Por Natalia Sena (*)

Texto publicado na edição de junho do Jornal Página 13

Os debates sobre qual será a tática, da esquerda à direita, para as próximas eleições nacionais, já estão a todo vapor. A eleição de 2022 vai eleger presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais, e se nenhum “atropelo” for cometido até lá, acontecerá em outubro de 2022, daqui mais ou menos 16 meses.

No PT, o mais provável e que é unanimidade, é a candidatura do companheiro Lula, que recuperou seus direitos políticos após 3 anos de farsa judicial que o impediu de disputar a eleição de 2018. Na direita, o único candidato forte até agora é o próprio Bolsonaro, que conta principalmente com apoio de base popular, nas forças de segurança e no empresariado. A busca por uma “terceira via” segue, Ciro trabalha para ter chances com o marqueteiro João Santana, há quem diga que a expulsão de Rodrigo Maia do DEM está nesse contexto, e por aí vai. Se as eleições fossem hoje, pelo que as pesquisas indicam, Lula seria o vencedor.

Mas as eleições não são hoje. E o fato é que no Brasil – assim como em outros países da América Latina (basta ver o que está acontecendo no Peru) – a extrema direita, incluindo os militares, não está para brincadeira. Por isso, não é suficiente que a esquerda tenha a maioria de votos: o lado de lá realmente existente acha que só termina quando eles ganham. Portanto, se nós quisermos que haja eleição, se quisermos que Lula seja candidato, se quisermos que Lula ganhe, se quisermos que Lula tome posse e governe, será preciso enfrentar para valer a extrema direita. E com qual tática devemos fazer isto?

A “dupla tática” adotada por Bolsonaro é bastante nítida. De um lado, movimentações de “política tradicional”: aliança com o “centrão”, o que inclui um acordão em torno do orçamento, loteamento de cargos no governo, articulação para as presidências da Câmara e do Senado; oscilações no discurso, cujo exemplo mais recente é o seu último pronunciamento em cadeia nacional, onde defendeu a vacina e falou para o mercado sobre as maldades que está entregando (passando o recado de que há compromisso programático da parte dele); a inescapável busca por um partido para se filiar, já que precisa disso para concorrer às eleições. Esses são alguns exemplos dessa face “política tradicional” da tática bolsonarista. Sendo que, por outro lado e ao mesmo tempo, ele prossegue nos “movimentos de radicalização”: a participação em atos públicos de caráter golpista e que provocam aglomeração, sem usar máscara; a gravíssima escalada da violência por parte das forças militares, estimulada por Bolsonaro, acompanhada de impunidade e muita politização, são exemplos da tática de radicalização (Jacarezinho, a brutalidade da PM em Recife no ato de 29 de maio, a prisão do vereador petista em Curitiba, do professor petista em Goiás, a situação do sistema penitenciário em Manaus, a decretação de sigilo por até cem anos do processo que absolveu o general da ativa e ex-ministro da saúde Pazuello, por ter participado de ato político no RJ).

A situação política é gravíssima. O governo Bolsonaro é criminoso em vários sentidos, é assassino na condução da pandemia (não só), corrupto no uso dos recursos públicos, militarizado e com fortes impulsos golpistas. E não podemos de forma alguma descartar nenhum cenário, nem mesmo aquele em que Bolsonaro tente de alguma forma a colocar em questão as eleições de 2022. Estamos diante de um problema sistêmico e imediato, frente ao qual nossa elaboração e nossa prática atual (em governos estaduais e no governo federal) é totalmente insuficiente para enfrentar desafios tão complexos, como por exemplo a desmilitarização da segurança pública e a despolitização das forças armadas.

Por tudo isso, quando se fala de tática do nosso lado, é um erro muito grande que nos limitemos a uma tática exclusiva ou principalmente eleitoral. Contra a violência sistêmica e estatal, o aparelhamento das forças de segurança e armadas, a ação de milícias… contra tudo isso, uma tática que aposte todas as fichas na eleição marcada para acontecer em 2022, quase que totalmente dependente de um “homem só” e crente numa eventual sinceridade de supostos golpistas arrependidos, é insuficiente.

Neste sentido, ganham imensa importância a convocação e construção pelo PT das manifestações populares em defesa do impeachment, da vacina, do auxílio emergencial e dos empregos. É um dever do nosso campo ocupar as ruas, as manifestações devem prosseguir e aumentar de tamanho. Para enfrentar de conjunto a situação que vivemos hoje no Brasil, é imprescindível prosseguir a mobilização de massas, como no 29M e no 19J. Certamente isso não significa desconhecer ou minimizar os problemas derivados da mobilização em tempos de pandemia, que já está em sua terceira onda, que será tão ou mais violenta que a anterior, a depender de algumas variáveis, com destaque para o ritmo da vacinação.

Mas o fato é que não vai ter atalho no enfrentamento contra o governo Bolsonaro. Não há como “esperar para outubro”, “esperar a pandemia passar”, ou se confiar que os resultados das pesquisas feitas hoje vão aparecer nas urnas daqui a 16 meses. É só pela esquerda, com discurso e programa de esquerda, com radicalização, nas ruas e com muita pressão popular e trabalho junto à classe trabalhadora, que vamos construir as condições para derrotar Bolsonaro, seu governo e suas políticas, nas eleições marcadas para acontecer no próximo ano.

Por isso o dia 19 de junho é fundamental e os petistas de todo o país estão convocados a se engajar na construção dos atos nas suas cidades, tomando todos os cuidados sanitários, com nossas bandeiras, camisetas e símbolos. Fazer luta e mobilização é tarefa de sobrevivência nesta verdadeira guerra em curso no Brasil sob Bolsonaro.

A tática para vencer é ocupar as ruas!

(*) Natalia Sena é integrante da Executiva Nacional do PT.

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