Em 10 de fevereiro de 1980, nascia a maior experiência política da História das Esquerdas Brasileiras.  

Por Mateus Santos (*)

Em Apologia da História, Marc Bloch propôs uma nova definição ao estudo do passado ao caracterizá-lo como “a ciência dos homens no tempo”. Assim, por meio de dois termos-chave, o francês reconhecia o papel dos indivíduos ao longo da trajetória das sociedades, sendo este uma das maiores questões para aqueles que se debruçariam ao olhar para “trás”.

Ao considerar o tempo como uma variante fundamental para a compreensão dos seres humanos, podemos aqui pensar na transitoriedade das coisas, sejam elas ideias, pessoas ou mesmo objetos. Afinal, consagrou-se, ao longo da História, a premissa de que os homens e mulheres são filhos de seu tempo, isto é, a crença de que um sujeito corresponde, num plano mais ampliado, a um conjunto de ideias e práticas que, em alguma medida, estão relacionadas a algum coletivo.

É sobre isso que quero me deter. Falarei mais precisamente de um 2020. Um ano em que, no plano da política partidária, mais precisamente no interior do Partido dos Trabalhadores, surgem discursos e práticas que atestam a uma suposta necessidade de atualização programática, mas também semântica, convergindo para uma reestruturação radical de uma organização que está completando 40 anos de existência.

De Sion ao Rio de Janeiro, cidade que sedia nesse final de semana as festividades, muita coisa mudou. Construímos sindicatos e coletivos, ganhamos prefeituras, governos estaduais e a presidência, e, acima de tudo, conquistamos corações e mentes de uma parcela dos setores populares. A estes, ainda somos a esperança de um Brasil que possa fugir da regra de sua própria história, isto é, um país que supere as desigualdades sociais, raciais e de gênero.

De lá pra cá, também colecionamos algumas derrotas. A mais recente, o golpe de 2016 e a eleição de Bolsonaro, hoje nos colocaram nesta situação de reorganização, fazendo da volta ao passado uma condição necessária para avaliação dos erros e acertos ao longo desse tempo. Hoje, diante do que se considera como a busca pela atualização do debate petista para a sociedade brasileira, algumas questões parecem centrais numa conjuntura que pede clareza e real compromisso do partido para com os trabalhadores do Brasil.

Não há dúvidas de que a sociedade brasileira de 2020 não é mais aquela em que os primeiros tijolos petistas foram enfincados na história das esquerdas brasileiras. Em 1980, na luta contra a ditadura, homens e mulheres que fundaram esse partido acompanhavam de perto as transformações na conjuntura internacional e nacional. Uma “década perdida” do ponto de vista econômico, mas vitoriosa do ponto de vista do surgimento de novos atores na política nacional.

Para aquela sociedade, o recém-nascido PT propunha uma espécie de casamento entre democracia e transformação social. Na construção de sua utopia, o chamado socialismo petista, diversos agentes políticos contribuíram em termos de formulação e ação. Homens e Mulheres, brancos e negros, intelectuais e sindicalistas, religiosos e ateus, enfim, todos estes e mais outros expressavam um caldo politico heterogêneo.

Para esta mesma sociedade, falava-se em classe social, em burguesia, em opressão e na superação capitalista. Na narrativa petista, a marcha da História teria que se caminhar para a conquista do poder pelos trabalhadores, outro elemento fundamental de nossa semântica e de nossa ação política.

Ao contrário do que defendia Francis Fukuyama, 1989 ou 1991 não simbolizaram o fim da História e nem tampouco das utopias. A crise do socialismo real, a queda da URSS, a consolidação da globalização e do neoliberalismo não expressaram, de imediato, uma ruptura das tradições de esquerda e nem em sua capacidade de ler objetivamente o mundo. Mais do que nunca, estudar o capitalismo continuou a ser fundamental, bem como demarcar nossa oposição em relação a ele.

Em meio às contradições de governar diante de uma situação de ofensiva do inimigo, o capital, e as tentações de seguir políticas de acomodações à Nova Ordem, como visto em muitas tradições socialdemocratas, continuou o PT a ser um guarda-chuva de diferentes ideias e concepções de Brasil, de Partido e mesmo de mundo, unidas ainda sob o manto de ser a principal legenda de oposição real ao sistema que, pouco a pouco, demonstrava o quão feroz e predatório poderia ser aos trabalhadores.

