Por Mateus Santos (*)

Em 2016, o então candidato à reeleição ACM Neto (DEM)  ganhou facilmente em Primeiro Turno com cerca de 74% dos votos. Números expressivos para quem, em 2012, superou Nelson Pelegrino (PT) por uma margem apertada. Sustentado pela estrutura do Palácio Thomé de Sousa, bem como por uma aliança ampla de partidos de direita e extrema-direita (muitos daqueles que haviam apoiado a destituição de Dilma), outro aspecto que chamou atenção no resultado foi o desempenho dos adversários que se apoiavam no governador Rui Costa. Reconhecidamente, o Palácio de Ondina possuiu três palanques: Alice Portugal (PCdoB), Pastor Isidório (PDT) e Claudio Silva (PP). Nenhum dos citados ultrapassou a margem dos 16%. Um desempenho bastante fraco para quem possuía suporte de um governo bem avaliado pela população.

Se não quisermos racionalizar essa tática apenas do ponto de vista da garantia de acomodação entre os setores governistas, a postura do governo neste pleito ilustrou também a tentativa de angariar eleitores de diferentes segmentos sociais a partir de candidaturas que supostamente os representavam. Se a candidata Alice Portugal, tendo como vice a companheira Maria Del Carmen (PT), teoricamente seria abraçada pelos votos de parte da esquerda soteropolitana e teria, no âmbito do discurso, a denúncia dos desmandos e da política destrutiva de Michel Temer, o apoio ao candidato Isidório era também uma maneira de garantir votos do eleitorado evangélico à oposição do prefeito do DEM. Numa colcha de retalhos, caminharia o governador na construção de três alternativas políticas, conectadas apenas pela sua benção.

Não só os números, mas o saldo político daquela eleição sugere um grande fracasso dessa tática que, ao fundo, expressa a manutenção de uma estratégia a todo o custo. Para acomodar aliados, o governo abriu mão da construção de um nome forte na cidade, uma candidatura que fosse capaz de efetivamente representá-lo no plano municipal e cumprir um papel efetivo de enfrentamento ao carlismo e ao golpismo numa das principais capitais do Brasil. A reeleição tranquila de ACM Neto externou como a conquista de Salvador será um grande desafio para o PT e seus aliados.

E hoje, após o excelente desempenho eleitoral do PT na capital em 2018, a mesma tática já foi sugerida por parte do governo ou de importantes figuras políticas do partido. O apoio fracionado entre candidaturas da base estadual, num contexto de mudança na legislação eleitoral e dos desafios colocados pela conjuntura, esbarra nas movimentações petistas em torno da construção de uma candidatura própria. Mais do que isso, as tentativas de costuras políticas de ACM Neto para garantir sobrevida política na cidade com a eleição de seu sucessor é mais um aspecto no mínimo intrigante ao analisarmos a permanência desta postura.

Dos nomes, até o momento, anunciados, Isidório aparece novamente como um pleiteante. Olívia Santana já foi anunciada como pré-candidata pelo PCdoB. No PT, uma disputa interna parece reger a vida partidária por mais um tempo, tendo nomes como a companheira Vilma Reis, os companheiros Juca Ferreira e Robinson Almeida. Correndo literalmente ainda por fora do partido, Guilherme Bellintani é colocado também como possibilidade petista por setores internos do partido. Olhando muito mais para o que o PT poderá representar neste processo, não somente seu nome, mas a construção de uma tática muito diferente do que foi a regra de 2016 se fará necessária.

Apesar de nunca ter ganhado na capital baiana, os desempenhos eleitorais e a preferência partidária sugerem a força do PT em Salvador. O reconhecimento dos 13 anos enquanto governo federal e dos quase 14 à frente do governo da Bahia, a força da militância e dos diferentes segmentos de apoiadores são alguns dos trunfos de um partido que tem totais condições de transformar este peso em força política capaz de impor uma derrota aos aliados soteropolitanos de Bolsonaro. O que poderia parecer ser uma ousadia petista, em verdade, constituir-se-ia em apenas o cumprimento de seu papel histórico enquanto principal legenda de oposição aos maiores resquícios do carlismo ainda no Estado.

A construção de uma forte candidatura do PT em Salvador atende aos interesses nos três planos políticos possíveis. Em termos municipais, traduzirá aos anseios daqueles e daquelas que buscam uma alternativa política num quadro de uma cidade com graves problemas sociais e estruturais. Em nível estadual, expressaria a força do governador Rui Costa, também quase um “prefeito” na capital, credenciando o partido para a sucessão de 2022. E em nível nacional, não menos importante, a caminhada para uma possível vitória que ajudará a melhorar o desempenho do partido nos grandes centros urbanos, após a tragédia eleitoral de 2016.

É ainda falando de um novo projeto de Brasil que Salvador e sua tática merecem atenção. Se é propósito do PT assumir o seu protagonismo político em oposição ao bolsonarismo, a caminhada por aqui é passagem obrigatória. O culto ao Nordeste de Resistência precisa ser traduzido numa efetiva política de elevação de nossos quadros aos postos mais altos dos executivos municipais e estaduais, sem concessão ao “centrão” nordestino e sua política camaleão (aliado estadual e apoio ao golpismo nacionalmente). No cenário que, cada vez mais se desenha pra 2022, as ilusões em torno da sobrevivência da conciliação de classes a partir da abertura de espaço na região em que possuímos maior protagonismo político poderão ser fatais pra qualquer pretensão do partido na luta contra o golpe.

Mais do que três nomes, caminhará o governador por três posições político-partidárias distintas. Ao invés de trabalharmos por um movimento de construção de uma sintonia nos planos estadual e municipal, correremos o risco de, mais uma vez, desidratarmos a candidatura à esquerda com maior viabilidade eleitoral. O que precisamos falar agora poderia parecer óbvio, mas infelizmente não é: um governo estadual petista com uma candidatura também petista em Salvador.

(*) Mateus Santos é militante petista e da JAE – BA

 

 

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