Por Wladimir Pomar (*)

2019 será marcado pela história brasileira como uma realidade preocupante. O desmonte das poucas conquistas anteriores de seu povo, tanto na economia quanto na política, na cultura, na educação, na saúde e nos demais campos que compõem a vida social, tem avançado de forma constante, apesar da propaganda que procura demonstrar que as coisas não são tão ruins quanto parecem.

Por exemplo, houve um esforço constante do governo, e também da grande imprensa, para passar a ideia de que a economia brasileira estava melhorando. As atividades produtivas estariam começando a indicar crescimento, elevando o desejo dos empresários em investir. Na prática, porém, sequer a riqueza guardada no pré-sal foi capaz de atrair investimentos das grandes corporações petrolíferas.

Para salvar a face, o governo bolsonarista viu-se na contingência de pedir a ajuda dos chineses, ao mesmo tempo que culpou o fracasso da atração de investimentos a erros da legislação, a serem corrigidos. Considerações idênticas foram repetidas em relação a supostos projetos de infraestrutura e de expansão industrial.

Algo semelhante ocorreu com o desejado crescimento do comércio e dos empregos. O governo admitiu que ainda seriam pequenos os indicadores a respeito, mas acrescentou que eram positivos e haviam demonstrado forte tendência de crescimento. Achou que ninguém notaria que as supostas indicações de melhoria haviam tido por base a liberação máxima de recursos do FGTS, que poderiam apresentar momentâneos indicadores positivos, mas não tinham consistência a médio e longo prazos.

Na prática, se a realidade for examinada com um pouco mais de profundidade, o quadro descortinado é extremamente preocupante, especialmente para os trabalhadores. A taxa de desocupação, perto de 12%, continuou persistente, apesar de mascarada por trabalhadores informais, que somaram mais de 24 milhões. Mesmo assim, mais de 12 milhões continuaram desocupados. E somaram mais de 64 milhões as pessoas excluídas do mercado de trabalho e mais de 27 milhões o número de trabalhadores subutilizados.

Desse modo, a precarização no mercado de trabalho brasileiro agravou sobremaneira a situação dos trabalhadores. Se somarmos a isso o processo de desindustrialização, mascarado pelo programa de privatizações levado a cabo pela política econômica do Posto Ipiranga, não será difícil concluir que a situação social brasileira foi agravada de maneira crítica. Ela se tornou ainda pior do que no início dos choques da crise mundial na economia brasileira, entre 2014 e 2016, porque o governo bolsonarista não tem interesse algum em responder aos problemas da desocupação dos trabalhadores, assim como da elevação do custo de vida, cada vez mais presentes na situação do país.

O combate à pobreza, à desigualdade e à precariedade não fez parte das preocupações e das atividades práticas do governo. Ou seja, sequer foi tratada pelo que se costuma denominar de políticas públicas. E, quando apareceu como programa governamental, tornou-se piada de mau gosto. Basta dar uma olhada, mesmo superficial, ao chamado “trabalho verde e amarelo”.

O auxílio público merreca pago aos desempregados passou a ser descontado para financiar empregos para jovens desempregados. Assim, os milhões de desempregados que comiam apenas uma refeição por dia com o seguro desemprego, passaram a ter que comer apenas meia refeição, enquanto os patrões poderão conseguir um lucro extra ao dividir com os desempregados o pagamento dos salários de jovens contratados pelo tal “trabalho”.

Essa ofensiva desestruturante da economia e do trabalho foi acompanhada, tanto pelo governo, quanto pelas demais forças políticas reacionárias, de tentativas variadas no sentido de reduzir ainda mais os direitos democráticos, substituir a pluralidade ideológica na educação pública e na cultura por um unitarismo ideológico fascista ou inquisitorial, sucatear o sistema de saúde pública, quebrar cláusulas pétreas da Constituição de 1988, elevar a letalidade das forças policiais, subordinar a política externa do país às políticas globais norte-americanas, e restringir cada vez mais a luta contra a corrupção a seus inimigos políticos.

Em termos práticos, com exceção das tentativas de aprovar e levar à prática políticas econômicas neoliberais, diversas das atividades governamentais levadas a cabo pelo bolsonarismo resultaram em divergências no campo das forças políticas da direita. Dentre essas divergências são destaque as tentativas de atropelamento das disposições constitucionais, inúmeros itens da política externa, os ataques à educação e à cultura, e as tentativas de subordinar a grande imprensa ao baixo nível das ações governamentais.

Foram essas divergências, além das pressões populares, que permitiram um certo freio nos atropelamentos das leis pelos operadores das ações anticorrupção e permitiram que Lula se visse livre da prisão. Mas, apesar disso tudo, os desmandos do bolsonarismo não conseguiram empurrar as forças de esquerda para uma unidade consistente, seja estratégica ou tática.

Parte considerável desse campo político acredita piamente que as bizarras trapalhadas bolsonaristas bastarão, por si só, para afundar essa corrente aparentada do integralismo dos anos 1930 (galinhas verdes) já nas eleições de 2022. Outra parte acredita que o fracasso das políticas econômicas neoliberais também contribuirá, mais do que qualquer outra, para os mesmos resultados. Conclusões que têm levado à inação e à ausência de estratégias e táticas consistentes.

Partidos orgânicos da esquerda política que estiveram no governo central até 2016, por outro lado, até agora não mostraram qualquer disposição de criticar seus próprios erros. Por exemplo, por não haverem elaborado políticas consistentes para disputar as estratégias de luta contra a corrupção, deixando que elas fossem monopolizadas por forças políticas reacionárias e conquistassem corações e mentes de grandes camadas populares. Ou por sua tentativa desastrosa de adotar políticas neoliberais para solucionar, a partir de 2013-2014, a crescente crise da economia brasileira.

Vistos os vários aspectos da atual realidade brasileira, eles são preocupantes.

(*) Wladimir Pomar é jornalista e escritor.

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