Por Wladimir Pomar (*)

Convenhamos que o PT, com apenas 40 anos de existência, realizou alguns feitos que eram impensáveis para as diversas correntes de esquerda que se tornaram presentes na história brasileira desde a segunda década do século 19.

Por exemplo, tendo em seu seio correntes anarquistas, trotskistas, social-democratas, comunistas e outras, que haviam sido em grande parte destroçadas durante a ditadura militar, o PT demonstrou uma inusitada capacidade eleitoral nas primeiras eleições presidenciais pós-ditadura e, nas primeiras décadas do século 20, foi alçado ao governo central por quatro eleições seguidas. Algo que as teorias da maior parte dessas correntes jamais supuseram.

Na primeira dessas eleições vitoriosas, em 2002, o PT viu-se diante de uma nação quebrada por mais de 20 anos de crises econômicas e débitos financeiros internacionais. Como declarou na ocasião um matreiro soba político burguês, tal quebradeira era um bom teste para medir a capacidade dos trabalhadores em gerenciarem a economia. Ele acreditava que o PT ruiria no meio do caminho de sua primeira experiência real.

No entanto, para demonstrar sua capacidade, o PT conseguiu aproveitar quase uma década favorável da situação internacional e realizar uma política governamental que, mal ou bem, elevou o salário mínimo, reduziu as desigualdade sociais, induziu algum crescimento econômico, e se esforçou em ampliar os direitos democráticos e a participação popular nos destinos do país, embora de forma limitada.

No início da segunda década do século 20, o governo do PT havia saldado as dívidas do país com o FMI, apresentava 380 bilhões de dólares em reservas cambiais e ampliara o comércio externo do país. Paralelamente, cifrava esperanças de que a melhoria da capacidade de consumo dos pobres e miseráveis seria capaz de induzir as burguesias nacional e internacional a investirem no processo produtivo nacional, industrial e agrícola. E acreditou que as poderosas e destrutivas ondas da nova crise financeira mundial capitalista, desencadeada em 2008, apenas bateriam na economia brasileira como pequenas marolas.

Erroneamente, tinha em vista o sucesso de suas políticas sociais sobre a situação econômica interna e supôs que a aquela crise faria apenas pequenos estragos, a serem facilmente corrigidos. Foi com essa mesma visão ilusória que o governo dirigido pelo PT enfrentou as manifestações sociais de 2013 e, após 2014, resolveu aplicar uma política neoliberal de choque fiscal, o que piorou ainda mais os estragos que a crise mundial vinha causando à economia brasileira e às políticas sociais.

Paralelamente, nesse momento começaram a ficar evidentes alguns outros defeitos graves na ação das direções petistas, como o desmanche dos núcleos de base, o desmonte do sistema de educação e formação política, e a prioridade absoluta para o trabalho institucional nos parlamentos e governos municipais, estaduais e nacional.

Em conjunto, esses defeitos criaram um imenso vácuo não só nas relações entre quadros e militantes petistas, mas também e principalmente nas relações de todos com suas principais bases sociais, os trabalhadores assalariados, os camponeses sem terra, os desempregados e os setores médios de pequenos proprietários.

Eles criaram um verdadeiro fosso na relação de aprendizado, organização e luta dos militantes e quadros petistas com aquelas bases sociais. E, para piorar, as direções petistas foram incapazes de analisar com frieza o que realmente estava em jogo quando teve início a Operação Lava Jato. Avaliaram tratar-se unicamente de uma campanha lawfare contra o PT. E que, embora tudo devesse ser apurado rigorosamente, a luta contra a corrupção não deveria fazer parte do programa político do partido.

Ou seja, não tiveram a sensibilidade de analisar adequadamente a aversão do povo brasileiro à corrupção sistêmica das classes proprietárias e de seus representantes políticos. E foram incapazes de entender que aquela operação se dispunha a cortar na carne da própria burguesia para demonstrar isenção e legalizar seu ataque destrutivo à existência do PT como organização partidária popular capaz de dirigir o governo nacional.

Em consequência, foram incapazes de adotar políticas consistentes para disputar a direção da luta contra a corrupção e corrigir deslizes também cometidos por membros do partido. Tal incapacidade é, ainda agora, uma dívida com a maioria do povo brasileiro, dívida que continua pendente e que deve ser saldada se o PT quiser voltar a disputar a direção política, social e econômica do país.

Mesmo porque a experiência histórica de 14 anos de governos nacionais petistas também demonstra que tais governos não podem ficar restritos à luta pela redução das desigualdades, pela transferência de rendas para os pobres e miseráveis, pela elevação do salário mínimo, pela ampliação da democracia formal e pelo aumento restrito da participação popular nas questões políticas.

O desenvolvimento econômico, tendo por base o crescimento industrial, complementado pelo desenvolvimento científico e tecnológico, é condição chave e fundamental para o crescimento da riqueza nacional e para a adoção das políticas de redução das desigualdades. Apesar disso, ele não foi tratado pelo PT como questão estratégica chave. O que imporia, em sentido totalmente contrário ao neoliberalismo, uma presença ainda mais forte do Estado na economia, não só como financiador de projetos empresariais e de infraestrutura, mas também e principalmente como um sistema de múltiplas empresas estatais concorrentes, entre si e com as empresas privadas.

