Por Múcio Magalhães (*)

O PT completou 41 anos de existência neste ano de 2021. A tendência petista Articulação de Esquerda comemora 28 anos de fundação, ocorrida em setembro de 1993, treze anos após a fundação do PT, quando a disputa de rumos do partido passou a se dar nos termos que vem se desenvolvendo até os dias de hoje.

A existência de uma tendência interna que se mantém organizada e intervindo nos debates que norteiam os movimentos políticos de um partido que alcançou a dimensão do PT, sem romper a linha da coerência com os fundamentos políticos orientadores da sua constituição enquanto corrente política, é um fato digno de nota.

A Articulação de Esquerda surgiu para organizar a luta da militância que discordou dos novos rumos apontados por importantes dirigentes do partido, convencidos da necessidade de procurar atalhos para chegar ao governo central, e de adaptar o PT ao novo perfil, notadamente mais institucionalizado, modificando seu funcionamento interno, moderando seu programa e ampliando o arco de alianças em direção ao centro e a direita.

No Manifesto aos petistas, também conhecido como Manifesto A Hora da Verdade, que foi o primeiro documento onde estas divergências foram abertamente discutidas, pode-se ler no segundo parágrafo: “É inegável que convivemos com o risco, diante do qual sucumbiram inúmeros partidos de origem operária e popular, de nos convertermos num partido da ordem. Em alguns momentos parecem estar esmaecendo os traços que nos distinguiram dos partidos do sistema, como na campanha das diretas, no episódio do Colégio Eleitoral, na recusa aos sucessivos pactos das elites: a contingência de estabelecer alianças, em torno de programas ou de propostas pontuais, transforma-se em objetivo a qualquer custo; a interlocução necessária com a sociedade cede frequentemente à tentação do senso comum, ao nadar- a – favor – da – corrente, num processo de hegemonia às avessas em que o discurso dominante nos iguala, tornando-nos, portanto, mais palatáveis.”

As preocupações e posicionamentos divulgados no Manifesto A Hora da Verdade consolidaram as divergências internas na Articulação dos 113, levando a uma cisão da tendência Articulação – que foi central na construção e consolidação do PT, e que por mais de dez anos foi hegemônica no partido -, surgindo então a Articulação de Esquerda e a “Unidade na Luta”, a atual CNB (“Construindo um Novo Brasil”).

Hoje, 28 anos depois, é forçoso reconhecer que as posições políticas que embasaram a fundação da AE estavam corretas, e que continua atual e necessária a disputa de rumos do partido, uma vez que se formou uma maioria que aprofunda os problemas apontados em 1993 e implantou novos, que colocam em risco a democracia interna, a elaboração coletiva, a existência de direções que funcionem e conduzam o partido a partir de formulações que sejam a síntese do debate democrático no seu interior e a existência de espaços internos para a militância.

No Manifesto A Hora da Verdade pode se ler no quinto e no sexto parágrafos: “O amadurecimento político do PT não pode refrear nosso caráter rebelde nem amainar nossa radicalidade. Chega de bom mocismo. Nada de domesticação. Radicalmente democrático, construído de “baixo para cima”, o PT, desafortunadamente, revela sintomas perigosos de burocratização. Nota-se um emperramento dos mecanismos democráticos de tomada de decisão; há um visível distanciamento entre direções e bases; é notório o esvaziamento das instâncias – dos núcleos de base às direções municipais, regionais e nacional; o pragmatismo, a competição, o eleitoralismo correm soltos, esgarçando o companheirismo, a convivência fraterna e a solidariedade. A fragmentação enfraquece o partido, afugenta os filiados e desanima a militância – nosso principal patrimônio.”

A Articulação de Esquerda mantém sua atualidade, lutando a partir da convicção que o PT não está perdido para a luta da classe trabalhadora, e apesar das enormes dificuldades é necessário continuar a lutar por uma nova hegemonia interna, lastreada em posições e práticas socialistas.

O capitalismo realmente existente no Brasil e no mundo não deixa margem para dubiedades. É preciso radicalizar a luta anticapitalista e pelo socialismo, situação que exige da AE um permanente esforço de elaboração e organização interna para ter capacidade efetiva de lutar pelo instrumento adequado a esta tarefa, o PT democrático, socialista e revolucionário.

A leitura e discussão coletiva dos documentos iniciais da Articulação de Esquerda é mais que uma mera curiosidade histórica, é um exercício para entender a disputa de rumos do PT, e ao fim e ao cabo, da própria classe trabalhadora brasileira.

Ser da AE é uma opção radicalmente petista, pois somos petistas que mantém viva a inspiração que levou a fundação do PT, e por isso não abrimos mão do socialismo e da revolução.

(*) Múcio Magalhães é dirigente do PT de Pernambuco, dirigente e um dos fundadores da tendência petista Articulação de Esquerda.

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