Por Varlindo Nascimento (*)

Existe uma máxima no futebol que diz: “quem tem medo de perder perde a vontade de ganhar”. As últimas movimentações políticas dão conta de que o Partido dos Trabalhadores tem caminhado neste sentido, buscando novamente alianças ocasionais com setores golpistas e de direita sob a justificativa de garantir uma nova eleição de Lula em 2022 e objetivos menores nos estados. O encontro articulado por Nelson Jobim entre Lula e FHC é um exemplo simbólico desse processo.

Nessa mesma toada, na última quarta-feira (26/05), o ex-prefeito de Recife João Paulo Lima, que está retornando ao partido  depois de sair para se integrar ao bloco da Frente Popular comandada pelo PSB, se filiando ao PCdoB, declarou numa rádio local que “O PSB é aliado, por mais que tenha tratado mal o PT na eleição municipal do Recife”. O ex e futuro petista ainda afirmou que o essencial é derrotar Bolsonaro e que o PSB pode ser um aliado estratégico em Pernambuco.

Lamentavelmente a perspectiva de João Paulo só reproduz a lógica que prevalece na maioria do partido, a de que derrotar Bolsonaro é um imperativo, não importa de que forma nem com quem façamos isso. Só que o imperativo prevalecente tem deixado de lado o seguinte raciocínio básico: o cavernícola não chegou onde está sozinho, nem por obra do acaso. Na prática estamos vivendo uma espécie de luta para derrotar Bolsonaro sem dar conta de que estamos nos propondo a fazer isso ao lado de setores importantes do próprio bolsonarismo.

Dois exemplos locais aqui de Pernambuco, de onde falo, ilustram esse quadro. O primeiro deles o próprio João Paulo endossa quando diz que o PSB maltratou o PT na eleição municipal passada. Na verdade, o PSB do hoje prefeito João Campos não só maltratou o PT, como abriu mão de todo o pudor durante a campanha, reproduzindo todo expediente de fake news, uso da máquina, coerção eleitoral e etc., etc. Enfim, tudo aquilo que nos acostumamos a associar a natureza do movimento bolsonarista ganhou sua versão idêntica em Recife. O segundo exemplo ocorreu no último sábado, após a sintomática entrevista aqui comentada. Nos atos de rua que ocorreram em todo o Brasil contra a política de morticínio do governo federal, a Polícia Militar de Pernambuco usou da mais alta truculência contra a caminhada pacífica dos manifestantes pelas ruas do centro de Recife. O saldo da ação da PM até aqui conta, ao menos, a agressão com spray de pimenta à vereadora Liana Cirne Lins, e a perda do globo ocular por um transeunte que, sequer participava do ato, após ser alvejado por uma bala de borracha. Institucionalmente, o comando da Polícia Militar cabe ao governo do estado, e o chefe maior da polícia é o governador, que é do PSB. Ou seja, não há como dissociar uma ação truculenta, autoritária e violenta, típica do bolsonarismo daqueles que, aqui em Pernambuco, muita gente do PT vive a cortejar.

Existe de fato uma possibilidade inconteste de que o PT vença as eleições presidenciais do próximo ano. As contradições dentro da própria burguesia têm desarticulado o apoio de determinados setores dela à manutenção da opção protofascista aderida quase que unanimemente em 2018. O grande problema deles é que o modelo de Estado pretendido por Jair Bolsonaro é autofágico, seu plano de instalar um regime totalitarista consumiria inevitavelmente o poder real de setores importantes do consórcio golpista. É no sentido da autoproteção que devemos entender algumas das últimas movimentações do legislativo e, principalmente, do judiciário.

Todos esses arranjos dentro da direita trouxeram momentaneamente a possibilidade da participação de Lula nas eleições do ano que vem. O que tem que ficar evidente para nós é que nada disso corresponde a uma retomada do senso democrático no seio da burguesia, muito menos que a mudança de cenário é definitiva a nosso favor. O fato é que temos sido “beneficiados” por ações alheias às nossas e continuamos a reboque das vontades e desejos dos mesmos que golpearam Dilma, prenderam Lula e o retiraram das eleições.

Diante de tudo isso, as ações da maioria do partido, também em Pernambuco, indicam que entraremos de cabeça e com os olhos fechados novamente no jogo dos nossos algozes de ontem e potenciais algozes de amanhã. Nosso caminho deveria estar no sentido de aprender as lições do 29 de maio, delimitando o nosso campo político institucional, que é restrito e nunca foi diferente disso. Nossa ação política deveria ter como premissa uma forte aliança com o povo que hoje é levado à morte, quando não pelo vírus, pela fome. Transformações sociais, aquelas que defendemos em nossos discursos, só se alcançam a partir da tomada do poder real, e isso não conseguiremos nunca, jamais, estando ao lado do PSB em Pernambuco e do PSDB de FHC em nível nacional.

(*) Varlindo Nascimento é militante petista em Recife, bacharel em Geografia, pós-graduado em Sindicalismo e Trabalho e dirigente da tendência petista Articulação de Esquerda


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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