Por Fausto Antonio (*)

Epigrafia de encruzilhada entre dois identitarismo

O movimento negro ongnizado é fruto tão-somente de uma política identirária? As forças armadas, espaço de brancos adestrados pelo imperialismo, são produções identitárias? A polícia federal controlada pelo FBI e CIA é uma ordem identitária da branquitude ? As empresas brancas de comunicação, sucursais do imperialismo, são identitárias? Desconsiderar a cor da burguesia brasileira não historiciza ou empiriciza (naturaliza o branco (a) universal) o identitarismo burguês?

Excetuando o ato de 20 de novembro de 2021, os movimentos negros não realizaram ações à altura das necessidades da população negra e da luta da classe trabalhadora. Nas chacinas, genocídio de negros, não tivemos respostas e muito menos mobilizações organizadas de grande peso e alcance. A mesma crítica se aplica aos coletivos de negros (as) ( ou antirracismo) dos partidos da esquerda brasileira, CUT e categorias sindicais.

Por outro lado, a avaliação dos movimentos negros ou da luta contra o racismo em 2021 exige uma visada retrospectiva. A base de partida para a análise passa pelo golpe branco de 2016 que, sob o comando direto do imperialismo e burguesia branca brasileira, derrubou o governo Dilma (PT). A natureza racista do golpe de Estado é o ponto nuclear e que deveria orientar a organização dos movimentos negros para conter o golpe e igualmente derrotá-lo no seu desenvolvimento em marcha.

No processo golpista, iniciado com o mensalão (2012) e num crescendo com as manifestações de ruas ( 2013 ), que foram capturadas pelas agências do imperialismo, pela direita e pela extrema direita, os movimentos negros não atuaram de modo centralizado e na contramão da operação lava jato e do antipetismo. Não tivemos atos contra o golpe e contra a operação lava jato organizados e deliberados publicamente, a partir de plenárias, pelos movimentos negros.

Repetindo a toada da esquerda branca e/ou branqueada, os movimentos negros, o que seria fundamental e é até o presente momento, não caracterizaram o golpe de Estado de 2016 como um golpe dado pela branquitude, a burguesia branca privilegiada pelo racismo à brasileira e/ou capitalismo à brasileira, que não será atacado e derrotado sem a compreensão da cor da classe e/ou dos privilégios para brancos (as).

Os movimentos negros ficaram paralisados ou presos às trincheiras do 20 de Novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, e do 13 de Maio, Dia Nacional de Denúncia e Luta contra o Racismo. Outro grave problema foi a ausência de articulação e campanha contra o racismo, a violência policial e a organização e luta para libertar o ex-presidente Lula; não houve nem um ato chamado e bancado politicamente pelos movimentos negros, o que inclui os coletivos de negros (as) dos partidos de esquerda, CUT e categorias sindicais.

Setores expressivos da esquerda querem os negros(as) na base e nos atos, mas não dão centralidade para a luta contra o racismo, que se efetiva com a organização dos trabalhadores (as) e principalmente do contingente negro para a luta conjugada contra o racismo, contra o capitalismo e contra o imperialismo; sem a exclusão das categorias raça e racismo ou sem a redução ao dogma da classe sem cor e/ou raça.

É para dar invisibilidade aos conceitos de raça e racismo que há a valorização adjetiva do identitarismo, que exclui do debate o identitarismo branco e burguês.

O chamado identitarismo, no que concerne ao racismo, é confusamente entendido e de difícil solução. Não é por outra razão que o imperialismo, na política de espectro total, tem a seu serviço dois identitarismos. Estamos, a rigor, entre dois identitarismos. De um lado, não é uma questão adjetiva, há os movimentos negros ongnizados, na realidade, comandados pelas agências financiadoras de propostas de inclusão utópica na sociedade racista e capitalista, o que resulta na falsa inclusão e/ou na inclusão apenas simbólica ou nos limites culturais e políticos sistematizados pela branquitude brasileira e imperialista; domínio do branco universalizante, racista. A complexidade é que estamos entre dois identitarismos, no campo da negrada o controle é feito pelo poder econômico e pelas agências que sustentam ongs inofensivas do ponto de vista das mudanças antirracismo, anticapitalismo e anti-imperialismo.

A outra base da política identitária vem da esquerda pequeno burguesa, que se afirma muitas vezes revolucionária, mas é expressão do identirarismo burguês, que se concretiza pela total aversão aos conceitos ou às categorias raça e racismo no entendimento de como se define o funcional o racismo e o capitalismo no Brasil. Rigorosamente, a aversão aos conceitos de raça e racismo é a reprodução do racismo, que desconsidera a existência de privilégios para brancos(as), o que é uma afronta ao antirracismo, e refunda o mito de democracia racial.

Sem caracterizar o golpe como branco, no processo em curso, o que inclui 2021, os movimentos negros e o campo antirracismo não realizaram a tarefa central, que é organizar a luta na conjuntura do golpe, negritando que ela, a conjuntura, reflete a estrutura racista materializada pela burguesia branca ( É preciso foto? Ou o desenho?).

Agora, 2021, e dentro dessa realidade dada pelos dois identitarismos, sobram as discussões isoladas de questões de linguagem e de termos ou conceitos. Os movimentos negros sempre questionaram a invisibilidade da negrada nos conceitos; no apagamento do signo negro, e no contexto social. Não é a interdição do debate ou a consagração do pensamento único; é um instrumento por cujo meio se questiona o universalizante branco, racista e intocável. O identitarismo burguês branco é o núcleo dessa ordem totalitária, não é o chamado identitarismo negro. É preciso discutir tudo, qual o problema? O identirarismo branco universalizante, totalitário, não permite.

O identirismo pequeno burguês não pretende enfrentar o racismo a partir do seu núcleo, isto é, dos privilégios para brancos (as). Além dessa realidade, sobram as perfumarias e o marxismo como dogma que, mesmo diante da burguesia branca brasileira e do golpe de Estado branco, opera a análise e a politica sem considerar a cor da classe. Repito: é preciso foto, desenho da burguesia branca brasileira?

(*) Fausto Antonio é professor da Unilab – Bahia , escritor, poeta , dramaturgo e autor, dentre muitas outras obras, dos romances Exumos , Memória dos meu carvoeiros e do infantil No Reino da Carapinha

Este post tem um comentário

  1. Luciene Maria Malta de Souza Figueiroa

    Artigo instigante. Cabe um bom debate, inclusive na Página 13, para começar.

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