Foto: Paulo Pinto/Agência PT

 

Por Wilma dos Reis*

 

Nos dois últimos séculos, os movimentos feministas e de mulheres avançaram e muito na conquista de direitos. Isso é reflexo da luta de muitas mulheres, que ousaram questionar e quebrar paradigmas.

Obviamente que lutamos por mais, por isso continuamos na luta, que não se resume em assumir cargos de poder e decisão ou mesmo aos direitos sexuais e direitos reprodutivos, mas também inclui a disputa sobre a sociedade que queremos.

Com a apropriação de parte de nossas pautas por movimentos pró-capitalismo, estamos enfrentando dificuldades na construção dos atos do 8 de março em diversos estados, principalmente por divergências quanto a concepção de feminismo que queremos construir no Brasil. Muitas militantes, inclusive do Partido das/os Trabalhadores, insistem em construir a política pela via liberal ou mesmo de forma pragmática, sem debater os reais problemas das mulheres em toda a sua diversidade.

O 8 de março é dia luta desde sua criação, e em 2018 não há o que comemorar diante do avanço do neoliberalismo reestabelecido em nosso país, após o golpe entre outras coisas patriarcal contra a primeira Presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, em 2016, bem como contra a classe trabalhadora. Michel Temer, desde que assumiu de forma ilegítima a presidência, vem operando junto com o Congresso Nacional a retirada ininterrupta dos direitos conquistados pela classe trabalhadora nos últimos 90 anos e o desmonte do Estado brasileiro, via privatizações e congelamentos dos investimentos públicos em serviços essenciais. Faz isso por meio de barganhas com empresários, latifundiários, mercado financeiro e capital internacional, que ampliam o controle sobre nossos recursos naturais e estatais.

Simone de Beauvoir disse uma vez: “Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados“. Fato! Com o desmonte das políticas públicas e sociais, dos serviços e equipamentos públicos, lidamos com o aumento dos feminicídios e de outras formas de violência, como a doméstica e sexual.

Assim como a retirada dos direitos, seja pelo acirramento da precarização do trabalho e seguridade social, seja pelo controle das suas vidas e corpos. Dentre os projetos em tramitação, temos o PL 5069/13 e a PEC 181, ambos prevendo o acirramento da criminalização das mulheres que recorrem ao aborto clandestinamente e legalmente, já que o último prevê a proibição do que já está previsto no Código Penal desde 1940: o abortamento nos casos de estupro, de risco de morte para a mulher e nos casos de anencefalia do feto.

Outra proposta em discussão, que merece nossa atenção e vigilância, é a Reforma da Previdência (PEC 287), que prevê o aumento da idade mínima de aposentadoria para as mulheres, de 60 para 62. Sabemos que, historicamente, as mulheres são responsáveis, quase que exclusivamente, pelo trabalho doméstico e de cuidados, cumprindo várias jornadas de trabalho. Como apontado, não podemos nos eximir de estar nas ruas no dia 8 de março e nos demais dias do ano (como sempre foi), resistindo aos retrocessos contra a classe trabalhadora e defendendo nossos direitos.

 

* Wilma dos Reis integra o coletivo nacional de mulheres do PT

 

Fonte: Página 13, n. 182, mar. 2018

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