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Editorial

2018: tempos melhores (e piores) virão

O Partido dos Trabalhadores reunirá seu Diretório Nacional nos dias 15 e 16 de dezembro de 2017. Este texto foi redigido antes da reunião e, portanto, relaciona os debate e as decisões que gostaríamos que fossem adotadas pela direção do principal partido de esquerda do país.

Em primeiro lugar, uma análise da situação mundial. Não apenas no que diz respeito a continuidade da crise do capitalismo, a seus efeitos sociais e ambientas, políticos e militares; mas principalmente no que diz respeito a evolução da situação regional, especialmente quanto ao que foi revelado pelas recentes eleições no Chile e em Honduras.

O Chile confirmou o potencial, eleitoral inclusive, de uma aliança da esquerda com a esquerda. E Honduras demonstrou que para derrotar o golpismo, não basta vencer as eleições seguintes. Nos dois casos, há ensinamentos para nós, da esquerda brasileira e especialmente do PT.

Em segundo lugar, uma análise da situação nacional. Destaca-se o crescimento de Lula nas pesquisas, motivado em parte pelo descalabro do governo Temer e dos ataques golpistas contra os direitos sociais, as liberdades democráticas e a soberania nacional; e, doutra parte, motivado pela resistência oferecida por Lula, pelo PT e pelo conjunto da esquerda. Destaca-se, também, a consolidação da alternativa Bolsonaro.

Enganam-se os que o tomam como algo exótico. A candidatura Bolsonaro é a expressão orgânica de movimentos profundos, entre os quais podemos citar a desmoralização da política, causada em parte pela ação dos políticos tradicionais e, em parte, como efeito da Operação Lava Jato; a decorrente da crise e dificuldades eleitorais dos grandes partidos da centro-direita e de suas candidaturas; e, acima de tudo, a disposição de boa parte das elites, que desejam ver sangue correndo nas ruas.

A polarização crescente entre Lula e Bolsonaro obriga a direita tradicional a movimentar-se contra ambos, tentando apresentar-se como uma alternativa de estabilidade. Alckmin é, ao menos por enquanto, o nome destes setores. Mas para que Alckmin tenha chances eleitorais, é preciso em primeiro lugar impedir Lula de concorrer. Por isto, devemos nos preparar para, a qualquer momento, reagir contra novos atropelos jurídicos, inclusive uma condenação em segunda instância e um “pronunciamento” do STF acerca do registro da candidatura Lula. Não descartando outras possibilidades, ainda mais duras.

Sendo este o cenário, cabe ao PT decidir baixar a cabeça ou subir o tom. Esperamos que o Diretório Nacional do PT decida subir o tom. Primeiro, reafirmando a candidatura Lula. Segundo, sinalizando uma política de alianças e um programa pela esquerda. Terceiro, preparando ações mais duras, de mobilização contra os golpistas.

Estamos a vários meses da inscrição de candidaturas às eleições de 2018.  É preciso deixar claro, para o país, desde já, que frente às arbitrariedades, nós convocaremos uma multidão para inscrever a candidatura Lula junto ao TSE, no primeiro dia dos prazos previstos em lei.

Evidentemente, devemos buscar o apoio dos demais partidos de esquerda, assim como dos setores democráticos anti-golpistas presentes em outros partidos. Mas não devemos nos iludir. Embora a maior parte da esquerda e dos setores democráticos apoie o direito de Lula ser candidato, há também os que preferem outras alternativas, seja candidaturas próprias, seja alianças com candidaturas de centro. Sem falar do medo que muitos setores têm de, ao insistir na candidatura de Lula, estarem alimentando uma tática de boicote eleitoral.

Por tudo isto, é preciso que o PT tenha claro: nossa sobrevivência como alternativa política e eleitoral do povo brasileiro depende, neste momento, de nossa militância, de nossos simpatizantes, de nossos aliados mais próximos e daqueles setores que entenderam que não está em jogo apenas o PT ou Lula. Está em jogo o direito do povo escolher seu presidente, está em jogo a soberania popular, afrontada pela tutela do poder judiciário, do alto comando das forças armadas, da grande mídia e do grande capital.

Não precisamos, evidentemente, atacar os partidos de esquerda que por ora não queiram marchar conosco, que tenham decidido ter candidaturas próprias. Com eles devemos insistir, até o último momento, na necessidade de termos uma postura inflexível em defesa da democracia, em não transigir frente ao golpismo, em ter a perspectiva de nos unirmos em algum momento da trajetória.

Por isto o Diretório Nacional do PT deve avisar que continuam válidas as resoluções do Congresso do PT acerca da política de alianças nas eleições de 2018. Petista não se alia com golpista, nem com aqueles que votaram a favor do golpe contra Dilma, nem com aqueles que apoiaram e seguem apoiando medidas golpistas contra os interesses nacionais, contra as liberdades democráticas e contra a soberania nacional.

Em vários estados do país, governadores e outras lideranças petistas tem apoiado não apenas alianças com partidos de centro-direita, mas inclusive dado aval a candidaturas e participação em chapas com golpistas. Que estes personagens da centro-direita achem interessante marchar com o PT e com Lula, por razões eleitorais, é compreensível, ao menos por enquanto (mais a frente, podem mudar de opinião, deixando os petistas aliancistas de hoje a ver navios). Mas que petistas contribuam para confundir o quadro político, impedindo através de más companhias que nossas campanhas eleitorais deixem claro a necessidade de derrotar o golpe e revogar suas medidas, isto só é compreensível para quem coloca os interesses pessoais e locais acima dos interesses gerais e nacionais da classe trabalhadora e da esquerda.

Em terceiro lugar, o PT deve decidir o que fazer quanto a uma decisão adotada pelo Congresso do Partido: o de realizar uma consulta ao conjunto de filiados e filiadas, sobre o processo de eleição das direções partidárias. Razões práticas nos obrigam a realizar esta consulta até no máximo maio de 2018. O melhor que o Diretório pode fazer é transformar esta consulta num processo de mobilização política do petismo, seja transformando o dia da votação num dia nacional de filiação ao PT, seja incluindo na cédula eleitoral duas perguntas mais: uma sobre a retomada da contribuição financeira obrigatória e outra sobre o apoio a que um futuro governo Lula revogue as medidas golpistas e convoque uma Assembleia Constituinte.

Esperamos que o Diretório Nacional do PT, reunido nos dias 15 e 16 de dezembro de 2017, adote medidas desta natureza. Não cometendo, frente a uma conjuntura cada vez mais difícil, equívoco semelhante ao que alguns líderes da CUT e de outras centrais sindicais adotaram quando decidiram suspender a greve geral convocada para o dia 5 de dezembro. Como fica claro nos artigos de Jandyra Uehara, Eliane Bandeira e Professor Dudu, estamos num daqueles momentos da história em que uma boa briga é infinitamente melhor do que um péssimo acordo.

Os editores e as editoras

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