Por Vanda Nunes Santana

No dia 16 de novembro de 2017 uma grande Marcha abriu a Jornada Continental Pela Democracia e Contra o Neoliberalismo, em Montevidéu.

Concentrada na Universidad de La República, a marcha foi construída pela Confederação Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras das Américas (CSA ), movimentos de mulheres, entidades sindicais e movimentos sociais de 23 países.

Latas e tambores da Batucada Feminista da Marcha Mundial das Mulheres davam o ritmo da caminhada. Eram ecoadas canções e palavras de ordem para denunciar o neoliberalismo que controla os territórios e as vidas, oprime e tira direitos, particularmente das mulheres.

Os debates feitos ao longo da jornada buscavam denunciar as facetas mais perversas do neoliberalismo e sua interferência na vida da classe trabalhadora e, principalmente, das mulheres trabalhadoras. Como maneira de se combater o neoliberalismo, os diversos movimentos ali presentes defendiam a soberania dos povos; autonomia sobre as vidas e os corpos das mulheres. Além disso, denunciavam as investidas e impactos das transnacionais e do “livre” comércio e os impactos frente aos golpes no Brasil, Paraguai e Honduras e aos bloqueios econômicos a Cuba e Venezuela.

Cerca de três mil pessoas participaram de intensos debates nas tendas e mesas de discussões simultâneas. Os debates em torno da resistência popular frente ao poder das transnacionais trouxeram discussões acerca do acordo de livre comércio aliado a ação do capitalismo e os malefícios que causam à sociedade, tais como os impactos ambientais, a devastação, a poluição das águas e contaminação de nossas terras e corpos, pelo uso excessivo de agrotóxicos e minérios.

Uma das femenageadas na jornada foi Bertha Cáceres, da resistência feminista, dirigente da Frente Nacional Contra
o golpe de Estado em Honduras. Essa lutadora foi assassinada em 2016 por fazer frente ao governo de Hernández e denunciar o golpe contra as mulheres e por combater à violência sexual, à exploração e precarização do trabalho. Bertha foi incansável na denúncia de violência e assassinatos de mulheres, dos despejos das famílias camponesas e da repressão no campo.

Todas essas violências e o assassinato de Bertha e tantas outras são exemplos de golpes contra as mulheres, os quais
demonstram que grupos conservadores e fundamentalistas têm ainda poder e controle sobre a vida e nossos corpos, sobre nossas decisões, limitando nossa autonomia

Os impactos do neoliberalismo são mundiais e no Brasil tem se apresentado de maneira despudorada após a saída de Dilma Rousseff da presidência da República. O governo golpista de Michel Temer tem operado por meio de uma série de medidas neoliberais contra a vida do povo brasileiro. A exemplo temos a EC 95 que congela investimentos nas políticas básicas, como saúde, educação e privatiza os serviços públicos; a Reforma Trabalhista, que prioriza o grande capital, em detrimento da classe trabalhadora; PEC 287 que mexe nos nossos direitos trabalhistas e previdenciários; a PEC 181 que ataca os direitos das mulheres e o aborto legal e seguro.

Todos esses projetos neoliberais colocados em prática após o golpe intensificaram o poder econômico, reprimindo os movimentos populares e naturalizando ainda mais a violência do Estado.

A atual democracia burguesa limita as lutas dos trabalhadores e das trabalhadoras por não estar vinculada ao bem estar do povo. Isso porque ela não promove a igualdade entre mulheres e homens, não defende o fim da exploração da classe trabalhadora, não defende o direito à terra, continua promovendo desigualdades e não visa o acesso à comunicação popular e à cultura como forma de democracia, soberania e integração entre os povos latino-americanos.

Os efeitos do neoliberalismo na América Latina se apresentam, por exemplo, no boicote americano ao governo de Maduro na Venezuela, que gera escassez de alimentos e medicamentos, e ataca diretamente a vida das mulheres que estão à frente dos movimentos em defesa da terra, na cidade e no campo. Tais lutas são os pilares de sustentação de suas famílias, uma vez que são responsáveis pela organização e recebimento dos alimentos nas comunas (organização comunitária que reúne moradoras e moradores de três a quatro bairros vizinhos).

No entanto, apesar dos efeitos devastadores do neoliberalismo e do capitalismo, temos exemplos de resistência, como é o caso da guatemalteca Rosália Tuyuc da Vila Campesina. Mulher e indígena, sobreviveu ao genocídio da década de 1980 e denunciou a matança de seu povo e os roubos de suas terras pelo capital internacional. Ela nos falou da importância de resistir e defender os elementos da natureza e da necessidade de estarmos juntas para garantir o direito à terra, à água, à floresta e à vida. Mulheres como Rosália nos lembraram da importância de globalizar a luta e a esperança. Em um grito de paz parabenizou a luta das mulheres.

Para fazer frente à política neoliberal e a ofensiva conservadora que se impõe sobre nossas vidas, corpos e territórios, as mulheres presentes na jornada reafirmaram nossa luta anticapitalista e antipatriarcal, na luta pelo socialismo, na defesa da integração dos povos, no enfrentamento à divisão sexual do trabalho e à exploração sexual, na luta pela autonomia sobre nossos corpos e  na legalização do aborto: “mulheres contra a guerra, contra o capital, contra o machismo e o capitalismo neoliberal!”

Vanda Nunes Santana é militante da Marcha Mundial das Mulheres

 

 

 

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