Página 13 divulga artigo escrito por Adalton Mendonça, militante petista, sobre os rumos da esquerda brasileira.

 

Um novo caminho para a esquerda

 

A atual ampliação dos antagonismos de classe é o momento para complexificar a arena de disputa ideológica. Esta polarização tem um lado positivo que deve ser ampliado: algumas máscaras caem, tanto dentro quanto fora dos partidos.

 

Observamos novas filiações partidárias mais ideológicas e menos fisiológicas. O fortalecimento da esquerda socialista, combativa e democrática que cresce em tempos de guerra e combate o velho coronelismo, inimigo da democracia participativa e da transparência. Enquanto a chamada esquerda namastê começa a perder espaço ao destilar um moralismo insuportável e alianças assimétricas, nasce uma nova esquerda. Aprendemos em tempos de ilusões perdidas que é impossível fazer alianças com aqueles que não gritam Lula Livre.

 

Fora do campo das esquerdas, a extrema-direita vem executando movimentos de renovação nos seus quadros e formando jovens lideranças, alguns infiltrados em partidos de centro-esquerda, os chamados “cavalos de tróia”. Parcela da esquerda já notou e sabe que alianças e coalizões com a burguesia não são mais viáveis, visto os erros do passado.

 

Nosso sistema político vive uma crise profunda e por isso alianças políticas poderão parecer mais acordos de paz numa série de reuniões, como foi o de Oslo e nãos mais as alianças pragmáticas do passado. Daí a necessidade interna de um partido mais ideológico e de retorno às raízes. A necessidade externa de unir-se a outros partidos de esquerda que não abandonem as classes trabalhadoras em tempos de guerra. Urge também pensar em novas formas de mediação, na possibilidade ou não de definir questões específicas e gerenciar conflitos.

 

Sabemos que toda extrema-direita quando chega ao governo, mais cedo o ou mais tarde, adota medidas ultraliberais e impopulares. Sua intenção sempre foi exterminar as esquerdas. Se o partido estivesse preparado não teríamos colocado nosso país no caminho da destruição com o golpe de 2016.

 

Quando a esquerda se deixa domesticar, faz bons diagnósticos, mas deixa de elaborar novas propostas preventivas para combater essa extrema-direita. Falar em democracia participativa, protagonismo popular e em economia política baseada no financiamento e investimento é relativamente fácil. Ouvimos esses discursos há mais de 30 anos, falta o “como”, quando estamos em tempos de guerra. Defender pautas identitárias continua sendo uma tática interessante e necessária, mas temos observado que isoladamente não resulta em votos para pleitos majoritários.

 

Fazer alianças, mesmo que “calcadas em um programa comum de transformação e de disputa de valores na sociedade,” pode acenar para mais uma hecatombe, sacrificando não mais bois de piranha, mas um partido inteiro. Daí a necessidade de reduzir e não ampliar alianças.

 

Urge repensar nosso partido para tempos de guerra e não mais para tempos de déficits de legitimidade ou de ilusões perdidas. Se existe tal déficit é porque não houve luta suficiente. Sobram análises de conjuntura e críticas ao mercado financeiro, mas faltam propostas de combate e superação desse modelo perverso. Aprendemos com o sofrimento que fazer diagnósticos de forma isolada é mais fácil, mas as soluções vêm de uma análise prognóstica coletiva e demorada.

 

Por outro lado, não podemos mais pensar sem a unidade da América Latina e a refundação de um novo tipo de Brics. O caminho para um novo Brics é um grande passo, mas pode ser vulnerável sem estreitar relações com outros países alinhados.

 

Mudar métodos de atuação das esquerdas é ter em mente que jogar o jogo sujo da democracia liberal não funciona mais. Esse jogo de cartas marcadas conduz aos golpes. Nosso jogo é o da luta pela sobrevivência de todo um ideário revolucionário global, não apenas eleitoral. Essa é a chama que acende os jovens e anima os mais experientes.

 

Para atrair os jovens e reconquistar os mais experientes temos que OCUPAR as sedes do partido e ampliar a influência nas novas classes trabalhadoras. Levar pão e acolhimento e reerguer um partido mais solidário e menos sectário.

 

Pôr em prática propostas efetivas de geração de renda para o seu autofinanciamento. Levar em conta também a criação de trabalho e renda para os militantes desempregados e seus familiares. Retornar ao sistema de mutirão e de aproximação com as comunidades e favelas. Não esperar que pessoas em situação de desalento ou de deriva venham até o partido.

 

Não adianta uma promessa mirabolante de combate às desigualdades ou planos de governo utópicos quando não somos governo. Se o modelo anterior do PT fosse bom não teria sofrido um golpe tão bem articulado. O mérito não é dos golpistas, mas o demérito é nosso. Governo que tem o povo como aliado não sofre golpe desse tipo, vide exemplos na América Latina e no Caribe.

 

A queda das instituições golpistas e da teia que prendeu o presidente Lula já está próxima, mas a democracia que falamos em tese não pode ficar distante daquela que muitos desejam. Um partido militante cada vez mais democrático e participativo. Não basta convidar o povo para a participação. Ele não vem se a mobilização é pontual e sem diálogo com as suas bases.

 

Um partido de vanguarda pode ser visto mais como “ A CASA DO POVO” do que partido tradicional. Tornar a militância mais organizada para a luta democrática é caminhar para além da luta política que segue o medíocre calendário eleitoral. É caminhar no dia a dia com seriedade, mas sem perder a ternura.

 

Os movimentos sociais e novas pautas são necessárias, mas um partido socialista deve ter um foco catalizador. Evitar frentes de batalhas internas que sempre levaram à autodestruição ou a desmotivação dos militantes. Este foco deve ser discutido democraticamente e não imposto de cima para baixo.

 

Vivemos tempos de guerra sim, é essa guerra mostra quem é o nosso inimigo. Simplifica os antagonismos e nos indica um norte para o enfrentamento. A barbárie já está instalada. Não basta agora apenas resistir. É hora de enfrentar.

 

A estratégia da profecia auto realizada só funciona se todos acreditarem, mas não existem profetas no partido. A promessa de um mundo melhor, sem fome, sem desemprego, sem ilusões só existe com luta. Isso o PT já provou que sabe fazer. Aprendemos que não basta ganhar eleições. NÃO HÁ VITÓRIA PERMANENTE SEM LUTA PERMANENTE.

 

Somar às lutas cultural, social, eleitoral e institucional, um plano de poder. Plano que estabeleça a transformação. Ampliando intercâmbios com nossos irmãos latinos, com governos, partidos e movimentos sociais de outros países que têm em mente que o enfrentamento do imperialismo que se inicia na descolonização do nosso próprio pensamento. É nesse sentido que apoiamos a chapa Em tempos de guerra, a esperança é vermelha.

 

 

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