Por Paulo Sérgio de Proença (*)

Um gênero importante da produção literária do cristianismo primitivo foi o apocalipse, que é a revelação do que seriam os últimos acontecimentos da história. Os apocalipses se desenvolvem em linguagem cifrada, aparentemente como mecanismo de controle da recepção, por ser escrito de resistência religiosa e política. Uma de suas imagens centrais se relaciona a forças contrárias às de Deus: a besta está ligada ao exercício do poder e destinada a seduzir o maior número possível de pessoas, para o que conta com auxiliares: falsos profetas, anjos do mal e seguidores de diversa extração. No Apocalipse cristão, há bestas que emergem do céu e da terra, ou seja, não há apenas uma besta, pois a figura representa o poder do mal.

O capítulo 13 do Evangelho de Marcos é um sermão apocalíptico; no verso 13.22 Jesus fala que “falsos cristos e falsos profetas” enganariam […] se possível, os próprios eleitos”. Falsidade e engano estão em foco e podem ser entendidos em sentido amplo, aplicado a todos os que se empenham nessa finalidade, apesar de não serem considerados nem cristo nem profeta. É nesse sentido que caminham as observações a seguir expostas.

No Brasil, hoje, há uma convergência exagerada, insensata, pecaminosa, entre setores evangélicos e Bolsonaro, em um quadro social no qual a pregação política seduziu e atraiu uma aspiração religiosa que é a forte marca moralista, característica conservadora de ambos os lados. Alguns elementos dessa pauta são o kit gay, o casamento homossexual e a defesa da tradição, da família e da propriedade, velho mantra fascista resgatado.

Essa convergência catapultou votos de evangélicos que asseguraram a eleição de 2018 para o capitão, por meio de uma retórica conhecida (dos evangélicos): ataques às vezes injustos e desqualificação do Outro que é visto como ameaça. Na linguagem evangélica essa ameaça é nomeada demônio; na variedade política é comunismo (a propósito disso, é bom lembrar que os abolicionistas, no Brasil do século XIX eram acusados de comunistas!).

A fúria anticomunista escolheu Lula seu maior inimigo, merecedor dos ataques mais desleais e mais mentirosos veiculados por fake news produzidas por uma criminosa milícia virtual, que comporia o gabinete do ódio da administração bolsonarista. Por que Lula? Porque era a força a ser batida e porque ele ameaça as forças políticas hegemônicas ultraconservadoras. Lula, o PT e a esquerda em geral foram vítimas de um processo integrado entre legislativo, judiciário, mídia e interesses internacionais, como posteriormente foi comprovado.

O discurso pegou, resultado dessa perversa combinação; eleitores (maioria de evangélicos), não necessariamente bolsonaristas, votaram no capitão, por terem comprado o peixe pelo preço que estava sendo ofertado, sem pesquisa nem pechincha. Apesar da trajetória política controversa, da defesa do armamento da população, do assumido racismo contra mulheres, negros, indígenas, ciganos e minorias sexuais, o capitão se elegeu; ele, que tinha homenageado um torturador-anjo da morte da ditadura brasileira, o Coronel Brilhante Ulstra, por ocasião da votação do impeachment de Dilma Roussef.

E os evangélicos apoiaram o capitão!

Eles ficaram muito impressionados pela aparente conversão do militar, reforçada pela frequente presença em cultos de igrejas neopentecostais e de confissões tradicionais ultraconservadoras como a Igreja Presbiteriana do Brasil e por outros afagos politicamente calculados como a incorporação de evangélicos no ministério e a promessa de nomeação de um ministro ultra evangélico para o Supremo Tribunal Federal.

As águas correram, contudo. As iniciativas do governo não desmentiram as promessas de campanha. O capitão não estava lá “por brincadeira”, como ele admitiu na fatídica reunião do dia 22 de abril de 2019. Era preciso fazer a “boiada passar”. E a boiada passou: desemprego em níveis astronômicos; fome e miséria crescentes; desmantelamento de políticas e de instituições do Estado responsáveis pela implementação de programas de caráter social; militarização do aparelho burocrático; criminosa condução da política ambiental, para favorecimento de grileiros, com danos à terra, sacramento da criação; facilitação de aquisição de armas por civis; tensionamento constante com segmentos sociais e instituições da democracia; desrespeito permanente dirigido a pretensos inimigos políticos; nomeação de Sérgio Camargo, assumido reprodutor do racismo e defensor da supremacia branca racista, para a presidência da Fundação Palmares; não demarcação de nem um centímetro de terras indígenas e  quilombolas; ataques intensos à imprensa e a políticos de oposição; utilização de milícias virtuais para perseguir e difamar oponentes; desrespeito contumaz à Constituição; crimes políticos diversos apontados à farta pela imprensa e por cientistas políticos. A propósito, é bom lembrar que há de uma centena de pedidos de impeachment na Câmara Federal, que não caminham porque o presidente, Arthur Lira, aliado de Bolsonaro, não os inclui nas pautas de votação.