Na verdade, só com empresas de propriedade estatal, atuando e concorrendo amplamente no mercado, o Estado teria condições reais de administrar positivamente a transferência de inovações tecnológicas externas a custo mais baixo, orientar o processo produtivo de geração e distribuição da riqueza de forma menos concentrada, e criar condições favoráveis para elevar a oferta de empregos e a transferência de rendas para os mais pobres.

É evidente que um governo petista que empreenda esse tipo de política não estará totalmente livre das crises regionais e mundiais capitalistas, nem das críticas globais dos financistas neoliberais. Mas a experiência internacional de vários países em condições idênticas às do Brasil tem mostrado que, com tais políticas, eles criaram condições mais firmes para enfrentar as crises e evitar os saques dos financistas estrangeiros.

Também é lógico que um governo de esquerda desse tipo seria acusado de fazer alianças com as elites burguesas e poderia mesmo cair nessa esparrela, como fizeram governos social-democratas em países da Europa. No entanto, isso não é uma lei geral. E não é impensável que um governo de esquerda possa combinar empresas estatais e privadas no crescimento econômico, criando um ambiente econômico favorável para avançar na ampliação da democracia e na criação de condições mais favoráveis para tentar reformar o poder de Estado.

De qualquer modo, se houve chances de disputar e conquistar o governo central por via eleitoral, foi uma estupidez política não tentar fazer com que, para começar uma mudança real nas condições de vida da maior parte da população, o governo de esquerda se empenhasse em fazer com que o Estado ganhasse capacidade produtiva real de gerar riqueza, de modo a redistribui-la sem cair na armadilha tributária. Infelizmente, na experiência de mais de uma década de governos petistas, tal política sequer foi considerada e não se ouve qualquer dirigente petista fazendo referência a ela.

Em tais condições, uma revisão política que tenha como eixo a superação dos erros cometidos pelo PT nesses anos de sua existência e, como base, a retomada de sua forte ligação e inserção nas camadas populares da sociedade brasileira, impõe como uma das condições básicas tratar das formas de desenvolvimento econômico e social para enfrentar com sucesso o projeto obscurantista, autoritário e neoliberal do clã Bolsonaro.

O que demanda um esforço comparável ao que foi despendido para sua fundação e organização, durante os anos 1970 e 1980. Mesmo porque, se o conjunto da militância do PT não for capaz de realizar tal esforço, esse partido corre o risco de se tornar apenas um evento histórico interrompido prematuramente. Os sinais dessa possibilidade já estão presentes de diferentes formas e é impressionante que eles não façam parte das avaliações que inúmeros dirigentes petistas expressam em suas entrevistas públicas e em seus artigos de comemoração dos 40 anos de existência do partido.

(*) Wladimir Pormar é escritor e jornalista

Este post tem um comentário

  1. Renato Dagnino

    Comentário sobre o artigo “40 anos de PT”

    Excelente este texto!

    Concordo com quase tudo!

    É essencial e urgente que a esquerda se preocupe com “… a retomada de sua forte ligação e inserção nas camadas populares da sociedade brasileira, impõe como uma das condições básicas tratar das formas de desenvolvimento econômico e social para enfrentar com sucesso o projeto obscurantista, autoritário e neoliberal do clã Bolsonaro.”

    Mas como essa “retomada” supõe “… ligação…” com as “… camadas populares…” que lhes permita construir materialmente o futuro que elas merecem (e nós também desejamos), acho que faltou uma coisa.

    Lamentavelmente, como outros companheiros do PT que também respeito muito, o Vladimir sequer menciona a Economia Solidária (baseada na propriedade coletiva dos meios de produção, na autogestão e na cooperação e solidariedade) como uma das estratégias para lograr o desenvolvimento – mais além do crescimento – econômico que a esquerda deve implementar.

    Tenho procurado chamar a atenção para que ao lado da estratégia do “emprego e salário”, que é como sintetizo grosseiramente a proposta que eles apontam, a esquerda retome a estratégia do “trabalho e renda” cuja implementação foi irrefletidamente (e, no meu entender, de forma ruinosa) abandonada.

    A primeira estratégia, que depende das empresas privadas (e seus proprietários ainda interessados em ganhar dinheiro produzindo bens e serviços) é evidentemente necessária. Mas é para mim evidente também que ainda que possa voltar a ser bem-sucedida, ela não dará conta do tamanho do rombo social e econômico, do sacrifício imposto à classe trabalhadora e da bomba política que estes dois aspectos implicam.

    A segunda não gera emprego, e sim trabalho em empreendimentos solidários baseados na propriedade coletiva dos meios de produção, na autogestão, na cooperação e na solidariedade. E não paga salário, ela gera renda na mão dos seus integrantes que, organizados e capacitados com o conhecimento que necessitam, poderão rapidamente disputar os 18% do PIB que o Estado despende junto às empresas, mediante a compra pública, para implementar suas políticas públicas.

    Gostaria muito de saber a opinião do Vladimir e dos companheiros que me leem sobre esse tema que tenho abordado em várias oportunidades

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