As transformações nas esquerdas e nos movimentos sociais não se resumiram apenas ao que aconteceu no interior do PT, ainda que o foco principal aqui seja a compreensão desse partido. Ao demarcar-se enquanto uma experiência distinta daquelas existentes no interior da História das Esquerdas Brasileiras, apresentar uma nova política parece ser um dever que atravessou a trajetória daquele partido. Por isso, mudança nas concepções de importantes lutas acabaram por necessariamente tocar as proposições petistas.

Pensemos brevemente em dois movimentos. A resistência negra é um aspecto que atravessa a História do Brasil. Luiza Mahin, Zumbi, André Rebouças e tantos outros são saudados por suas caminhadas de luta ao terem dito um “não” quando todas as condições materiais davam um “sim” para o racismo e a desigualdade estrutural. A questão racial esteve no centro de diferentes projetos de “Brasis”, sendo indispensável seu entendimento para a organização de qualquer tipo de intervenção social em grande escala no país.

Por meio de um Movimento Negro organizado, seja em fileiras partidárias ou suprapartidárias, o debate racial não teria mais como ser tratado como questão acessória. No campo intelectual, quando pensamos, por exemplo, as leituras sobre a escravidão no Brasil, mudanças na concepção sobre “o ser escravo no Brasil” tiveram nos anos 80 um período quase que de transição. Sem negar ou reduzir o que foi essa mancha do país, novas pesquisas contribuíram para dar aos negros escravizados um lugar na História, isto é, o direito de terem suas trajetórias reconhecidas, tornando a interpretação sobre este processo mais complexa.

Por meio de um Movimento LGBT também organizado, com influência das tradições de esquerda, a luta contra a discriminação ocupou também um merecido espaço no debate sobre a superação às opressões. Criminalizados e Patologizados, os LGBTs tiveram também que buscar o seu lugar na História e no seu presente. Resistindo às tentações individualistas e as perspectivas liberais de trato à questão, muitos companheiros e companheiras demonstraram a intrínseca relação entre conquista do poder, transformação social e superação do preconceito. No processo de reorganização dos Movimentos Sociais e dos Partidos de Esquerda, os LGBTs não foram apenas novos atores. Estes foram verdadeiros e bons abalos também às estruturas progressistas, na medida em que promoveram o desafio desse próprio campo superar seus preconceitos.

Após três derrotas seguidas e mudanças em nossa estratégia política, chegamos ao Governo Federal. As cenas daquele 1 de Janeiro de 2003, ao ver Lula e milhares de militantes no centro político do país, marcam ainda a memória e a História de todos aqueles e aquelas que acreditaram nesse projeto. Com Luiz Inácio, o primeiro presidente operário da História, tivemos a oportunidade de ser um hiato na história do Brasil, um pesadelo para a trajetória de um país de patrões.

Entre contradições e realizações, mudamos o país. Programas de transferência de renda, extensão do ensino superior, uma “Política Externa ativa e altiva”, construção de programas para a Juventude, política de cotas e tantas outras medidas que poderiam aqui ocupar parágrafos e parágrafos fizeram parte de um legado eminentemente petista. No interior das estruturas da democracia burguesa, do discurso republicanista e sem romper com o neoliberalismo, as políticas da Era Lula e Dilma foram o mais próximo que o Brasil chegou de ser um ator internacional de grande destaque e de apresentar um modelo que convergisse crescimento econômico com distribuição de renda.

Falamos de “empoderamento” dos negros, das mulheres e dos LGBTs. Um momento favorável para “sairmos do armário” das opressões, isto é, demonstrar quem somos. Nossa cor, nossa cara e nosso jeito foram mais visíveis na construção da identidade brasileira. A imagem do Brasil dos senhores de engenho sofreu com alguns abalos. Os mais de 80% de aprovação do governo Lula, o presidente mais popular da História, expressava a confiança dos brasileiros em um país que aparentemente dava certo.

O final dessa narrativa infelizmente, como bem sabemos, não foi feliz. De 2013 pra cá, o Brasil da confiança, do carro novo, da casa reformada e das viagens pelo país e para o exterior, transformou-se no país da desestabilização política, do aprofundamento da crise econômica e da política aberta de criminalização do nosso partido e dos demais companheiros e companheiras da esquerda brasileira.

No esforço de destruírem o PT e as conquistas sociais, setores de direita e extrema-direita (inclusive muitos daqueles que um dia ganharam muito conosco) colocaram os brasileiros e brasileiras num altar de sacrifício. Neste processo, valeria apena chegar às últimas consequências, como retirar investimentos do país, investir na precarização do trabalho e defender medidas duras contra os trabalhadores. No âmbito do discurso, foi a vez do conservadorismo, outrora na defensiva, assumir outra posição, também “saindo dos seus armários”. Na ocasião, aqueles que foram beneficiados direta ou indiretamente pelos 13 anos de PT se tornaram alvos diretos dessa nova cultura de mobilização que tomou às ruas do país.

