A FBP realiza sua II Conferência Nacional diante de uma conjuntura política adversa, mas com potencialidades para transformar a correlação de forças.

 

Por João Paulo Rodrigues e Miguel Stedile*

Não há dúvidas de que o ano de 2018 será não apenas decisivo, mas de intenso acirramento na luta de classes. Sem legitimidade popular, refém de um parlamento não menos impopular, o governo golpista tenta desesperadamente se reconciliar com o mercado, acelerando as retiradas de direitos que, por sua vez, agravam e acentuam a crise econômica. Ainda que vivemos uma das ondas mais conservadoras e excludentes de nossa história e, mesmo apoiado no poder midiático e financeiro, a direita não consegue concluir seu programa de saque dos recursos do Estado e dos bens da natureza. Antes protagonistas do golpe, sujeitos como a classe média e a República de Curitiba já sofrem o desgaste pela responsabilidade em parir o governo golpista. Será, portanto, um período ainda de ofensiva contra a soberania, os direitos e a democracia. E para enfrentá-lo, caberá as forças populares capacidade de luta e unidade.

É neste contexto adverso, mas de potencialidades, que a Frente Brasil Popular prepara sua II Conferência Nacional, nos dias 8 e 10 de dezembro, na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), em Guararema (SP), com o tema “Unidade e luta por Democracia, direitos e Soberania”.

Surgida ainda em fins de 2015, a FBP ganhou protagonismo na luta contra o golpe e o impeachment, convocando e coordenando manifestações de resistência e de defesa da democracia. O processo de luta e mobilização forjou uma unidade na prática das organizações participantes, e não apenas retórica, o que se expressou ainda na construção do Plano Popular de Emergência, um conjunto de medidas para retomar o desenvolvimento e reestabelecer a democracia, avançando na solução de problemas concretos da sociedade brasileira.

Agora, a FBP tem a responsabilidade de construir o enfrentamento para uma das piores crises sociais, econômicas e políticas já vividas, fruto da própria dinâmica estrutural capitalista sob hegemonia do capital financeiro internacional, que tem no golpe sua maior expressão dos interesses deste capital.

Compreendendo a articulação entre o golpe e a crise estrutural capitalista é que a Conferência exigirá o estudo aprofundado tanto da conjuntura brasileira, quanto internacional, assim como também será momento de expressão de solidariedade com o povo venezuelano sob ataque deste mesmo capital financeiro e dos interesses estadounidenses.

Assim, a Conferência tem por desafio fortalecer esta unidade entre movimentos sociais, sindicais, partidos políticos, pastorais, artistas, juventude, negras, negros, LGBT’s, povos tradicionais, trabalhadores e trabalhadoras, justamente através das lutas e mobilizações. Por isso, o Plano de Lutas para 2018, pontuado pela construção de uma meta-síntese político-organizativa da FBP, será um dos temas centrais da II Conferência.

Isso exigirá ainda a reflexão deste conjunto de organizações sobre os limites e desafios enfrentados para organização das lutas de massas, capazes de alterar e decidir a correlação de forças. Significa tanto identificar as bandeiras de lutas que unifiquem a classe, organizada ou não, com força suficiente para superar a apatia e o desinteresse das massas, bem como de construir outros métodos de participação e ação dos trabalhadores e trabalhadoras.

Essas reflexões incidirão ainda sobre o debate da natureza da Frente Brasil Popular, uma vez que são os desafios políticos que tem moldado a forma organizativa desta articulação. A frente deve estar aberta a organização e participação, tanto de organização como de indivíduos, ter tarefas comuns e metas organizativas que contribuam na sua consolidação. Importante neste processo aprofundar o enraizamento da FBP no maior número de cidades brasileiras e nos bairros das grandes cidades associado a um grande mutirão envolvendo toda a militância e lideranças populares numa metodologia de trabalho de base que debata as saídas para a crise, politize e motive a construção da FBP através dos comitês locais.

Da mesma maneira devemos nos projetar não somente em ser um protagonista no centro de agendas de lutas e ter um Plano Popular de Emergência, a FBP deve avançar em sua elaboração programática em direção a um projeto de país, em conexão com iniciativas similares em curso dentro do campo popular.

Mais do que o calor dos debates, será a capacidade de provocar o calor das ruas que definirá os rumos desta ferramenta, construída e forjada na luta. Em uma conjuntura tão adversa, mas ao mesmo tempo rica em potencialidades – justamente é este acirramento que permitirá avançar e aprofundar debates de projetos para o país – é que a Frente Brasil Popular tem diante de si a possibilidade de combinar a criatividade e a experiência acumulada pela esquerda para resgatar a democracia e a soberania sob bases populares.

* João Paulo Rodrigues e Miguel Stedile são dirigentes do MST
Fonte: Página 13 n. 174, dez. 2017

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