Tudo isso configura comportamento condenável, sob todos os pontos de vista, para um chefe de estado que não tem o mínimo compromisso com a ética nem com os cidadãos que dirige, a quem deveria conduzir para superação de obstáculos e conciliação de interesses. O cúmulo do absurdo se deu na condução da pandemia, que caminha para sacrificar seiscentos mil brasileiros, em sua maioria pobres: negras e negros; durante a crise sanitária, os porões do Ministério da Saúde regurgitaram corrupção na aquisição de vacinas, conforme indicariam as oitivas da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado Federa, enquanto os hospitais estavam abarrotados de doentes (no Amazonas, muitos não puderam respirar, como George Floyd, vítima da violência policial dos Estados Unidos de Trump) e os cemitérios acolhiam as vítimas da política atabalhoada, criminosa e genocida de um presidente que se diz evangélico.

E muitos evangélicos continuam apoiando o capitão!

Corridas essas águas, como é possível? Evangélicos leem a Bíblia; deveriam se lembrar de um trecho do Sermão do Monte, sobre os frutos que cada um produz, conforme registra Mateus 7.16-18:

16 Pelos seus frutos vocês os conhecerão. Por acaso se colhem uvas de espinheiros ou figos de ervas daninhas? 17 Assim, toda árvore boa produz frutos bons, porém a árvore má produz frutos maus. 18 A árvore boa não pode produzir frutos maus, e a árvore má não pode produzir frutos bons.

Esse trecho do sermão de Jesus desmascara ambos: o capitão e os evangélicos bolsonaristas. Assim, é muito difícil entender a efusão beatífica com que certos evangélicos celebram o capitão. E o sermão de Jesus? Como ajustá-lo a essa situação? A tarefa não é possível, nem à conhecida capacidade de elaborar torneios interpretativos de trechos bíblicos, característica dos evangélicos.

Aqui deve ser retomada a figura da escatologia[1], em conexão com as palavras de Jesus em Marcos 13 (alerta de Jesus sobre o engano) e em Mateus 7 (os frutos e as árvores). Os frutos do capitão e de seus seguidores são conhecidos: ódio, vingança, mentira (o Diabo é o pai da mentira), corrupção, violência, armas, milícias, morte, genocídio. Esses frutos nascem de uma árvore boa, por acaso? O capitão segue o evangelho? Na verdade, no fundo, no fundo, ele encarna a figura do anticristo, da besta apocalíptica, dimensão da escatologia cristã (ambos os sentidos do termo se aplicam ao caso).

O sustento ao projeto bolsonarista é apoiado pela maioria dos pastores, representados pelos que ocupam as redes midiáticas: Silas Malafaia, da Igreja Assembleia de Deus Cristo é Vida, com sua característica verborragia virulenta; Bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus; o missionário RR Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus; o bispo Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus. Curiosamente, esses nomes indicam amplitude totalitária, conjugada a um projeto de poder – econômico! Segundo levantamento feito pela revista Forbes, disponível na internet, esses senhores amealharam patrimônios milionários (bilionário, no caso de Macedo), em flagrante contraste com a pobreza dos fiéis que frequentam suas corporações religiosas. Trata-se de verdadeiros empresários da fé que têm projeto de poder para defender seus interesses, ocupando posições decisórias estratégicas do cenário político. Exemplos disso são a carreira do ex-prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (sobrinho de Edir Macedo) e a cada vem mais numerosa bancada da Bíblia, da Câmara Federal. Estão longe, com certeza, do ensino de Jesus que, dentre outros princípios, sobre isso, diz “Meu reino não é deste mundo” (João 18.36) e “Não ajunteis tesouros na terra” (Mateus 7.19).

Evangélicos, enquanto é tempo: é preciso acordar; é preciso enxergar a verdade bíblica, que Bolsonaro alega seguir, repetindo o versículo sobre a verdade. A verdade está vindo à tona. De fato, o versículo tão repetido por ele “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8.32) surtirá algum efeito; com certeza, será contrário ao esperado por esse senhor.

E os evangélicos continuarão apoiando o capitão, quando a Verdade for revelada?

(*) Paulo Sérgio de Proença é professor da Unilab, Campus dos Malês-BA


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.


[1] Palavra de origem grega (cujo radical é eschat- [escat-]) que diz respeito ao estudo das últimas coisas; em português, passou a ser homônima de outro termo da mesma língua, que tinha radical quase igual (skat- [skat-]) que, por sua vez, se refere a fezes. Assim, escatologia tem sentido duplo: um, vinculado à Teologia, se refere ao estudo do fim dos acontecimentos históricos; o outro sentido se refere a produtos do baixo ventre. A propósito, besta tem, igualmente, ambiguidades.

 

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