Antipetismo era também sinônimo de anticomunismo, mas também carregava consigo preconceitos estruturais de uma sociedade forjada no racismo, no machismo, na LGBTfobia e em tantos outros instrumentos de opressão. Até hoje, os eventos que tomaram o país nos últimos 5 ou 6 anos ainda são alvos de bastante controvérsia. O fato é que, diante de tamanha ofensiva, a vida do PT esteve sob diferentes impasses. A primeira pergunta que certamente eu e você fizemos foi: o que deu de errado?

Em pouquíssimo tempo, doses de esperança se transformaram em medo e ódio. Parte da classe trabalhadora e dos setores médios, diretamente beneficiados pelas transferências de renda, abandonaram nossas bandeiras. Os discursos em torno do empoderamento acabaram sendo usados contra nós. Novos atores, também negros, LGBTs e indígenas, entraram na cena política brasileira, só que ao lado do movimento conservador.

O socialismo, aquele conceito central dos primeiros termos, quase desapareceu de nossas relações. Se por um lado havia aqueles que defendiam o aprofundamento das nossas formulações a partir de um horizonte de rompimento com o capitalismo, por outro, setores do partido, temiam o uso da palavra, ainda mais num momento em que esta se tornou cada vez mais recorrente, por incrível que pareça, nos discursos da direita.

A impopularidade do governo Temer não foi o suficiente para promover um retorno daqueles e daquelas que começaram a rejeitar nosso partido. Ao contrário, com Bolsonaro, as elites deram prosseguimento ao seu projeto de país. Com oscilações de popularidade e diante do impacto de seu governo para o sistema político, chegamos hoje aos 40 anos do PT num clima de incerteza. Fazendo menção à tese da CNB para o 7ºCongresso, em outras palavras, não está claro o que acontecerá em 2022, se a esquerda ou a direita ganharão as eleições presidenciais.

Se obviamente não sabemos qual será a correlação de forças daqui à 2 anos, o que precisamos certamente é discutir e trabalhar a partir do hoje. E, no agora, o que se coloca são as posturas a serem adotadas pelo Partido dos Trabalhadores em tempos de guerra aberta das elites aos setores populares.

Em termos de discurso, a sociedade brasileira de 2020 não é a mesma de 40 e 30 anos atrás, mas também não é igual àquela de 2000 e 2010. Hoje temos o desafio de reaproximarmos dos setores evangélicos, de parte da juventude que aderiu ao bolsonarismo, de negros e negras, LGBTs e mulheres que estão imersos na crise de representatividade, do pequeno agricultor e tantos outros grupos que são fundamentais para um novo projeto de Brasil.

Retomar os laços significa aprofundar canais de diálogo e criar uma identidade política comum. Para isso, precisaremos ouvir. Compreender, no sentido mais profundo da palavra, as demandas e as concepções de mundo de uma sociedade diversa. Mas, acima de tudo, não podemos perder nosso horizonte. Este deve estar atrelado a uma dicotomia que jamais será superada, pois esta é a essência do capitalismo. Na nossa marcha da História, a distinção entre oprimidos e opressores é fundamental. Não podemos temer em desnaturalizar, desestabilizar e desconstruir as estruturas discursivas e os atos que fundamentam uma sociedade patriarcal e racista.

Na luta contra o aprofundamento das desigualdades, o uso da categoria classe se torna ainda mais útil. Conceitos possuem história. Alguns deles podem serem ressignificados, conforme o histórico das suas aplicações. Para nós, penso que a classe pode ser instrumento de reconhecimento e desenvolvimento de um agente social coletivo e heterogêneo. Para uma verdadeira Revolução Brasileira, nossos instrumentos serão também as consciências. A construção de um pertencimento comum às classes do explorados, demonstrando como esta se faz e refaz a partir das suas diferenças, é uma parcela importante deste processo.

A classe não é abstrata e nem alvo de interpretação mecânica. Ela corresponde, sobretudo, à agentes históricos, homens e mulheres, que se encontram subjugados, do ponto de vista econômico, político, cultural e mesmo social. Na mudança do discurso petista, precisamos reafirmar nosso lugar de pertencimento entre os mais pobres e nossa vocação de retirar-lhes dessa condição.

(*) Mateus Santos  é militante petista, da JAE-BA e membro da Executiva da JPT Bahia

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