federal em 2018. Já que citamos a impopularidade do presidente em terras soteropolitanas, vale a pena dizer que a nacionalização da campanha foi um dos maiores problemas das esquerdas, especialmente o PT nessa disputa. As necessárias exposições das relações entre o DEM Baiano e Bolsonaro apareceram praticamente num momento tardio.

Mais do que números, de forma resumida, a análise das eleições em Salvador pede um olhar qualitativo. Em primeiro lugar, a tática de fatiamento das candidaturas da base do governador Rui Costa se revelou mais uma vez fracassada. A existência de nomes dos mais diferentes espectros ideológicos não foi o suficiente para fazer frente à candidatura apoiada pelo atual prefeito ACM Neto. Em verdade, a subida da candidata Major Denice nas intenções de voto, consolidadas com seu segundo lugar no resultado final, deu-se por meio de movimentações eleitorais entre a própria base do governo e setores indecisos, mas não fundamentalmente a partir da transferência de votos do candidato Bruno Reis.

Aliás, os expressivos números do vencedor, quando confrontados com dados da eleição estadual em 2018, evidenciam que uma parcela não desprezível dos eleitores do governador Rui Costa naquele ano não seguiu em direção à sua candidatura ao Palácio Thomé de Sousa. Apontada como uma das possíveis estratégias de campanha neste ano, sua popularidade não foi o suficiente para garantir maior corpo eleitoral para a candidatura de Denice, nem tampouco aos outros nomes da base.

Do ponto de vista ainda das eleições na capital, pensando sobre a organização partidária, não se pode esquecer que o processo de escolha da candidatura deixou marcas controversas no interior do partido. O método de escolha, diante de um processo que outrora reunia diferentes nomes e todo o apelo em torno de uma candidatura feminina e negra, foi alvo de divergências entre setores da militância petista, gerando polêmicas em torno de sua postura durante a campanha.

Apesar de ser o principal colégio eleitoral do estado, um olhar para as eleições no interior é fundamental. Com as urnas apuradas, uma dupla constatação deve ser observada a partir de quatro ângulos distintos: 1- A vitória da base governista na maioria dos municípios baianos, ultrapassando o número de 300 prefeituras; 2- A recuperação da oposição em algumas cidades estratégicas. Olhando para as principais legendas da base do governador Rui Costa (PT, PSD, PP, PCdoB, PSB), os grandes vencedores foram a dupla PP, do atual vice-governador João Leão, e o PSD, dos senadores Otto Alencar e Ângelo Coronel. Juntos, alcançaram o número de 200 prefeituras, convergindo entre cidades médias (Candeias, Ilhéus, entre outras) e cidades pequenas. Apesar de não se tratarem de legendas homogêneas, sendo possível identificar prefeitos e prefeitas que não necessariamente comungam com o governador, os números chamam atenção para a força política dos setores de direita da base do Palácio de Ondina, bem como a possível capacidade de influência de ambos nos rumos do governo da Bahia e de sua sucessão.

Vale lembrar que, em alguns municípios, a abertura de espaço para os dois partidos se deu pela conivência do PT, seja pelo esvaziamento das candidaturas próprias, seja por arranjos pré-existentes. Nesse sentido, a estratégia de conciliação de classes, mesmo num momento em que a disputa pelo governo tende a se acirrar no interior da própria base, continua a todo vapor. Do ponto de vista dos partidos de esquerda, o PT saiu vencedor em 32 municípios. Nessa dimensão de análise, há uma situação no mínimo complexa. O partido perdeu mais prefeituras neste ano (39 em 2016, números nem perto das mais de 70 prefeituras em 2008 e 2012) inclusive em cidades tradicionais, como em Cruz das Almas e Senhor do Bonfim. No entanto, encontra-se em duas disputas de segundo turno em cidades estratégicas (Conquista e Feira) contra o MDB. Em Feira, aliás, caso obtenha vitória, será um feito inédito. O fato é que, no balanço, tais resultados poderão influenciar uma análise demasiadamente otimista do desempenho do partido. Sem retirar os méritos de uma possível vitória de Zé Raimundo ou de Zé Neto, muito importante para a atual conjuntura, não considero como viável politicamente desconhecer mais um declínio eleitoral em nível estadual, do ponto de vista dos números e da tática. Esta, afinal, não se mostrou eficiente, pois, mesmo com o aumento do número de candidaturas próprias, não foi possível superar a tendência de queda evidenciada em 2016.

Na esquerda ainda, cumpre destacar o desempenho de PCdoB e do PSB. Os comunistas obtiveram cerca de 16 prefeituras, com destaque para a cidade de Jacobina. Os socialistas conquistaram 30, número próximo ao desempenho do PT, sendo uma das maiores a cidade de Irecê. O PDT conquistou cerca de 13 prefeituras. Sua situação em nível estadual é uma incógnita, pois, diante de seu acordo com o DEM na cidade de Salvador, há uma expectativa para um provável desembarque do governo do Estado, aderindo, portanto, ao campo de oposição.

Aliás, falando nos adversários do governador Rui Costa, a oposição ganhou alguma sobrevida eleitoral. PSDB, MDB, DEM, Republicanos tiveram juntos 73 prefeituras, contabilizando a capital. Cidades importantes passaram para a mão do grupo opositor, com destaque para Juazeiro e Santo Antônio de Jesus. O saldo político mais concreto, porém, dependerá dos resultados nas duas maiores cidades do interior em segundo turno.

Alguns analistas e interessados na política baiana se apressam a dizer que ACM Neto (DEM), o futuro ex-prefeito de Salvador, é um dos grandes vitoriosos das eleições baianas, entrando com

força para a disputa do governo estadual. Em linhas gerais, tendo a dizer que “sim” e que “não”. O “sim” reconhecendo o seu potencial eleitoral, especialmente na capital, e a possibilidade de uma oposição mais articulada nos próximos dois anos, do que em relação em 2018, marcado pela fragmentação e pela expressiva derrota eleitoral de seus candidatos para o atual governador Rui Costa. O “não” no sentido de chamar atenção para o fato de que não é possível pensar o futuro do Estado sem considerar ao menos três elementos: a) O potencial eleitoral do governador Rui Costa; b) O futuro de sua base, em especial, as definições acerca de quem assumirá a condição de candidato de situação em 2022; c) Os arranjos em nível nacional e a definição dos palanques no estado.

Eis algumas questões para os que acompanham a política baiana: haverá possibilidade de desembarque do PSD ou do PP em relação ao governo estadual, podendo alimentar o candidato de oposição? O PT cederá à posição na chapa majoritária? O governador Rui Costa se deslocará ao cenário nacional, na condição de presidenciável ou vice-presidenciável? Teremos três forças políticas disputando competitivamente o governo baiano em 2022? Perguntas complexas, com respostas também complexas e incertas. Mesmo próximo temporalmente, o caminho para 2022 pode apresentar muitas surpresas.

(*) Mateus Santos é historiador.


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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