Por Wladimir Pomar*

 

As tendências econômicas, sociais e políticas, internacionais e nacionais que marcaram 2017 não foram tranquilizadoras, indicando que 2018 pode ser ainda mais perturbador. A crise capitalista global parece se aproximar de novo surto de irracionalidade financeira, enquanto o governo trumpista continua empenhado em criar turbulências em toda parte.

Nessas condições, a possibilidade de eclosão de conflitos nacionais e regionais, capazes de colocar todo o resto do mundo em tensão máxima, continua sendo uma perspectiva real, principalmente se considerarmos que a fração industrial armamentista dos Estados Unidos, em conluio permanente com seu sistema financeiro, passou a ser uma das principais peças das consultorias do governo Trump.

Também não é impensável o ressurgimento de processos regionais e nacionais, sejam regressistas e reacionários, sejam revolucionários. Todos em consequência ou como reação à crise e às intervenções das grandes potências, que estão produzindo imensas migrações, aumento da miséria social, desemprego estrutural, e paralisia econômica. Apesar de indicadores menos turbulentos, como melhoria nos preços de algumas commodities minerais e agrícolas, é com a provável piora do contexto mundial que o Brasil se verá em 2018.

O governo golpista, auxiliado pelo partido da mídia, deve continuar  martelando a “pauta positiva”: “inflação em queda”, “economia em recuperação”, multiplicação das “oportunidades de negócios”, “redução do desemprego”, “juros em baixa”, “aumento dos investimentos” (mesmo quando direcionados para bolsas de valores ou outros mecanismos especulativos), e “elevação dos recursos para programas sociais”. Ou seja, nada ou quase nada diferente do praticado em 2017. Paralelamente, deve dar continuidade ao programa de “reciclagem” dos processos contra a corrupção, de modo a salvar sua própria quadrilha e fazer com que a guilhotina desses processos recaia exclusivamente sobre Lula e o PT.

A realidade, porém, tende a potencializar os aspectos negativos das “reformas neoliberais” e da prática governamental golpista. Nada indica que a continuidade do desemprego de milhões de trabalhadores, associada à precarização dos empregos existentes e a uma atividade econômica recessiva terá alguma perspectiva real de melhora. E tudo inndica que uma possível aprovação dos cortes previdenciários e da elevação dos tributos pagos pelos mais pobres continuará alimentando dolorosamente explosões populares anárquicas e a “guerra civil não declarada” que consome mais vítimas anuais do que guerras reais em outras partes do mundo.

Porém, mesmo assim não se deve desprezar a capacidade da burguesia em acuar o povo e suas forças democráticas e progressistas e consolidar seu projeto durante 2018, com o impedimento da candidatura Lula e a “eleição” de Alkmin, Bolsonaro ou outro candidato tirado da cartola. O que vai depender, em grande medida, do PT e demais correntes de esquerda reconhecerem a tempo que sua base social popular e democrática está dispersa, desorganizada e desestruturada, sem condições imediatas de uma mobilização massiva como nas greves de 1978 e nas “diretas-já” de 1983, único tipo de mobilização capaz de dar um basta! ao golpismo.

Se as organizações de esquerda forem incapazes desse reconhecimento e não derem a atenção necessária para reverter essa situação, dificilmente terão condições de conter a ofensiva estratégica reacionária, vencer a batalha tática eleitoral de 2018 e transformar a maior parte do povo brasileiro numa força capaz de derrotar a ação destrutiva do conluio entre a burguesia nativa e a burguesia monopolista estrangeira.

Não há dúvidas que muita gente na esquerda voltou a falar na necessidade do trabalho cotidiano de base, num reconhecimento explícito de que a esquerda perdeu seu enraizamento tanto nos locais de trabalho quanto de moradia e estudo das classes populares, locais que são o foco principal da luta dessas classes por seus direitos e reivindicações elementares. No entanto, isso nem sempre é acompanhado do reconhecimento de que isso se deve, em grande parte, ao abandono ou enfraquecimento das formas de organização sindical, associativa e partidária de base nesses locais.

Em tais condições, mesmo que as diversas correntes de esquerda consigam elaborar um novo projeto estratégico para o Brasil, isso terá pouco efeito se elas não conseguirem barrar a ofensiva reacionária. O que só será possível se contarem com organizações de base atuantes, capazes de mobilizar contingentes massivos que possam deter as diferentes frentes da ofensiva reacionária. Dizendo de outro modo, isso significa que, no atual momento, a questão estratégica reside em criar uma barreira populacional massiva para deter a ofensiva reacionária.

Isto é, a tática de luta de 2018 será estratégica para derrotar os golpistas e criar condições favoráveis para construir um projeto que leve em conta as experiências negativas e positivas da esquerda no governo do país. Assim, as diversas correntes ou partidos da esquerda perderão tempo e esforços se forem incapazes de colocar em primeiro plano a organização, a luta e a mobilização social massiva, capaz de derrotar a ofensiva golpista e criar condições reais para discutir e levar à prática um novo projeto de país.

Nesse sentido, a questão central da atualidade brasileira reside na defesa dos direitos sociais. É a defesa desses direitos que pode mobilizar dezenas de milhões de trabalhadores e membros de outras camadas populares e da pequena-burguesia na defesa dos direitos democráticos e da soberania nacional. E é essa mobilização massiva que pode levar o bloco dominante a rachar e fazer com que frações medias da burguesia fiquem neutras ou mesmo se aliem às camadas populares e médias. Isso nada tem a ver com qualquer pacto entre a classe trabalhadora e setores da burguesia, mesmo porque a esmagadora maioria da burguesia brasileira é associada, dependente e subordinada das burguesias monopolistas estrangeiras.

Pensando para além de 2018, caso as forças populares e democráticos derrotem os golpistas, assumam o poder de Estado e iniciem a construção de um projeto de transição socialista, poderá haver um pacto com uma nova burguesia para o desenvolvimento das forças produtivas, pacto que incluirá a subordinação dessa burguesia ao poder democrático e popular e a cooperação e a concorrência de suas empresas com as empresas estatais.

Antes disso, porém, apesar das divergências que possam existir, será preciso garantir que Lula concorra às eleições de 2018 com o compromisso de revogar as reformas neoliberais e iniciar um programa de desenvolvimento que inclua uma reindustrialização soberana, com geração de empregos, elevação da renda da sociedade, alteração da estrutura produtiva, reconstrução e modernização da infraestrutura nacional (portos, ferrovias, hidrovias, aeroportos e geração de energia limpa). Tudo isso tendo em vista o desenvolvimento social e o mercado interno, suprindo a população de alimentos e produtos industriais, de transportes, saneamento básico, água potável, educação, saúde, energia elétrica e moradias.

Ou seja, dependendo da capacidade das correntes de esquerda compreenderem esse jogo da relação entre estratégia e tática, na qual momentaneamente as questões táticas se tornam estratégicas, isso pode levá-las, em 2018, a jogarem pesado na mobilização popular para deter a ofensiva neoliberal radical e passar à contraofensiva, tendo as eleições presidenciais como a batalha da virada. Se não forem capazes dessa compreensão, talvez 2018 se afirme não como o ano de virada do povo brasileiro, mas como o ano em que as forças reacionárias consolidaram seu golpe e vão submeter esse povo a um período ainda mas destrutivo do que a década neoliberal dos anos 1990. E não adianta chorar.

 

* Wladimir Pomar é escritor e analista político

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